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Multipotencial – o perfil do futuro?

Eles são pessoas com vários interesses em simultâneo, com uma capacidade criativa muito acima da média, com enorme facilidade em começar novos negócios e/ou em mudar de profissão

Porque é que não consigo descobrir a minha (única) paixão? Porque adoro estar envolvido em diferentes assuntos em simultâneo?

Estas são algumas das questões de um multipotencial, que me foram colocadas por um amigo, numa conversa há mais de um ano. Esta semana, voltou ao meu contacto e disse-me: “já sei… eu sou um multipotentialite” (versão inglesa). Ou seja, estas são pessoas com vários interesses em simultâneo, com uma capacidade criativa muito acima da média, com enorme facilidade em começar novos negócios e/ou em mudar de profissão de forma radical. Para além deste meu amigo, que após 20 anos de carreira é hoje CEO, investidor, produtor de vinho e Board member em algumas ONG’s deixo-vos um outro exemplo de uma multipotencial, nos seus “quarentas”, que se licenciou em genética, de seguida tornou-se advogada, depois coacher certificada, e é hoje em dia realizadora de filmes… Mas o exemplo mais próximo de todos nós é o do Presidente da República, que até o ser era professor universitário, comentador, dirigente associativo, jornalista, e com uma multiplicidade de interesses que a todos nos impressiona.

Estas (várias) carreiras são, potencialmente, o modelo do futuro, onde acredito que muitos terão não uma, mas várias. Contudo, a grande maioria da nossa sociedade ainda não está preparada e acaba por criar uma pressão naqueles que não têm uma resposta definida sobre o que fazem ou gostariam de fazer.

Desde crianças que somos questionados sobre o que quereremos fazer quando formos “grandes”… Se há perguntas desactualizadas esta é claramente uma delas, não só pelo tema da multipotencialidade de cada indivíduo, mas sobretudo porque daqui a 20 anos estas crianças vão estar a desempenhar funções que ainda não foram criadas.

Também as grandes empresas não estão preparadas para lidar com os perfis mais “rebeldes” e que têm uma vontade constante de aprender e de fazer coisas novas e diferentes. Estas são as pessoas que muitas vezes são rotuladas como outliers (atípicas) e que algumas organizações conseguem perceber que podem ser extraordinariamente úteis em áreas de inovação e/ou serem verdadeiros implementadores de novos projectos, mas a grande maioria das organizações (leia-se hierarquias) não consegue entender e por isso ficam desmotivados por as suas capacidades não serem aproveitadas.

Todo este contexto provoca, a muitas destas pessoas, um elevado nível de ansiedade pois pensam que o problema está neles. Foi nesse ponto que o meu amigo estava até perceber que o seu estado é partilhado por muitos outros e que, inclusivamente, já existe uma expressão que o categoriza. Isso é importante? É! Porquê? Porque quase todos necessitam de pertencer a algum grupo social. O sentimento de pertença faz parte da nossa natureza.

Características dos Multipotenciais

São pessoas que têm não só vários interesses, mas também várias paixões. E são as paixões que os guiam e os levam a abraçar diferentes desafios e mesmo carreiras. Contudo, a grande diferença entre estas pessoas e todas as outras, que também têm outros interesses e paixões, é que têm a coragem de tomar decisões que as colocam no caminho dessa paixão, e que pode passar pela descoberta de um novo tema ou profissão.

Outras características:

Adaptáveis – têm várias profissões e conseguem entregar/ter resultados. Provavelmente a capacidade mais importante que podemos ter numa sociedade que muda tão depressa.

Aprendem rápido – quando têm interesse num tema pegam no mesmo e aprendem tudo rapidamente pois conseguem transferir muitas das suas capacidades de uma função para outra.

Capacidade de execução – não ficam somente pela ideia ou definição da estratégia. Têm capacidade de implementação e rapidamente.

Transformacionais – sintetizam ideias e conseguem transformá-las em algo útil, inovador. É da fusão de diferentes áreas e interesses que surgem novas ideias. Estas pessoas, dada a sua diversidade e riqueza de experiência têm maior facilidade nesta criação.

