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Adotei um porquinho da Índia

Bolsa de Especialistas

Célia Palma

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Oito dicas para melhorar a qualidade de vida do seu pequeno roedor

Adotar um animal, seja de que espécie for, implica um compromisso do tutor, no sentido de lhe disponibilizar todos os recursos necessários para o seu bem estar físico e psicológico. O primeiro passo será o de se informar sobre a espécie escolhida, as suas necessidades alimentares, o seu comportamento social e reprodutivo, as suas características físicas e psicológicas. Os porquinhos da India são dos roedores mais populares como animais de companhia. São dóceis com os humanos, o seu tamanho permite serem facilmente manipulados, mesmo por crianças e não são trepadores ou escavadores, o que facilita a manutenção em ambiente doméstico. A sua domesticação tem aproximadamente 3000 anos, muito provavelmente porque começaram a aproximar-se dos aglomerados habitacionais para, oportunisticamente, inspecionarem as lixeiras humanas. Foram, inicialmente, criados para alimentação e mais tarde como animais de laboratório, tendo sido, durante anos, um dos animais mais utilizados em experimentação. São originários da América do Sul, onde vivem em grandes grupos, à superfície, apesar de se esconderam em buracos nas rochas ou em tocas abandonadas por outros animais, porque não as escavam eles próprios. São presas fáceis de carnívoros de maior tamanho, sendo, devido a este facto, animais tímidos e facilmente assustáveis. As crias nascem em zonas abertas, sem a proteção de um abrigo e estão por sua conta desde logo. Ao contrário da maioria das espécies, são, ao nascimento, pequenas cópias dos adultos, com a pelagem completa e os olhos abertos, depois de longas gestações de cerca de 63 dias ( 31 dias nos coelhos, 21 dias nos ratos, 16 dias nos hámster). Com dois dias de vida estão a comer o mesmo que os pais. Foram trazidos para a Europa pelos marinheiros espanhóis, que foram os primeiros a manter esta espécie como animais de estimação. Antes disso eram criados simplesmente para alimentação humana, pelos Incas e ainda hoje, algumas raças o são, mesmo no Reino Unido.

Permanece um mistério o nome dado à espécie, no nosso português, uma vez que a sua origem nada tem a haver com a India.

Os porquinhos da India são animais de prado, muito fáceis de manter, quando corretamente acomodados. Precisam simplesmente de um local quente e seco, uma boa dieta herbívora, acesso regular a ervas frescas e espaço para se exercitarem regularmente. As raças de pelo longo, de aspeto mais exótico, exigem mais cuidados na manutenção de uma pelagem sã. Como animais sociais vivem em colónias familiares e esta característica deve ser respeitada quando os mantemos como animais de estimação.

Se escolheu um destes encantadores animais para fazer parte da sua família multi-espécie, aqui ficam algumas dicas para lhe proporcionar uma vida longa, saudável e feliz, na sua companhia.

1 - Como o escolher

A adoção só deverá ocorrer a partir das seis semanas, que é a idade em que o animal já se encontra capacitado para tomar conta de si próprio, sem a supervisão materna. Até às 12 semanas será a idade em que mais facilmente socializa e se for gentilmente manipulado por humanos, habituar-se-á a aceitar o contacto físico de forma pacífica e sem medos. A adoção depois desta idade não será um grande problema, mas tente averiguar como foi a sua forma de vida até chegar às suas mãos, para ter uma ideia geral de como se irá comportar o seu novo amigo. Com 6 semanas um porquinho deverá pesar mais ou menos 250g. Escolha um animal com pelagem brilhante, olhar atento, sem conspurcação da zona ano/genital e sem descarga nasal. Se pretender uma animal de raça, informe-se sobre os criadores e adote diretamente no mesmo, mas não sem antes verificar as condições das instalações onde o animal está alojado. No entanto, mesmo que não tenham raça definida serão, igualmente, ótimos animais de estimação. Não esquecer que os animais de pelagem comprida exigem um cuidado diário para a manter em boas condições. Em relação ao sexo, nem sempre é fácil, para olhos menos treinados, distinguir entre machos e fêmeas. Vire, gentilmente, o porquinho, de barriga para o ar, apoiado numa das sua mãos. Com a outra afaste os membros posteriores, por forma a expor os genitais. No caso de ser macho, uma pequena pressão na zona exterioriza o pénis. Se for fêmea, a mesma pressão expõe uma zona em forma de Y.

2 - Nunca o mantenha solitário

O isolamento social pode ser devastador para um animal gregário como este. Como presas, em ambiente natural, precisam de trabalho de equipa para se protegerem e toda a sua estrutura social se baseia na cooperação e interajuda. Vivem em grupos de vários animais que comunicam por sons e gestos, de complexidade variada e que servem para transmitir informação ou mesmo promover o relacionamento entre indivíduos. Normalmente um dos elementos do grupo fica de vigia, enquanto os outros descansam, dando o alerta, através de guinchos de aviso, sempre que um potencial perigo se aproxime. Toda a dinâmica da vivência diária de um porquinho se baseia nas relações sociais que estabelece com os seus congéneres. Privá-lo desta possibilidade é condená-lo a uma vida desinteressante porque desajustada das suas necessidades como espécie. Em alguns países aprovam-se leis de proteção animal, que proíbem a existência solitária destes animais, em ambiente doméstico. Impõe-se ao tutor a adoção de pelo menos dois animais em simultâneo. O ideal será a adoção de fêmeas aparentadas, como irmãs ou mãe e filhas. Se optar por macho e fêmea deverá pensar na esterilização cirúrgica de pelo menos um deles, porque a sua reprodução se torna difícil de controlar. Para tal, escolha sempre um veterinário especialista em animais exóticos, porque esta espécie tem muitas particularidades anatómicas e fisiológicas que têm que ser levadas em consideração. Evite a convivência de dois machos no mesmo espaço, sobretudo se este for exíguo, como uma gaiola. A probabilidade de lutarem entre si é elevada. Também poderá acontecer com as fêmeas, mas menos frequentemente. Se for impossível ter dois destes animais em simultâneo, poderá optar por um coelho, para lhe fazer companhia, desde que se habituem um ao outro enquanto jovens. Não será a situação ideal, mas sempre evita a solidão total em animais cujos tutores passam muito tempo fora e não lhes providenciam suficiente estimulação.

3 - Ofereça-lhe uma alimentação adequada

Um animal bem alimentado tem muito maior probabilidade de ser saudável. É muito importante que lhe forneça uma alimentação adequada às necessidades da espécie. Os porquinhos são estritamente herbívoros, ou seja, só devem comer alimentos de origem vegetal. O FENO deve ser a base da alimentação e deve estar à disposição 24 horas por dia. É o principal responsável pelo correto desgaste dos dentes, para além de fornecer a fibra necessária ao bom funcionamento do intestino. As VERDURAS FRESCAS, sempre limpas e servidas em porções, uma ou duas vezes por dia. É de evitar o excesso de verduras ricas em cálcio, como as couves, pois podem causar problemas urinários, especialmente nos adultos. Prefira as mais escuras, ricas em vitamina C. Pode escolher aipo, tomate, pepino, milho, brócolos, espinafres. As FRUTAS podem e devem ser dadas, mas com moderação, uma vez que o excesso de frutose (açúcar da fruta) pode causar diabetes. As RAIZES, como a cenoura, também devem ser dadas de forma controlada, uma vez que o excesso de fósforo também pode originar problemas urinários. A RAÇÃO não deve ser a base da alimentação e não deve estar à descrição. Deve escolher uma que seja especifica para esta espécie. A de coelho não é aconselhada, por ter excesso de cálcio e vitamina D, para além de ser deficiente em vitamina E. A VITAMINA C é muito importante, porque estes animais não a fabricam, tendo que a receber através da alimentação. Está presente na ração específica para porquinhos, assim como nos vegetais frescos. Pode também ser feita a suplementação, mas o ideal é obtê-la de forma natural. Evite as barras de cereais, normalmente cheias de açúcar. Provavelmente apreciará muito mais um pedaço de maçã e este é menos prejudicial. Sirva a refeição em pratos que não consigam roer nem virar e mantenha-os sempre limpos. O que não for ingerido deve ser removido, uma vez que os porquinhos são “gourmet” e não comerão aquilo que está conspurcado ou pouco fresco.

