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Sexo: Nesta idade…? É ridículo!

A desqualificação sexual no envelhecimento (um texto recomendado a partir dos 38)

Recomendo este texto a partir dos 38 mas, também podia dizer 35 ou 36, porque o envelhecimento é para se pensar já. Não é assunto para se deixar para depois, quando cumprirmos os 65, para quando formos “seniores” ou “quando chegar a reforma”. É para pensar agora e em todas as suas vertentes, desde a saúde física, mental, social, amorosa e sexual.

A sexualidade na idade sénior é um tema das aulas de Saúde Sexual que leciono há vários anos em dois mestrados de Psicologia no ISPA. Quando falo sobre este tema, os alunos ainda soltam risinhos ao imaginarem os avós ou outros idosos a terem relações sexuais. Parece que o prazer sexual nesta idade já não faz parte do cardápio, e é qualquer coisa que não é suposto acontecer. E muitos seniores pensam mesmo assim, a ideia está internalizada. “Sabe, isso já não é para a minha idade”, dizem alguns. Não me surpreende, na medida em que estas pessoas fizeram a sua socialização sexual na década de 40 ou 50, uma época de grande repressão da sexualidade. O pior, e preocupante, é que também alguns jovens acreditam nisto. Já ouvi alguns dizerem, “Nessa idade…? É ridículo!”. São os mesmos que vão aos lares ou residências sénior proibir as interações erótico-amorosas dos seus pais com outros residentes. O sexo, com ou sem amor faz parte do ciclo de vida, e é até à morte.

O grande inimigo da sexualidade na idade sénior não é tanto a falta de saúde e os respectivos tratamentos, mas sim as crenças sociais e atitudes negativas. Ou seja, os factores socio-culturais é que estragam isto tudo. Vamos dar três exemplos: (1) marginalização das sexualidades não reproductivas. Foi com o lançamento da pílula contraceptiva na década de 60, que o prazer sexual foi separado da reprodução. Até então, o sexo era para a reprodução. E assim, perdurou a crença de que depois da menopausa, com a perda de capacidade de reprodução, já não faz sentido a actividade sexual e assim se foi mantendo o estereótipo social de que os idosos são assexuados; (2) a híper-valorização do coito vaginal. A ideia da actividade sexual ser centrada no coito, isto é, a actividade sexual começa e acaba na penetração vaginal e não existe mais nada. E quando a penetração se torna mais difícil ou já não é possível, está tudo acabado. Estas ideias são internalizadas e persistem nas mentalidades que tardam muito a mudar. E o terceiro factor socio-cultural de grande peso, (3) a sexualidade como um privilégio exclusivo da juventude, ou seja, a sexualidade é para pessoas jovens, atraentes e saudáveis. Somos bombardeados pela comunicação social com imagens sexuais que sempre representam pessoas jovens, energéticas, atraentes e magras ou atléticas. E estas representações já não são a realidade a partir de uma idade muito anterior aos 60 anos! Muito antes de se chegar à idade sénior, homens e mulheres começam a sentir que já não são fisicamente atraentes, o que perturba o interesse e a receptividade para o sexo. Sobretudo as mulheres, muito mais ameaçadas por tais exigências para manter determinados padrões de beleza física. E é agora o momento de falar no duplo padrão do envelhecimento. Isto significa que, na mulher, impõe-se a exigência dum corpo atractivo, e no homem, são valorizados o estatuto e os recursos sociais, intelectuais e económicos, sobretudo. E assim, há uma assimetria erótica muito injusta para as mulheres e favorecedora dos homens. As mulheres, tendo mais plasticidade erótica, são menos afectadas no seu erotismo pelo abdómen proeminente do parceiro, pela cor branca do cabelo ou mesmo pela falta deste. Pelo contrário, os homens não erotizam o cabelo branco das mulheres nem a gordura abdominal ou a falta de tonicidade da pele. Uma prova da persistência deste duplo padrão, é a admiração gerada pela idade da esposa do Presidente Francês, Emmanuel Macron, recentemente eleito. Como pode um homem tão jovem e atraente estar casado com uma mulher 24 anos mais velha do que ele. Pois é, se fosse ao contrário, ela muito mais jovem do que ele, ninguém diria nada. É completamente ainda verdade a afirmação de Susan Sontag em 1975:

“Um homem, inclusive um homem feio, mantém-se sexualmente elegível até ter uma idade avançada. É um parceiro aceitável para uma mulher jovem e atraente. As mulheres, tornam-se inelegíveis numa idade muito mais jovem. Assim, para a maior parte das mulheres, o envelhecimento constitui um humilhante processo de desqualificação sexual.”

Mas devemos recuar um pouco nesta análise para referir que o envelhecimento é em si próprio estigmatizado na sociedade portuguesa, e noutras. Os discursos dominantes na nossa sociedade sobre o envelhecer, são negativos e estigmatizantes. Alguns exemplos desses discursos negativos são, o envelhecer como um suceder de perdas, como uma experiência de sofrimento a evitar, como um problema social, e por aí fora. No inglês, surgiu a palavra “ageism” para designar a atitude negativa em relação aos mais velhos, na crença da sua incapacidade de se desenvolverem. Que ideia tão triste, recuso-me a acreditar nisto. Defendo a perspectiva do ciclo de vida que considera que o desenvolvimento se processa ao longo de toda a vida, do nascimento à morte, sendo a idade sénior um momento desenvolvimental de importância e força idêntica a momentos anteriores do ciclo de vida.

Para muitos seniores, a miserável e humilhante reforma traz um contexto socio-económico difícil e uma desvinculação social. Isto, aliado à falta de parceiro, pode atirar o prazer sexual completamente para fora de vista. A falta de parceiro nestas idades atinge sobretudo as mulheres que existem em maior número. Acima dos 65 anos, há muito mais mulheres sem parceiro do que homens sem parceira, ou seja, muito mais viúvas que viúvos. E esta disparidade influencia brutalmente as taxas de actividade sexual em ambos os géneros. E os estudos mostram que o predictor mais significativo do declínio da actividade sexual nas mulheres é o facto de serem viúvas. Ouvi o Dr. Francisco Allen Gomes referir-se a esta “assimetria demográfica” como um factor demolidor da sexualidade desta população. E pergunto-me ainda onde é que estas mulheres viúvas, encontram um novo parceiro, se assim o entenderem. Eles encontram mas, e elas? Elas não, ou muito dificilmente. Bem ditas escolas de dança nas grandes cidades, bem dita Internet para quem tem acesso e bailes de vila e aldeia. O problema no meio semi-urbano ou rural (e também no urbano) é o grande monstro da avaliação social, ou seja, o que os outros dizem, o que os outros pensam. E esses outros, somos todos nós, com as nossas ideias e atitudes negativas entranhadas até ao tutano e a cabeça cheia de estereótipos. É triste, porque este temor do escrutínio social inibe, impede, aprisiona e priva as pessoas de darem passos de liberdade na vivência da sexualidade que lhes pertence e do amor a que têm direito.

A sexualidade que temos na idade sénior depende em larga medida do que foi a nossa sexualidade ao longo da vida. E o prazer sexual é possível. Mas falaremos disto no próximo artigo.

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, professora e investigadora no ISPA. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997 como psicoterapeuta. É membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta, é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar.