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Aguento ou… bato com a porta?

Quantas vezes na sua vida já se fez esta pergunta? Quantas vezes encontrou a resposta? Quantas vezes escolheu aguentar? Quantas vezes decidiu bater com a porta?

A resposta à primeira pergunta? Possivelmente é, “Muitas”!

A resposta à segunda pergunta? Talvez seja, “Algumas”!

A resposta à terceira pergunta? Provavelmente, “Vezes demais”!

A resposta à quarta pergunta, segundo o que muitas pessoas me revelaram ao longo dos anos, é “não tantas vezes quantas queria ter feito”, ou “nunca”!

Mas, também conheci quem viva no extremo oposto, isto é, quem passe a vida a abrir e fechar portas, à procura de “um não sei o quê” que ele mesmo não consegue definir e que tem muito mais a ver consigo próprio do que com os outros, ou com as relações que estabeleceu e estabelece, e em que se envolve nunca se envolvendo.

Todos nós, em algum momento das nossas vidas, mais cedo ou mais tarde, já nos perguntámos: “Aguento ou não aguento”, “Fico ou parto”?

Todos nós também já ouvimos, pelo menos uma vez na vida, alguém dizer-nos, ou dizer a outro alguém: “Já não aguento mais…vou bater com a porta!”.

As expressões “não aguento mais” e “vou bater com a porta” são vulgarmente pronunciadas e podem referir-se às mais diversas relações pessoais.

Quantas vezes aguenta a má disposição do seu chefe, o mau feitio do seu colega que tenta brilhar apoderando-se das suas ideias, o controle dos seus pais sobre si, ou a falta de educação dos seus filhos? Muitas, imagino!

É verdade! Todos, de uma forma ou de outra, tentamos aceitar os outros e a sua imperfeição, e por vezes não é mesmo nada fácil.

E nas relações amorosas? Aceita, aguenta ou bate com a porta? E, aguenta quanto e até quando? E quando bate com a porta, deixa-a entreaberta, e volta, vez após vez, ou certifica-se se ficou mesmo fechada?

Aceitar a imperfeição do seu companheiro, fixando-se nos seus aspetos positivos é uma coisa. Aguentar a imperfeição do seu companheiro, fixando-se nas suas características negativas, é outra completamente diferente. E isso sim, é aguentar e pode ser fonte de intenso desgaste e profundo mau estar, para si e para ele, e ainda, “dinamitar” a relação.

Como é que duas pessoas podem se sentir amadas se se aguentam?

Aguentar numa relação amorosa não será sinónimo de não aceitação? Parece-me bem que sim!

Aguentar uma relação que deixou de ter sentido e um companheiro que não se aceita e não se consegue ver como tal, pode traduzir-se numa “odisseia emocional” com sérios custos psicológicos. Dormir com alguém todas as noites na mesma cama, sentindo que já não se aguenta mais olhar para ele, falar com ele ou respirar o mesmo ar que ele, pode significar um desgaste muito maior para si, do que “subir essa montanha que carrega às costas, sentar-se no topo” e começar a olhar, primeiro para dentro de si, e depois para tudo o que está a acontecer á sua volta.

Ao longo dos anos ouvi esta mesma expressão “fui aguentando” repetidamente, por parte dos casais que acompanhei, e perguntava-me:

Mas, uma relação é uma “coisa” para aguentar ou para viver em profundidade, para crescermos, e nos sentirmos cuidados, amados e felizes?

De onde é que as pessoas foram tirar a ideia de que têm de aguentar, até mais não poder, e só quando estão quase a “explodir”, então deitar tudo cá para fora, dizer “não aguento” e bater com a porta?

Que ideia é esta tão absurda de que o espirito de sacrifício nos faz sentir mais amados e felizes?

Sabia que existem pessoas que pensam que quanto mais se sacrificarem mais amadas serão?

Que mundo é este em que vivemos que se confunde Amor com aguentar?

Quem disse e escreveu que para se sentir amado precisa calar-se e torturar-se? Que não pode nem deve dizer o que pensa e sente?

Não é pressuposto uma relação ser uma experiência dolorosa que nos faz sentir carregar uma montanha ás costas. Antes pelo contrário, é pressuposto que um companheiro nos faça sentir ainda mais leves, pois podemos partilhar com ele as nossas experiências, as boas e as menos boas.

Esta ideia de ir aguentando, metendo para dentro, e tentando ir vivendo o melhor possível, muitas vezes, o impossível, possivelmente não passa de mais uma crença fortemente enraizada que todos nós transportamos, um mecanismo de defesa para não enfrentarmos o que tememos e nos responsabilizarmos por aquilo que aconteceu e acontece na nossa relação.

Muitas pessoas continuam a sentir um medo muito intenso de dizer o que pensam e sentem aos seus companheiros. Medo de falar especialmente sobre as suas necessidades emocionais, fechando-se num verdadeiro “casulo”. E o que sai de lá passado algum tempo? Não, não é uma borboleta, é alguém triste, sozinho e perdido, que se desencontrou de si próprio.

Não é o ir aguentando que vai resolver o que quer que seja. Pelo contrário, só vai piorar ainda mais. O afastamento vai ser cada vez maior, e um dia pode acontecer olhar para o seu companheiro e pensar: não conheço esta pessoa…faz-me tanto mal!

Será que é ele que lhe faz mal? Ou será você que se faz mal a si próprio?

Sabe quem não conhece mesmo? A si!

Sabe quem lhe fez tanto mal até aqui? Você a você próprio, a partir do dia em que decidiu viver a sua vida “aguentando”.

