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Trabalhador estudante, uma espécie em vias de extinção

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O primeiro emprego de um jovem é importante e saudável em todos os aspetos. Temos que pedir que nos seja dada uma oportunidade

Penso que todos chegamos a uma certa altura na vida, em que sentimos uma necessidade extrema de ter o nosso dinheiro. Dinheiro que não venha diretamente da mão dos nossos pais, cheio de regras e limitações, atrelados àqueles inquéritos a que temos de responder sobre onde, como e quando o gastamos.

Ouvir um sermão interminável, embora merecido, porque inocentemente deixei a minha gulodice convencer-me a gastar 5€ euros em gomas, porque é dinheiro mal gasto, porque é puro açúcar, só me faz mal e ainda por cima engorda, queremos que faça parte do passado. Somos quase crescidos, queremos poder decidir que 5€ em gomas são 20 minutos de nosso puro prazer. A partir desse momento a única coisa que nos passa pela cabeça é que o melhor a fazer é arranjar um trabalho. Depois não vai existir quem me impeça de enfiar cinco quilos de gomas num saco.

Quer tomemos a decisão de começar a trabalhar pela necessidade de ajudarmos com as contas de casa ou mesmo simplesmente devido a esta vontade crescente de ter o nosso próprio dinheiro, muitos adolescentes andam à procura de trabalho. Mas infelizmente, deparam-se com uma dura realidade. Todos sabem, que hoje em dia está muito complicado arranjar trabalho. No entanto, não sei se os adultos têm noção do quanto mais difícil é encontrar um PRIMEIRO trabalho.

Eu diria que é quase impossível.

Todos os sítios que dizem estar à procura de alguém, colocam uma pequena palavra à frente que arruína todas e quaisquer hipóteses de um adolescente que esteja pronto e entusiasmado para trabalhar: experiência. Parece que todos têm pavor de contratar alguém sem que tenha pelo menos cinco anos de experiência num trabalho igual ou parecido. É preciso ter experiência para tudo e sem ela, nem sequer a uma entrevista temos direito.

Oportunidades são algo que já não existe, ninguém aposta em ensinar algo novo a um jovem com a confiança de que ele irá executar bem a sua tarefa. Somos crianças a pedir para brincar com o iPad novinho em folha da mamã e do papá. Mesmo que nos digam para termos cuidado para não o deixar cair, o mais certo é o fazermos ao tropeçar com as nossas pernas ainda pouco coordenadas.

Os adultos recusam-se a acreditar nas nossas capacidades de trabalho, sem nos darem qualquer hipótese de as exibirmos. A maior frustração do jovem, que quer ou precisa de trabalhar é esta exigência irracional.

Se nunca nos oferecerem trabalho, por falta de experiência, então como é que é possível adquirirmos alguma?

Penso que não é a experiência que ganhamos no primeiro trabalho que mais interessa, mas a experiência do primeiro trabalho em si.

A perspetiva da maior parte dos jovens, é que trabalhar não é um fardo mas sim um privilégio.

Uma das melhores sensações que temos quando começamos a trabalhar é quando finalmente seguramos na mão os primeiros trocos, que conseguimos com o nosso próprio esforço. Nesse momento, mesmo sendo breve, sentimo-nos pessoas responsáveis, úteis e MUITO independentes. Aprendemos a economizar o nosso dinheiro a dar-lhe valor (a não gastar tudo em gomas!). Aprendemos a comunicar com as pessoas à nossa volta num ambiente de trabalho e não num ambiente social a que estamos habituados. Aprendemos a cumprir com as nossas tarefas e também aprendemos que 8h não são 8h20, que não há um segundo toque de tolerância como na escola.

Muitos de nós ainda estudamos e em vez de passarmos quatro horas a olhar para a televisão quando saímos da escola, continuamos a aprender. E a verdade é que essas horas não são retiradas do nosso tempo de estudo mas daquele em que não fazemos nada de produtivo.

Se calhar vivo na ilusão de que fora de Portugal é isso que acontece. Em todas as series que vejo, os jovens trabalham e estudam e não imagino razão para que a televisão retrate uma realidade não exista.

O primeiro emprego de um jovem é importante e saudável em todos os aspetos. Temos que pedir que nos seja dada uma oportunidade. Todos temos que começar por algum lado, porque não do seu?

É uma experiência incomparável e precisamos de uma oportunidade.

Benedita Mendonça

Benedita Mendonça

ADOLESCÊNCIA

O meu nome é Benedita Mendonça e tenho 18 anos. Frequento o 12º Ano no curso de Humanidades. Já fui jogadora de ténis...agora sou só preguiçosa. Sofro de um vício incurável por Coca-Cola, o que provavelmente me ajuda a perder horas de sono a ler ou a escrever. Dá-me jeito tornar essas horas em algo mais do que perdidas e é por isso que quero partilhar toda a vasta experiência que esta minha idade me oferece sobre a adolescência.