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Pedro Graça

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NUTRIÇÃO

Já temos a radiografia alimentar de Portugal

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Pedro Graça

O Inquérito Alimentar Nacional, hoje publicado, revela um país obeso, onde mais de metade da população tem excesso de peso e um perímetro abdominal de risco

Entre 2015 e 2016 uma equipa de dezenas de investigadores, entrevistou mais de 6000 pessoas sobre hábitos alimentares, de atividade física e peso corporal, representando todas as regiões portuguesas. Os dados são apresentados por estes dias, depois de 37 anos de espera, já que um inquérito tão detalhado e com esta qualidade metodológica só tinha sido realizado uma única vez, no princípio dos anos 80.

Esta autêntica radiografia alimentar, proveniente do Inquérito Alimentar Nacional, revela um país obeso, onde mais de metade da população tem excesso de peso (57%) e um perímetro abdominal de risco (50,5%). Para esta situação, contribui certamente a baixa proporção da população jovem, entre os 15 e os 21 anos, fisicamente ativa (apenas 36%) e o facto da maioria das crianças passar até 2 horas por dia a ver televisão ao longo da semana (87%). E muito provavelmente, devido também à elevada ingestão de bebidas alcoólicas e açucaradas. Continuamos a beber muito álcool (24,3% dos homens, 1 em cada quatro adultos) consome álcool em níveis considerados excessivos, enquanto que 17% da população bebe diariamente refrigerantes ou néctares, a maioria com quantidades excessivas de açúcar. Nos adolescentes que bebem refrigerantes, 25% bebe aproximadamente, dois refrigerantes por dia. No final, o consumo médio nacional de açúcares simples é de 90g/dia. Um valor muito acima das recomendações da OMS, quase o dobro, sendo que apenas 3 % da população consome o açúcar recomendado internacionalmente! Estes valores são ainda mais alarmantes quando sabemos que entre 2006 e 2015, os encargos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e dos utentes com vendas em ambulatório de insulinas e antidiabéticos não insulínicos aumentaram 269%. Números aos quais poderíamos juntar a ingestão excessiva de sal e a sua relação com a hipertensão que atinge quase 4 milhões de portugueses. Os dados são de novo “fortes”. A ingestão de sódio acima do nível máximo tolerado foi identificada em 65,5% das mulheres e em 85,9% dos homens.

Isto significa que neste país, onde em média, por dia, são diagnosticados 168 novos casos de diabetes e que tem a maior taxa de acidentes vasculares cerebrais (AVC) da Europa Ocidental, causando dor e sofrimento à maioria das famílias atingidas, o sal e o açúcar continuam a ser tolerados pela sociedade como substâncias inócuas, não sendo ainda consideradas as prioridades número 1, 2 e 3 da saúde pública em Portugal. Ou da prevenção do Sistema Nacional de Saúde. Aliás, a Europa gasta em média 3% dos seus orçamentos com a Saúde na prevenção, revelando o quanto a alimentação está ainda longe de ser uma prioridade.

Felizmente, e no meio de tanta estatística assustadora, alguns sinais de mudança. Cresce o interesse dos cidadãos em torno da alimentação saudável e dos produtos com menos sal e açúcar. A taxa sobre as bebidas açucaradas foi implementada em Portugal com uma base forte de apoio por parte da população. Esperemos que parte do dinheiro arrecadado seja para investir na prevenção de doença e na promoção da alimentação saudável. Cresce o interesse por parte das cadeias de supermercados para modelos de informação mais simplificados e intuitivos como o provam os semáforos nutricionais da cadeia Continente. Aumenta a sensibilidade das autarquias (que tutelam a alimentação nas escolas) para modelos de oferta nas cantinas escolares mais saudáveis recorrendo a produtos e produtores agrícolas locais com incorporação de alimentos provenientes da agricultura biológica. Cresce a oferta de hortícolas e fruta nacional. Proíbem-se as máquinas de venda automática com produtos de muito má qualidade nutricional.

Esperamos que estes sinais signifiquem uma inversão de percurso e uma tolerância perto do zero para os produtos que nos “matam” no dia-a-dia, abrindo espaço para uma alimentação igualmente saborosa e diversificada, mas menos processada e mais amiga do ambiente e da nossa saúde.

Pedro Graça

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Pedro Graça é Diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, da Direcção Geral da Saúde. É doutorado em Nutrição Humana pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) onde é professor associado.

É membro do Conselho Científico da ASAE e ponto focal português da OMS e Comissão Europeia na área da alimentação.