A palavra aguentar, aparece no dicionário como “ suportar o peso de…”

Quanto peso suporta? Há quanto tempo?

Para ter uma relação e sentir-se amado não tem que suportar pesos. Deixe os pesos para o ginásio. Esses sim, podem tonifica-lo, e fazer com que se sinta mais bonito, elevar-lhe a autoestima e autoconfiança e sentir-se em forma. Pelo contrário, o suportar o peso de uma relação em que não se sente amado, nem querido, nem valorizado, em que não existe partilha, confiança, cumplicidade e empatia, não é aguentar é torturar-se, não lhe faz bem, faz-lhe mal.

Para se sentir amado não é preciso aguentar, nem deixar de ser quem é, nem aceitar o inaceitável, nem calar-se, nem prescindir das suas convicções e do que acredita ser melhor para si. Quem lhe exige que o faça não o ama!

Quem verdadeiramente o ama não o desvaloriza, não o inferioriza, não o faz sentir amargurado, ansioso, angustiado, culpado. Quem o ama consegue ver quem é, e aceita-o como é, não tenta moldá-lo como se fosse de uma “jarra” de porcelana.

Sabe o que está por detrás desse “aguento!”?

Culpa e medo. Esses dois juntos são poderosos, e fazem com que “meta para dentro”, o que devia de ser conversado entre duas pessoas que se respeitam, querem bem e se amam. Porque isso é amor e tudo o resto não passa de fantasia ou mentira.

As razões que suportam o “aguento” podem ser as mais diversas: os filhos, o dinheiro, os outros, a idade…mas, quando analisadas uma a uma, frequentemente as mesmas pessoas que as afirmaram chegam à conclusão que afinal não são razões, são desculpas, é comodismo, é espera de que magicamente tudo se resolva com mais um filho, uma viagem, uma casa, um carro ou o euromilhões. E assim, adiam a cada dia a possibilidade do encontro com eles próprios, com o outro, com o verdadeiro amor e sentido da vida.

E se entretanto, nas redes virtuais, ou em qualquer outro sitio, aparecer alguém com quem partilhar o há tanto tempo não partilhado, não contado, não sorrido, não vivido, aguentar pode tornar-se mais leve com estes encontros virtuais ou ocasionais que são verdadeiros balões de oxigénio, mas que logo, logo… podem deixar de o ser e traduzir-se em maior culpa e medo, agora de ser descoberto!

Ao longo de todos estes anos a pergunta “Doutora, o que faço? Aguento ou bato com a porta?” talvez tenha sido a que mais vezes me fizeram.

Homens e mulheres de todas as idades, estratos sociais e formações completamente diferentes. Todos diferentes, mas experienciando situações muito semelhantes. Todos eles queriam saber o que fazer. Se aguentavam e ficavam, ou se batiam com a porta e partiam.

Muitos deles, sem sequer se aperceberem quem eram, de onde vinham, onde estavam e para onde queriam ir.

E, sem o saber, também não o podiam decidir.

A muitos disse:

O mais importante, não é saber se bate ou não bate com a porta, hoje, agora ou daqui a uma semana. Se não o sabe se o deve ou não fazer, é porque não chegou ainda o momento de o fazer.

É momento sim, de pensar porque diz “Aguento!” e se pergunta “Aguento?” e descobrir o que tem significado esse “Aguentar” ao longo da sua relação amorosa, da sua vida amorosa, e talvez não só!

Esta pode ser uma conversa a dois, plena de descobertas e surpresas, que os pode aproximar ainda mais e gerar intimidade emocional, mas apenas quando ainda existe Amor, respeito, empatia, confiança reciproca e capacidade de se escutarem.

Mas esta é também, e especialmente, uma conversa consigo próprio, no sentido de decifrar o significado e o peso de cada letra da palavra “Aguentar” que tanto teima em viver no seu pensamento.

Depois de fazer esse caminho, vai perceber,

Que uma relação de “aguentar” não é o mesmo que uma relação de Amor…

Que “a porta” numa relação de Amor está sempre aberta e as duas pessoas decidem a cada instante ficar do lado de dentro…

Que por vezes só mesmo batendo com a porta e certificando-nos que ela ficou bem fechada, podemos voltar a sentir um Amor leve e gratificante, pelos outros, mas especialmente por nós mesmos, e viver “aquela” relação que nos faz tanto bem!

Se este tema despertou a sua curiosidade, poderá ler mais sobre ele no meu Novo Livro “Verdades, Mentiras e Porquês” 500 Perguntas e 500 Respostas.

E, não se esqueça: o Amor não é o que se diz por aí… é muito mais, e Você Merece Descobri-lo e Vivê-lo na Plenitude!

Margarida Vieitez

Margarida Vieitez

RELAÇÕES

Margarida Vieitez é especialista em mediação familiar, de conflitos e aconselhamento conjugal, e dedica-se há mais de 20 anos ao estudo e acompanhamento de conflitos de diversa ordem, nomeadamente, familiares, conjugais e divórcio. Detentora de seis pós graduações, entre as quais, em Mediação Familiar pela Universidade de Sevilha, em Mediação de Conflitos e, em Saúde Mental, ministrou vários cursos de Mediação Familiar no Instituto de Psicologia Aplicada, estando frequentemente presente em conferências e seminários. Autora de vários livros, dentro os quais, "O melhor da vida começa aos 40", "Sos Manipuladores" e "Pessoas que nos fazem Felizes" .