4 - Disponibilize sempre água fresca

A água é essencial á vida. Nunca lhe condicione o acesso. Utilize bebedouros próprios (tipo biberão), para que se mantenha sempre limpa e não haja hipótese de o porquinho a entornar. A falta de água, mesmo que por períodos curtos, pode ser fatal. Mantenha os bebedouros limpos e livres de algas verdes, que normalmente crescem nas sua paredes internas. Utilize arroz cru, com água e agite energicamente até estas se soltarem. Passe por água limpa. O mais seguro será disponibilizar mais do que um bebedouro, para que não ocorram acidentes e se um ficar vazio, haverá outro disponível.

5 - Disponibilize alojamento adequado

A tradicional gaiola, mesmo que espaçosa, não é o alojamento ideal. Os porquinhos são naturalmente animais ativos, cujos ancestrais habitavam vastas pradarias. A clausura não lhes permite correr, explorar e brincar, como fariam no seu habitat natural. Logicamente, em ambiente urbano, será difícil, senão impossível, proporcionar-lhe a liberdade de uma planície sul americana. Até porque os queremos proteger de potenciais inimigos domésticos, como o cão ou o gato. Mas podemos tentar aproximar-nos o mais possível, daquilo que seria natural, por forma a que o animal possa expressar os comportamentos característicos da espécie. Providenciar tudo aquilo que precisa no espaço de uma gaiola, é muito difícil, pois no mínimo precisará de comedouro, bebedouro, esconderijo e espaço para se exercitar. Para além de que nunca deve estar sozinho. Mas quantos mais porquinhos, maior o espaço necessário. Se vive num apartamento mínimo, sem espaço para colocar um cercado, então o melhor será ter um animal mais pequeno, com necessidades diferentes. Para além de que muitas gaiolas têm a base em grade, muito desconfortável, podendo causar deformações e feridas nas patinhas. Se tiver um quintal, poderá alojar os porquinhos no exterior, desde que com um abrigo impermeável, seco, arejado, confortável e espaçoso, incluído no espaço de um cercado, enriquecido com plantas, pedras, troncos e túneis. Este mesmo abrigo deve ter uma tampa que se possa levantar, para acesso ao interior, facilitando a limpeza e manutenção. Se existir a possibilidade de acesso a gatos, cães ou mesmo aves de rapina, o melhor será que o recinto esteja protegido com uma rede amovível a cobrir todo o espaço aéreo. Dentro de casa poderá construir um cercado com as mesmas características (com imaginação poderá mesmo ser decorativo), numa dimensão compatível com o espaço disponível. Mas quanto maior, melhor. No interior a temperatura e humidade são controladas, os riscos de doença menores e a interação tutor/animal mais frequente, estreitando-se laços de amizade. No entanto, não há como o preguiçar ao sol, num dia ameno, ou mordiscar umas plantinhas, frescas e viçosas, diretamente da terra. Mas cuidado… em dias frios e chuvosos o melhor será que fiquem em casa protegidos das intempéries. Outra alternativa será a de estarem alojados em casa, mas serem colocados periodicamente num relvado exterior, para se alimentarem naturalmente, protegidos por um cercado amovível, fechado em todos os lados exceto na base, que se pode ir mudando de local conforme as necessidades. Mas não se esqueça que, mesmo que por pouco tempo, deve-lhes ser sempre disponibilizado um esconderijo. O material para cobrir o fundo dos abrigos e do cercado interior deverá ser confortável e pouco abrasivo. Pode utilizar tiras de jornal, madeira prensada ou panos que possam ser lavados e reciclados. Mas por cima deverá colocar feno. Este mantém a temperatura, assemelha-se ao substrato natural, é macio, confortável e aromático.

6 - Ofereça-lhe jogos e brinquedos

Os porquinhos são animais bem dispostos, que adoram brincar, descobrir e explorar. Brincar ajuda ao bem estar fisco e mental, estimula o cérebro e mantem-no ativo, para além de promover o exercício físico. Quando o tutor se envolve na brincadeira e interage com o animal, estreitam-se laços que beneficiam ambas as partes. Bolinhas de papel são brinquedos ótimos e baratos, não havendo problema de o animal as roer. Aproveite rolos de papel higiénico, ou outros semelhantes, para que possa entrar, esconder, rebolar, destruir e quando isso acontecer é só substituir. Meias velhas, recheadas com feno fresco e atadas com um pedaço de pano, vão-lhe permitir mastigar e transportar de um lado para o outro. Bolas de ping-pong ou de ténis, são outra alternativa divertida e barata. Disponibilize esconderijos, tipo toca, que pode adquirir numa loja de animais ou improvisar com sacos de papel (nunca plástico). Brinquedos que possam ser mastigados também são importantes para o entreter e manter uma dentição saudável. Pode utilizar cartão, pedaços de madeira não tratada ou comprar objetos próprios para o efeito, numa loja da especialidade.

