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Sandra Duarte Tavares

Sandra Duarte Tavares

LINGUÍSTICA PORTUGUESA

Empresta-me essa palavra, por favor?

O uso e abuso de estrangeirismos

Vivemos na era da imagem. O corrupio para os ginásios e clínicas de beleza espelha uma verdadeira obsessão pela figura perfeita e juventude eterna.

E a língua não escapou a esta vaidade excessiva. Também ela usa cada vez mais maquilhagem e mais adornos, e como se o produto nacional não fosse de boa qualidade, procuramos embelezá-la com adereços vindos de fora.

Falamos de estrangeirismos.

No meio empresarial (ou corporate!), qualquer projeto começa com um briefing dado pelo cliente, que define a deadline e aprova ou não o budget. Depois, entre reuniões em open space convivem os follow ups, os mindset, os overview e tantos, tantos outros...

No universo da moda, os manequins não se podem esquecer dos seus books e composites sempre que vão a um casting. E o look convém ser bastante clean, por isso, não devem exagerar na make-up!

Na praia, os surfistas procuram ondas para exibirem os seus drops e os seus snaps. E se o mar estiver flat ou houver muito crowd, o melhor é fazer um jogging matinal ou então ficar deitadinho na toalha a apanhar banhos de sol.

E por falar em sol, não adianta tapá-lo com a peneira. Os estrangeirismos estão por todo lado, qual praga veio para nos azucrinar. Decididamente, entraram sem pedir licença. Mas eles não vivem apenas em “condomínios fechados”. Eles coabitam cada vez mais em lugares comuns: no shopping, a fast food; nas lojas, as jeans e as t-shirts, no cabeleireiro, o brushing; na rua, o carjacking; na escola, o bullying

E desengane-se quem pensa que os usamos apenas por necessidade linguística. A verdade é que os usamos, quase sempre, por moda, vaidade ou estatuto social.

Digam lá se há ou não um certo glamour (desculpem, queria dizer encanto!) em dizer spa em vez de termas, resort em vez de estância, feedback em vez de retorno, performance em vez de desempenho, barbecue em vez de churrasco?

Encanto para uns, tormento para outros. Um autêntico tormento para quem vê no estrangeirismo uma ameaça ao seu património linguístico e cultural.

Mas creio, e lamento, que não há nada que possamos fazer, senão rendermo-nos às evidências: os estrangeirismos vieram para ficar. E, por enquanto, ainda os usamos gratuitamente, mas não deve faltar muito para que tenhamos de pedir licença para os usar: Empresta-me essa palavra, por favor?

Sandra Duarte Tavares

Sandra Duarte Tavares

LINGUÍSTICA PORTUGUESA

É mestre em Linguística Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora no Instituto Superior de Educação e Ciências (ISEC Lisboa). É consultora linguística e formadora de Comunicação, e colabora ainda com a RTP em programas televisivos e radiofónicos sobre Língua Portuguesa.É autora dos livros “Falar bem, Escrever melhor” e “500 erros mais comuns da Língua Portuguesa” e coautora dos livros “Gramática Descomplicada”, “Pares Difíceis da Língua Portuguesa”, “Pontapés na Gramática”, “Assim é que é falar!”, “SOS da Língua Portuguesa”, “Quem tem medo da Língua Portuguesa?” e de um manual escolar de Português: “Ás das Letras 5”.