Pressão social

A pressão na sociedade é que todos sejam os melhores amigos, os melhores pais, os melhores profissionais e que consigam ter uma fantástica carreira. Esta pressão leva as pessoas, sobretudo as que já têm uma carreira, a ficarem na sua zona de conforto e a não arriscarem, não seguindo a sua verdadeira paixão. A grande maioria só se apercebe disto quando está numa fase final de carreira, olha para trás e pergunta porque não tomou outras opções.

O dilema interno também surge quando os filhos crescem e dizem, por exemplo: “Pai/Mãe, vou ser escultor. Esse é o meu sonho”. A típica reacção dos pais: “mas filho/a tu és um óptimo aluno, estás a terminar o curso de gestão e vais ser escultor? Tens de ir para a “tua área”… “

Mas o que é verdadeiramente a “área” de cada um? É uma licenciatura, ou a falta dela, que define a pessoa? Claro que não! O que define o indivíduo são as suas características únicas, não replicáveis, que tanto o podem levar a sucessivas mudanças profissionais, como a passar 20 anos no mesmo emprego, ou a uma carreira zigue-zague numa grande empresa. Todas as opções são válidas e a sociedade deve aceitá-las e não condicionar a vida de cada um.

Há, contudo, uma mensagem a reter por todos: quando encontram a(s) paixão não devem procurar uma desculpa para não a seguir (o que a maioria das pessoas faz), mas devem sim encontrar o melhor caminho para conseguir segui-la. Não devem ter medo de tentar, de falhar, de voltar a tentar, de até poderem parecer ridículos… não podem deixar de, pelo menos uma vez, perseguir “aquele” sonho.

Multipotencial Vs Especialista – Qual o futuro?

O mundo do trabalho tem obrigado à especialização. Mas, curiosamente, é este movimento que leva à substituição do homem pela máquina, e que vai ser cada vez mais frequente no futuro. Há uma forte tendência para a substituição de pessoas altamente especializadas em tarefas rotineiras por robots. Ou seja, nos últimos séculos estivemos a preparar o terreno para não sermos necessários.

Por isso reforço que o perfil multipotencial pode ser o perfil do futuro, pois engloba nele algumas das características fundamentais para ter sucesso no mundo vindouro, ou seja, criatividade, rapidez na aprendizagem e capacidade de resolver problemas complexos.

Mas, felizmente, não temos de ser todos iguais. One size doesn’t fit all. Logo, é desta parceria entre as várias especialidades, e entre os multipotenciais e os especialistas que nascem as grandes ideias.

As novas gerações têm este lado mais desenvolvido, pois cresceram num mundo global e conectado, onde a tecnologia lhes permite ter acesso a uma multiplicidade de conhecimento, despertando-lhes a curiosidade para diferentes assuntos e, consequentemente, para poderem vir a ter mais do que uma profissão.

No final cada um tem de ser aquilo que “sente”. Se passa por ser um especialista óptimo! Mas se tem interesses múltiplos explore-os e não se deixe levar pela pressão social. É claro que essa multiplicidade de caminhos levará a grandes desafios, como gestão de tempo e de prioridades, mas que acabarão por ser superados pois a paixão pelo que se faz derruba obstáculos. Mais, estamos cada vez mais na fase em que só fazendo a diferença, sendo único, se consegue ter sucesso e simultaneamente ser Feliz.

* (O autor escreveu este texto com base na ortografia antiga)

Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

EMPREGO

Ricardo Gonçalves é hoje Co-founder da Collectiv, onde ajuda empresas a crescer. Esta mudança recente veio ao encontro do seu espírito empreendedor, e permite-lhe levar para outro nível o conhecimento de pessoas e organizações que acumulou ao longo de quinze anos na área de Executive Search. Esteve na Amrop entre 2001 e 2016, onde cresceu pessoalmente e profissionalmente. Para tal muito contribuíram os vários projectos pelos quais foi responsável, sempre ao nível de recrutamento de top e middle management. Participou ainda num programa de desenvolvimento interno que o levou para Amrop Dinamarca. Experiência esta que foi complementada com o término do MBA (iniciado na Universidade Católica) na Copenhagen Business School.