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Célia Palma

Dez dicas para ajudar a gerir a dor relacionada com a morte de um animal

As famílias são, hoje em dia, muito diferentes daquilo que foram no passado. O núcleo central pai/mãe/filhos/avós foi, muitas vezes, substituído por núcleos monoparentais, com filhos únicos. A distância física em relação aos familiares mais próximos, sobretudo avós, leva à fragmentação da família clássica em pequenos pedaços desagregados e isolados, sem referências familiares.

O aumento progressivo do número de divórcios, o isolamento social de idosos e menos filhos por família leva a que os humanos se encontrem numa situação nova de solidão afetiva. Amar, dar e receber afetos, proteger e cuidar, fazem parte da natureza humana. Na realidade, estes relacionamentos afetivos direcionados a outros seres humanos têm vindo a ser substituídos ou complementados por relacionamentos inter-espécie, nos quais os animais de companhia têm assumido um papel cada vez mais importante. São incluídos na logística familiar, habitam o mesmo espaço, são-lhes facultados cuidados médicos preventivos e curativos de qualidade e cada vez mais sofisticados, são alimentados de forma cuidada e adaptada à espécie.

A carência afetiva promove o desenvolvimento de relações de dependência entre tutores e seus animais. Idosos solitários, reencontram desta forma a possibilidade de cuidar, mimar, dar e receber amor, para além de se voltarem a sentir necessários, importantes e ativos. Famílias desfeitas e reconstruídas encontram o elo de ligação entre os elementos antigos e os novos. Crianças, com ou sem necessidades especiais, beneficiam do seu convívio como forma de melhorarem a sua autoestima, promoverem relações sociais e desenvolverem o sentido de responsabilidade e consciência sobre o mundo que os rodeia. Adultos ativos redirecionam a sua natural necessidade de criar família, ou acrescentam elementos ao núcleo familiar já existente. Seja qual for o motivo, a realidade indiscutível é a de que os animais de companhia assumem, hoje em dia, um papel importantíssimo na estabilidade emocional dos humanos, papel esse que não deve ser desvalorizado nem desmerecido. Perante a certeza da existência de um vinculo emocional forte, não será difícil compreender que a morte de um animal de estimação poderá ser dramática e deixar marcas em todos os envolvidos. A dor da perda é compreendida e aceite por toda a sociedade, que se comporta de forma empática com a mesma. O culto fúnebre está enraizado nas sociedades humanas e é um ritual social, em que todos os amigos e conhecidos se envolvem. Mas a dor da perda, quando relacionada com um animal de companhia, não só não é bem compreendida, como não é aceite pela sociedade em geral. Nesta sequência, os humanos envolvidos deparam-se com falta de empatia e desvalorização da intensidade e veracidade dos seus sentimentos, o que contribui para piorar o estado de verdadeiro sofrimento psicológico. Se podermos partilhar os nossos sentimentos e obtivemos compreensão dos nossos congéneres, a dor será mais fácil de suportar. Caso contrário viveremos uma dor escondida, bastante mais difícil de ultrapassar. Como seres sociais que somos, precisamos da aprovação e inclusão pelos nossos semelhantes. Quanto mais cedo a sociedade se consciencializar e aceitar que a dor da perda de um animal é real, mais fácil será ultrapassar um momento tão devastador na vida dos tutores.

Não sou psicóloga nem pretendo imiscuir-me numa área que não me pertence. Os meus conselhos provêm da minha experiência pessoal e da vivência de anos a acompanhar humanos que sofrem com a perda dos seus amigos animais. Gostaria que este artigo ajudasse, de alguma forma, a gerir uma emoção tão forte, quanto negativa, mas completamente natural.

1 - Aceite a dor!

O primeiro passo para lidar com a dor da perda é aceitar que ela existe e que é natural senti-la. Não a minimize ou desvalorize. Cada pessoa é diferente e tudo acontece a um ritmo próprio. Não há um tempo de cura comum a todos. A forma como cada pessoa lida com o sofrimento depende de muito fatores psicológicos e físicos, bem como das experiências vividas ao longo da vida. A intensidade do vínculo afetivo com o animal, assim com a forma como morreu (se foi subitamente ou existiu uma doença progressiva, que fez prever o desfecho), também condicionam a intensidade da dor da perda, mas não de forma linear. Não existem fórmulas matemáticas ou certezas inquestionáveis. Cada caso é um caso e todos devem ser respeitados na sua individualidade. Não se atormente se não reagiu da mesma forma que o seu vizinho ou amigo. Respeite-se na sua diferença e permita-se sofrer, sem que isso signifique alimentar o sofrimento. Chore o que tiver vontade. Chorar lava a alma. Não é motivo de vergonha pessoal. Pelo contrário, mostra que é uma pessoa sensível e sentimental. Mas se, pelo contrário, não conseguir chorar, isso não significa que o seja menos. Simplesmente somos todos diferentes…

2 - Evite a culpabilização e negação!