7 - Dê-lhe a possibilidade de se exercitar

Muitas vezes instalados em espaços exíguos, os porquinhos movimentam-se pouco e têm tendência para a obesidade. A alimentação seca, muito calórica e pouco natural, também tem a sua quota parte de responsabilidade. O exercício físico é importante para manter a boa funcionalidade das articulações e músculos, contribui para a saúde cardiovascular, previne o excesso de peso e melhora a performance cognitiva. Sobretudo se viver em gaiola, deverá ser libertado, diariamente, num espaço controlado, por forma a que possa correr e explorar. Construa um labirinto com a base em cartão e elabore o percurso com tiras, também de cartão, coladas á base com fita cola. Coloque um prémio apetitoso, no final do percurso. Disponibilize obstáculos interessantes, em altura, com pequenas caixas, ligadas por pontes, rampas e túneis, colocando pedaços de legumes e frutas frescos em vários locais, para que seja incentivado pelo olfato.

8 - Previna doenças

Vigie os dentes do seu porquinho. São de crescimento contínuo e têm que sofrer desgaste constante. Se estiver saudável e a alimentar-se convenientemente, não haverá problema. Mas se estiver a comer pouco, se não lhe for fornecida alimentação rija ou se houver má formação dentária, os dentes podem crescer descontroladamente, causar abcessos e impossibilitar a alimentação. Neste caso deverá consultar um veterinário, que procederá ao corte dos dentes. As unhas deverão ser regularmente aparadas, mas apenas se necessário. Na maioria dos casos, se lhe for disponibilizado espaço para se exercitar, não será preciso. Mas se o piso for muito macio não ocorre o desgaste natural e o corte torna-se indispensável. Cuidado para não atingir a polpa da unha. Para além de doer, ainda provoca uma hemorragia difícil de controlar. A escovagem é importante para remover pelo morto, verificar a saúde da pelagem, inspecionar a presença de parasitas e manter a higiene. Os banhos são desnecessários, sobretudo se mantiver o pelo bem escovado. No caso de o seu porquinho não lhe parecer bem de saúde, se comer com menos vontade ou não comer de todo, se estiver com diarreia, se a pelagem estiver sem brilho e o pelo quebradiço, se estiver a perder peso sem causa aparente, consulte o veterinário, se possível, especialista em animais exóticos.

Um porquinho da India pode viver entre 4 a 7 anos, ou até mais, se receberem os cuidados adequados, alimentação de qualidade, acomodação espaçosa, limpa, seca e quente, possibilidade de se exercitarem e locais para se esconderem. Deve certificar-se diariamente da sua saúde, observando-o cuidadosamente, desde que gentilmente manipulado. É muito importante para compreender como se comporta quando está bem e mais precocemente se aperceber quando algo está mal. Dê especial atenção aos ouvidos, olhos, nariz e genitais. São animais frágeis, cuja saúde se degrada rapidamente e têm um fraco poder de recuperação. Desidratam facilmente e têm dificuldade em manter a temperatura corporal. Aos primeiros sinais de doença, devem ser avaliados por um veterinário. Como em todas as outras espécies, quanto mais cedo se intervir, maior a possibilidade de sucesso terapêutico. Um porquinho saudável deve ter um ânus limpo e sem sinais de diarreia, um apetite razoável (comem frequentemente, mesmo durante a noite), respiração regular e sem esforço, pelagem limpa e brilhante, unhas curtas, ouvidos rosados, olhos abertos e alerta, boca limpa e sem purgação, dentes curtos que permitem a oclusão perfeita da boca.

E para finalizar, os porquinhos também podem ser treinados! Tudo depende do objetivo (que deve ser adaptado às capacidades cognitivas da espécie) e da utilização da motivação adequada. O treino estreita laços entre o animal e o seu tutor, para além de enriquecer o seu dia a dia, tantas vezes vivido num ambiente muito pobre em estímulos, onde nada de interessante acontece. Disfrute da companhia do seu pequeno amigo e proporcione-lhe uma vida longa e saudável, não só física com psicologicamente!

Até ao próximo mês…

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.