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Chupeta – amiga ou inimiga?

Bolsa de Especialistas

Hugo Rodrigues

Com o investimento (felizmente) cada vez maior na promoção do aleitamento materno, houve um utensílio classicamente associado aos bebés que foi sendo um pouco questionado: a chupeta! Mas será que ela é assim tão prejudicial? Vamos tentar descobrir...

Chupeta e amamentação – serão incompatíveis?

Não há dúvida de que as chupetas são uma espécie de “mamilo artificial”. E é precisamente por esse facto que se começou a questionar se não haveria nenhuma incompatibilidade entre elas e a amamentação. O pressuposto seria que a tetina da chupeta poderia “confundir” o bebé pela semelhança com o mamilo da mãe, o que poderia dificultar a sua adaptação à mama. Com base nesse conceito, todas as Sociedades Científicas recomendam que não se introduza a chupeta logo nos primeiros dias de vida, devendo-se aguardar cerca de 3 semanas, para que a amamentação se estabeleça de forma segura. Só então se deve dar a chupeta aos bebés...

No entanto, apesar de estar plenamente de acordo com essas recomendações, gostava de esclarecer que não é preciso estar a contar o tempo “ao segundo”, ou seja, não é criminoso introduzir a chupeta um pouco antes das 3 semanas, desde que a amamentação já esteja bem estabelecida. Isto prende-se com o facto de a sucção que o bebé faz na chupeta ser uma sucção não nutritiva, ou seja, que é realizada apenas com o intuito da busca do prazer e conforto e não para se alimentar. Sendo assim, a possível interferência com a mama da mãe acaba por ser menos provável, o que permite alguma “liberdade” com segurança na gestão do tempo da sua introdução.

Quais as vantagens do bebé usar chupeta?

Este é um aspecto importante de reforçar, porque realmente a chupeta também tem alguns benefícios, que não são desprezíveis. Os principais são os seguintes:

- É um óptimo calmante.

Este efeito calmante é muito notório para os bebés, que ficam tranquilos e mais sossegados com o prazer que a sucção na chupeta lhes traz. Para além disso, ajuda também os pais a gerirem melhor a sua ansiedade, pois se sentirem que os bebés estão calmos vão eles próprios também ficar menos ansiosos, o que acaba por ser benéfico para todos.

Os bebés sentem prazer na sucção e esse bem-estar não deve ser ignorado. Se conseguirem obter esse benefício através da chupeta, vão usar menos vezes a mama da mãe com essa finalidade, o que é vantajoso para ambos.

- Torna menos provável que o bebé mame nos dedos.

Apesar de nem sempre ser fácil retirar a chupeta a uma criança, o hábito de mamar nos dedos é sempre mais difícil de “combater”. Isto porque os dedos estão sempre disponíveis e, por mais que se tente convencer a criança de que é um comportamento a evitar, a disponibilidade permanente é um obstáculo difícil de gerir. Assim, o melhor é mesmo prevenir que a criança se habitue a mamar nos dedos e a chupeta pode ajudar nesse aspecto.

- Parece ser um factor protector de morte súbita.

Não se sabe muito bem o que causa a Síndroma da Morte Súbita do Lactente, mas pensa-se que tem a ver com um mau funcionamento instantâneo do coração. No entanto, mesmo sem saber o que a provoca, existem actualmente alguns factores de risco e factores protectores claramente estabelecidos e o uso da chupeta parece estar incluído nesta última categoria. Apesar de não se conseguir explicar muito bem o motivo, parece que os bebés que usam chupeta têm uma menor probabilidade de sofrer da Síndroma da Morte Súbita do Lactente, pelo que essa é claramente uma vantagem da utilização deste objecto.

Qual a melhor chupeta?

Não existe uma resposta universal a esta questão até porque, em última análise, será o bebé a escolher a que prefere, mas geralmente a escolha deve ter dois aspectos principais em consideração: a forma e o material.

Forma

De um modo geral, a opção deva recair por uma chupeta ortodôntica (ou anatómica), sempre que possível. Este tipo de chupetas é mais achatado e acaba por deformar menos os dentes, o que é uma grande vantagem. No entanto, há bebés que não se adaptam bem a elas e preferem as convencionais, que são mais “gordinhas”. Se for esse o caso, não há outra solução senão ir de encontro às preferências do bebé.

Material

Existem duas opções no mercado, as chupetas de látex e as de silicone.

As primeiras têm uma cor amarelada e são mais moles, pelo que resistem melhor às trincas do bebé. No entanto, uma vez que é um material mais deformável, aguentam pior a sucção forte e podem degradar-se mais facilmente.

As chupetas de silicone têm uma cor esbranquiçada e transparente e são mais duras. Resistem melhor à sucção, embora não resistam muito bem às trincas do bebé, mas nos primeiros meses geralmente são um pouco mais duradouras.

Sei que este é um tema pouco consensual, mas acho que a chupeta pode ser um bom "aliado” a utilizar, pelas vantagens que descrevi anteriormente. Não acho que seja algo imprescindivel, mas também não me parece que deva ser um objecto proscrito. Deve-se apenas ter o cuidado de evitar nos primeiros tempos de vida do bebé, mas posteriormente pode ser utilizada sem problema.

Hugo Rodrigues

Hugo Rodrigues

PEDIATRIA

Hugo Rodrigues é pediatra no hospital de Viana do Castelo e docente na Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto e na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho. Pai (muito) orgulhoso de 2 filhos, é também autor do blogue "Pediatria para Todos" e do livro "Pediatra para todos"