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Os benefícios do amor à distância

As relações à distância são uma realidade cada vez mais comum neste mundo globalizante onde os indivíduos tentam compatibilizar o curriculum de vida com currículos profissionais exigentes

Disse-me uma boa amiga, mulher madura e de bem com a vida, num contexto de início de uma nova relação e em total estado de paixão e encantamento com este novo parceiro, que ela queria que fosse para a vida e para sempre, “Alexandra, é um homem formidável e estou tão feliz com ele. E sabes que mais? Ele é engenheiro numa empresa petrolífera, daquelas que estão muito longe no meio do mar, e por isso ele tem que estar dois meses lá em jornada contínua e dois meses cá, assim, alternadamente. E tem um contrato de trabalho de 12 anos”. O tom com que me contava tal novidade era de alegria mas, eu não estava a perceber se isso era bom ou mau para ela. “Alexandra, eu tenho o meu desejo sexual garantido durante doze anos!!! Não é fantástico?”.

As relações à distância são uma realidade cada vez mais comum neste mundo globalizante onde os indivíduos tentam compatibilizar o curriculum de vida com currículos profissionais exigentes. A Internet dissolveu fronteiras geográficas e tornou-se uma ferramenta poderosa na procura do amor, do sexo e de todo o tipo de relações. As modernas ferramentas digitais permitem o encontro de pessoas que de outra forma nunca se encontrariam. E assim, quase de repente, e quando tudo parecia tão perto, a distância de um clique no ambiente online, transforma-se em centenas de quilómetros reais e mensuráveis. Neste mundo moderno onde a realização profissional tomou a dianteira e a mobilidade se tornou um imperativo, os membros do casal acabam muitas vezes atirados para longe um do outro, aceitando este modelo de relação à distância que é facilitado pelos múltiplos canais de comunicação hoje disponíveis. Casais vivem separados, em cidades diferentes, países diferentes ou mesmo em dois continentes, a desafiar o ditado “Longe da vista, longe do coração”. Aqui ficam alguns exemplos que bem conheço.

Ela, com os filhos numa casa sossegada perto da Arrábida, ele, a trabalhar em Londres de segunda a sexta (2.180 Km). Ela é freelancer em Lisboa, o que lhe permite alguma mobilidade e ele, no quadro diretivo de uma empresa no Porto (320 Km). Ele ficou com o filho numa cidade pacata do norte do país mas, apoiou a decisão dela de aceitar um contrato de trabalho por 3 anos em Luanda (8.664 Km). Ela, fez toda a sua vida num bairro lisboeta e já depois dos 60 anos conhece o actual marido, com uma carreira de sucesso na advocacia em S. Francisco, Califórnia (17 horas de voo ou talvez mais, um oceano e um continente pelo meio).

Não parece nada fácil. As relações à distância constituem um desafio e apresentam dificuldades e ameaças inquestionáveis mas, não haverá também um lado positivo neste modelo relacional? Tentarei então enumerar alguns dos benefícios das relações à distância.

1 - A relação à distância é protectora do desejo sexual, particularmente do feminino, como tão bem ilustra a história de introdução neste texto. As separações durante períodos de tempo mais ou menos longos impedem a catastrófica influência negativa da rotina no desejo sexual das mulheres. Sentir a falta do outro estimula o desejo e pode ser um ingrediente erótico muito interessante nalguns casais;

2 - Na sequência da anterior, o erotismo está mais protegido, não sofre a erosão da rotina, da falta de novidade ou, da previsibilidade. Estas relações permitem um maior investimento erótico, talvez também porque o desejo não está desgastado. Digamos que a sexualidade do casal não é uma “sexualidade doméstica”, ou seja, enquadrada num contexto doméstico sem novidades e que pode ser até aborrecido nalguns casos;

3 - A relação à distância permite mais e melhor comunicação entre os membros do casal. Não só permite como exige pois, não havendo presença física, a palavra é tudo o que têm para manter a ligação, por conseguinte, a comunicação pode tornar-se mais rica, mais profunda e mais cuidada. Ambos podem revelar-se mais um ao outro, o que dá mais consistência à intimidade do casal e ajuda na preparação do próximo encontro;

4 - Esta modalidade relacional permite ainda mais qualidade no tempo que se passa junto. O encontro seguinte é sonhado e desejado e por conseguinte, pode ser mais cuidadosamente planeado;

5 - Por outro lado, também o tempo em que não estão juntos pode ser aproveitado para coisas da esfera individual, ou seja, cada um pode ter mais tempo para as coisas de que gosta, para os seus próprios interesses que podem não coincidir com os da outra pessoa, nem têm que coincidir. Um casal não tem que fazer tudo juntos, isto é, não têm que se fazer acompanhar um do outro em todas as actividades;

6 - E por último, e à boa maneira portuguesa, devo referir as saudades. A saudade pode ser coisa boa, se não for tanta que traz sofrimento, aquece o coração, acende o desejo e traz renovação.

Para além destes aspectos que considero positivos, o tópico mais quente é com certeza a questão da confiança. A falta de confiança é habitualmente apontada como a grande ameaça nas relações à distância. Falamos do medo da traição, da insegurança que advém da possibilidade de se ser enganado pelo outro. Há uma frase que se repete na esfera do casal que é, “Tens de confiar em mim”. Mas o que é que estamos a pedir ao outro quando lhe dizemos “confia em mim”, e o que é que lhe estamos a prometer? É isso uma garantia de total fidelidade? Mas podemos nós oferecer ao parceiro tal garantia para o futuro? Estamos mesmo na posse de recursos suficientes que nos impeçam fazer escolhas noutras direções e de sermos permeáveis a eventuais deambulações dos nossos desejos eróticos? Tal oferta de garantia não me parece compatível nem com as incongruências do ser humano nem com as desordens do amor. Em vez da afirmação mandatária de “Tens que confiar em mim”, prefiro a simplicidade mais honesta do “É meu desejo ficar só contigo”. É mais uma declaração de intenções do que uma garantia. Intenções em que se acredita, que se constroem e que se perseguem. Porque o futuro não sabemos e os caminhos da liberdade são difíceis.

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, professora e investigadora no ISPA. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997 como psicoterapeuta. É membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta, é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar.