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Pedro Graça

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NUTRIÇÃO

Água, obesidade e saúde

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Pedro Graça

É necessária uma estratégia nacional para aumentar a disponibilidade de água da rede através de bebedouros, de campanhas para a promoção do consumo de água em substituição de bebidas açucaradas

A água é provavelmente o mais importante alimento, mas também o mais desprezado. A água mantém a vida na terra e representa 75% do peso do corpo humano à nascença, participando em quase todos os processos vitais do homem, desde a respiração à alimentação das células. Sem uma hidratação adequada o nosso coração não funciona eficazmente, os nossos rins são obrigados a trabalho suplementar e até a pele e o cabelo se ressentem imediatamente. Sem comida o ser humano pode sobreviver várias semanas mas sem água apenas poucos dias.

A água é responsável por transportar nutrientes e ajudar a eliminar os resíduos desnecessários através da urina; ajuda a regular a temperatura corporal, através da perda de suor; lubrifica e protege as articulações e promove o bom funcionamento dos músculos; contribui para o ótimo funcionamento do cérebro e bom estado de humor e, em particular, permite melhorar a atenção, a concentração e a capacidade de memória a curto prazo. Pelo contrário, quando não bebemos água em quantidade suficiente é mais provável aparecer dor de cabeça, cansaço e irritabilidade.

A relação entre uma hidratação adequada e o desempenho intelectual é particularmente interessante, e só nos anos mais recentes começou a ser melhor compreendida. De facto, cerca de 75 - 80% do cérebro é constituído por água e ainda por centenas de milhares de pequenos vasos sanguíneos, consumindo mais de 20% do oxigénio do nosso organismo. Uma hidratação adequada possibilita o fornecimento de sangue rico em oxigénio, condição fundamental para que o cérebro se mantenha funcional. Por oposição, a desidratação pode influenciar adversamente a função cognitiva. Uma desidratação ligeira (quando cerca de 2-4% da água corporal é perdida) pode dificultar a memória a curto-prazo, a atenção e a capacidade de realizar operações aritméticas.

A isto tudo podemos ainda somar os resultados mais recentes de diferentes estudos científicos que apontam para uma relação direta entre o adequado consumo de água e doença crónica. Este é também um novo mundo que só agora começar a ser explorado. Em concreto, sabemos hoje que as populações de adultos que consomem diariamente mais água tendem a consumir menos calorias, menos gordura saturada, menos colesterol e menos açúcar. O consumo de água em quantidades adequadas poderá assim ter um papel importante no combate à obesidade e nas doenças associadas, nomeadamente diabetes e certos tipos de cancro.

Estes dados justificam a necessidade de uma estratégia nacional para aumentar a disponibilidade de água da rede através de bebedouros, nomeadamente em locais públicos como parques, escolas, estações de metro, recintos desportivos… de campanhas para a promoção do consumo de água e sua importância e, ainda, para a relevância cultural e gastronómica das nossas águas minerais à mesa, em momentos especiais e em substituição de bebidas açucaradas com pouco valor nutricional.

A Direção-Geral da Saúde sugere as seguintes medidas para uma adequada hidratação e que pode encontrar no livro digital on-line “Hidratação Adequada em Meio Escolar”:

- Beber pequenas quantidades de cada vez e frequentemente ao longo do dia, antecipando a sensação de sede;

- Aumentar a ingestão de líquidos em situações de sede; urina de cor intensa e com cheiro; cansaço, dor de cabeça, perda de capacidade de concentração, atenção e memória; atividade física que faça transpirar; situações de doença acompanhadas de febre, vómitos ou diarreia; temperatura ambiental elevada;

- Ingerir água (preferencialmente) e/ou outras bebidas (como leite, infusões, sumos naturais, néctares…) e ainda alimentos ricos em água como sopas, saladas e fruta, sendo que a sopa é uma das preparações culinárias que pode conter uma grande quantidade de água, sobretudo se for generosa em produtos hortícolas. A título de exemplo, ingerindo duas sopas por dia, é fácil consumir cerca de 0,5 l de água.

Por fim, e para sublinhar a importância da existência de bebedouros públicos funcionais perto do seu local de trabalho ou nos locais por onde passa na sua cidade, lançamos este Verão a campanha #aguapublica onde todos podemos pedir mais e melhor água através de uma simples fotografia. Por uma melhor saúde e pela defesa do meio ambiente.

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Pedro Graça

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NUTRIÇÃO

Pedro Graça é Diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, da Direcção Geral da Saúde. É doutorado em Nutrição Humana pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) onde é professor associado.

É membro do Conselho Científico da ASAE e ponto focal português da OMS e Comissão Europeia na área da alimentação.