O sentimento de culpa é inimigo da cura. Não se culpabilize por aquilo que poderia ter feito e não fez. Pare de pensar no que teria acontecido se tivesse feito algo de forma diferente. Quando existem dois caminhos e escolhemos seguir um deles, não saberemos o que teria acontecido se a nossa escolha fosse outra. Independentemente da causa da morte do seu animal, aceite-a. Não a questione ou negue. Esta é a única verdade inquestionável. Contra isso nada poderá fazer. Evite, também, culpabilizar terceiros. Atribuir responsabilidades não vai trazer o seu amigo de volta, acaba por fragilizar todas as partes envolvidas, estragar relacionamentos e afastar quem poderia ser uma valiosa ajuda na gestão dos sentimentos negativos, relacionados com a perda. Culpar o motorista que atropelou o animal, ou o veterinário que não o conseguiu salvar, ou o parente que o deixou fugir, não o trará de volta. Sentimentos negativos atraem sentimentos negativos e ao invés de se sentir aliviado no seu sofrimento, será assolado por acessos de frustração e raiva interior, que em vez de amenizar a dor, a potenciam ao máximo.

3 - Liberte a raiva!

A raiva e frustração são dos sentimentos mais comuns, quando perdemos alguém a quem estamos afetivamente ligados. Mas são, também, das emoções mais negativas que se podem experienciar. O ressentimento e fúria em relação a tudo e todos, advêm do facto de não nos conseguirmos libertar deste tipo de emoções. A curto prazo pode ser um escape para a dor. Mas a médio e longo prazo só trará prejuízos emocionais, uma vez que não permite a cura o “seguir em frente”, mantendo-nos prisioneiros de um estado emocional psicologicamente degradante. Liberte a raiva de forma saudável, com exercício físico frequente e passeios ao ar livre. Mas se se sentir muito angustiado, grite em plenos pulmões, esmurre um saco de boxe, ou dê uma corrida pelo bairro. Nunca reaja de forma agressiva em relação a terceiros. Só conseguirá sentir-se ainda pior consigo mesmo e perder o valioso apoio dos visados.

4 - Fale com amigos!

Como em tudo na vida, os amigos são imprescindíveis. Sentir o apoio e compreensão de alguém é meio caminho andado para nos sentir-mos melhor. Fale dos seus sentimentos, explique os seus anseios, comunique as suas decisões. Não precisa de opiniões. Só de ser ouvido e compreendido. Mesmo que não lhe apeteça estar com ninguém, aceite a visita ou o convite para um passeio. Alguns familiares e amigos podem não compreender a dimensão da sua perda, simplesmente porque não compreendem que sentimentos semelhantes sejam nutridos por um animal. Mas terão, com certeza, uma palavra de conforto, um gesto de carinho, uma atitude de solidariedade, que será reconfortante e ajudará a apaziguar a dor.

5 - Comunique com aqueles que passaram por experiência semelhante!

Falar com alguém que passou por uma experiência semelhante pode ser de extrema importância. Sentir que não somos os únicos a viver uma tal provação, ajuda muito à gestão emocional. Saber que aquela ou aquelas pessoas compreendem exatamente o que está a sentir, facilita a comunicação, a partilha de emoções e cria um vínculo emocional com as mesmas. Pode não ser fácil encontrar um grupo de apoio relacionado com a perda de um animal, à semelhança do que acontece com outro tipo de luto. Sobretudo em cidades pequenas, longe dos grandes centros urbanos. Mas hoje em dia, com o acesso fácil ao mundo virtual, poderá encontrar fóruns on-line, nos quais poderá partilhar os seus anseios, dúvidas, emoções e opiniões, sabendo que será compreendido em toda a dimensão da sua dor.

6 - Mantenha-se ocupado!

Por muito que lhe apeteça fechar-se em casa, sem ver ninguém, lute contra esse sentimento. Não se permita entrar numa espiral de emoções negativas, que poderão levar à depressão. Tente manter-se ocupado, equilibrando o tempo que passa sozinho e com os outros. Mime-se, desenvolvendo atividades prazerosas, como tomar um banho de espuma, fazer uma massagem, ler um livro que gosta, ver um filme interessante, cozinhar uma refeição deliciosa. Mas escolha, também, atividades em grupo, como ir jantar fora com amigos, ir ao cinema ou à praia, dar longos passeios ao ar livre, inscrever-se no ginásio ou em aulas de valorização pessoal (pintura, musica, culinária, etc.). Estar ativo, sentir-se ocupado, fazer coisas que dão prazer, melhora a autoestima, o humor e o estado de espírito. Consequentemente fará com que se sinta melhor e será mais fácil ultrapassar esta fase dolorosa.

7 - Consulte um psicólogo!

A ajuda de um terapeuta poderá ser indispensável. Alguém que simplesmente, ouça sem criticar ou julgar. Se possível encontre um psicólogo especialista em luto. Sobretudo se se sentir impotente e incapaz de realizar as tarefas básicas do quotidiano, como cozinhar, arrumar, conduzir, trabalhar. Cada um possui uma forma própria de gerir momentos de crise, dependendo muito das vivências que teve, da estrutura psicológica, do grau de ocupação e da envolvência familiar. Mas sobretudo nunca se deve esperar que o problema se agrave de tal forma, que seja muito mais difícil de resolver. Procure ajuda o mais cedo possível no processo de luto. Já existem instituições que facultam este serviço, com psicólogos especialistas em luto, direcionado para a perda de um animal. Mesmo alguns hospitais e clinicas veterinárias já dispõem de um gabinete de apoio ao luto. Se a morte for programada (eutanásia dos doentes em estado terminal), os terapeutas acompanham o tutor na preparação para a o dia em que esta acontecerá, no momento em que acontece e depois de consumada. Infelizmente este não é o cenário mais comum e só alguns privilegiados poderão recorrer a estes serviços. Limitações económicas, geográficas e culturais, impedem esta tão valiosa ajuda. Informe-se com o seu veterinário, se conhece algum local ou alguém a quem recorrer, em caso de necessidade.

8 - Organize uma cerimónia em memória!

Organizar uma pequena cerimónia de despedida, ou em memória do companheiro perdido, poderá ajudar muito a interiorizar e aceitar a morte, para além de ajudar a processar as emoções. Apesar de não ser bem aceite pelo resto da sociedade, faça aquilo que achar que o pode ajudar a ultrapassar mais facilmente a dor. Rodeie-se de amigos que o compreendam e que participem. Caso contrário faça-o você mesmo. Poderá plantar uma flor, acender uma vela ou escrever uma mensagem de despedida. Tantas possibilidades, simples, mas tão cheias de significado. Poderá, também, reunir todos os objetos que lhe pertenciam, guardar um ou outro que considere mais significativo e doar o restante a uma instituição ou a um amigo. Conseguirá o conforto psicológico de que o enorme valor da vida, não terminou com a morte. Algum outro animal beneficiará do privilégio de usufruir de um pouco do seu legado.

9 - Não descure o cuidado dos outros animais da casa assim como do resto da família!

Faça tudo o que estiver ao seu alcance para manter a rotina diária de toda a família. Apesar de ser muito difícil concentrar-se, todos estão atentar adaptar-se a uma nova realidade, com maior ou menor dificuldade. Para um animal, qualquer alteração na rotina pode ser stressante. A perda de um companheiro, só por si, pode ser dramática. Quanto menores forem as mudanças, mais fácil será ultrapassar a perda. Sobretudo os animais e as crianças precisam de rotinas e o seu bem estar pode depender, em grande parte, da manutenção de hábitos. Manter a maior normalidade possível, dentro do funcionamento da logística familiar, pode ser um grande desafio para quem sofre da dor da perda, mas também pode ser uma forma de se distrair deste mesmo sofrimento. Se se tornar demasiado difícil concretizar tais tarefas, não hesite em pedir ajuda a um amigo ou familiar. Aos poucos conseguirá voltar a assumir a responsabilidade e tudo voltará lentamente ao normal.

10 - Considere a adoção de um novo animal!

Depois da perda de um animal, a casa parecerá vazia e os dias intermináveis. O ânimo, para cumprir as tarefas diárias e para conviver com familiares e amigos será muito pouco ou mesmo inexistente. A adoção de um novo companheiro poderá ser um passo importante, não para substituir o anterior, mas para preencher um espaço emocional, ocupado exclusivamente pela dor da perda. A necessidade de voltar a cuidar de um ser vulnerável e dependente poderá ajudar a ultrapassar o luto, de uma forma positiva. Para além de que a boa disposição inerente à condição canina ou felina, pode ser contagiante e melhorar grandemente a disposição dos seu tutores. Mas esta mesma adoção deverá ser bem ponderada, uma vez que será grande a tendência para esperar que o novo animal seja uma espécie de clone do anterior, advindo a desilusão quando isso não acontece. Por vezes, na sequência de o recém adotado não corresponder ás expectativas, desenvolvem-se sentimentos de rejeição, que poderão complicar o processo de cura. Para além de que a paciência estará muito limitada e o animal poderá acabar por ser negligenciado. Assim sendo, pondere cuidadosamente o assunto, visite um abrigo para animais ou uma ninhada de um amigo. Se não se sentir preparado, deverá esperar algum tempo. Provavelmente, mais tarde ou mais cedo, surgirá o momento em que sentirá que está emocionalmente preparado para uma nova aventura como tutor. Na maioria dos casos a oportunidade surge quando menos se espera e um novo animal cruza o seu caminho, sem se fazer anunciar. Nesse momento quebra-se o bloqueio emocional e voltará a sentir a capacidade de amar um novo companheiro, sem que isso signifique que o anterior tenha deixado de ter lugar no seu coração.

Até ao próximo mês…

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.