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Saiba o que nunca deve fazer a um gato

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Célia Palma

Ter um gato não é o mesmo que ter um cão ou um bebé humano. Aqui ficam dez atos que estão proibidos a quem cuida de um gato

Ter um gato não é o mesmo que ter um cão ou um bebé humano. Quando alguém adota um animal, busca os primeiros conselhos com familiares, amigos, vizinhos e na internet. O mesmo acontece quando o gato fica doente. Neste caso, depois de terem tentado todas as mezinhas aconselhadas pelo vizinho, depois de experimentar os comprimidos que sobraram do tratamento do animal de um familiar, depois de se aconselharem com a senhora da farmácia e depois de consultarem o Dr. Google (não necessariamente por esta ordem), visitam finalmente o veterinário. Muitas vezes já com o animal em estado critico, quando se torna muito mais complicado o tratamento. E se o objetivo era poupar o dinheiro de uma consulta, só conseguiram exatamente o contrário. Já gastaram dinheiro em medicamentos desnecessários ou até prejudiciais, para depois terem que recorrer ao profissional de saúde, pagar os respetivos honorários e a medicação necessária para resolver um problema bastante mais complicado do que seria numa primeira abordagem. O ideal seria que se criasse uma relação de confiança médico/tutor, baseada na honestidade, amizade, empatia e compreensão mútua. Assim o tutor sentir-se-ia à vontade para utilizar o telefone para esclarecer uma dúvida ou para admitir uma qualquer dificuldade económica, que o impedisse de prestar a assistência que o animal precisasse nesse momento. Todos temos momentos maus nas nossas vidas. Quem nunca passou dificuldades, sobretudo na conjuntura socioeconómica dos últimos anos? Reconhecer essa dificuldade não é um sinal de fraqueza. Pelo contrário! É um sinal de honestidade e vontade de fazer o melhor. E pode ser criado um compromisso entre ambas as partes, por forma a que o gato receba os cuidados médicos que necessita, sem exceder a capacidade económica do tutor. A solidariedade é a base de uma sociedade, em todas as suas vertentes. Os veterinários não são exceção. Mas porque os apoios não existem, para sobreviverem como profissão não podem deixar de cobrar pelos seus serviços. No entanto, de certeza que irão enveredar esforços para encontrar soluções que favoreçam ambas as partes, sem prejuízo do interesse do animal.

1 - CORTAR BIGODES

As vibrissas ou bigodes são fundamentais para o equilíbrio e orientação do gato. Correspondem a um conjunto de pelos sensoriais, localizados entre o lábio superior e o nariz. Funcionam como uma espécie de radar, dando a noção exata de dimensão e distância dos objetos, facilitando a movimentação do animal na escuridão total. A perda deste órgão sensível provocará insegurança e frustração, uma vez que o gato terá dificuldade em executar determinadas tarefas rotineiras, como saltar com precisão, orientar-se no escuro ou andar em linha reta. A posição dos bigodes interfere, também, na linguagem corporal do animal. Quando está numa postura defensiva, movem-se para trás, ficando colados à face. Se relaxado, estão na normal posição, ligeiramente afastados da face. Se curioso, a sondar o ambiente ou a pedir mimos, dirige os bigodes para a frente, ficando com um adorável ar de quem está a fazer “boquinhas”. Quanto mais longos forem os bigodes, mais eficiente será a sua perceção sensorial. Estes também são renovados e por isso é possível que os encontre, por vezes, no local onde o gato dorme. Voltarão a crescer.

2 - DAR PARACETAMOL

Um comprimido de paracetamol atinge drasticamente os glóbulos vermelhos e o fígado, levando à morte em poucos dias. Isto porque os gatos não o conseguem metabolizar, por falta de proteínas que o degradem. Não é porque um medicamento é inofensivo para bebés humanos que é também inofensivo para gatos, mesmo que adultos. Analogias entre espécies nunca devem ser feitas, uma vez que são perigosas. Muitos gatos morrem desnecessariamente porque os seus tutores resolvem improvisar e medicar, sem aconselhamento médico. Mesmo com tratamento adequado e intensivo, a intoxicação por paracetamol mata, de forma lenta e dolorosa.

3 - DAR ÁCIDO ACETILSALICÍLICO

Muito utilizado como antipirético e analgésico, demora cerca de 45 horas a ser eliminado pelo metabolismo felino, enquanto que, no ser humano, o mesmo acontece em cerca de 4 horas. Isto porque os gatos não possuem concentrações suficientes da enzima necessária para a metabolização da droga. Os sinais de intoxicação são: apatia, aumento da frequência respiratória, febre, anorexia, vómitos, gastrite hemorrágica, lesões renais, hemorragias, coma e até morte. O ácido acetilsalicílico inibe a secreção e agregação de plaquetas, causando quadros hemorrágicos perigosos ou letais.

4 - MEDICAÇÃO SEM CONSELHO VETERINÁRIO

Automedicação é perigosa e exige conhecimento profissional. O gato possui um metabolismo peculiar, diferente do cão ou do homem. Nunca deve ser considerado um bebé humano, apesar da semelhança de peso, ou um cão de igual porte. Os metabolismos diferem muito e utilizar uma outra espécie como referência, pode ser fatal. Nunca arrisque. Confie ao médico veterinário a escolha do fármaco que o seu animal realmente precisa.

5 - DESPARASITAR COM PIRETRINAS

As piretrinas são inseticidas usados no controlo de parasitas externos dos cães. São habitualmente vendidos sob a forma de pipetas de aplicação tópica, coleiras, pós ou champôs e visam a eliminação de pulgas e carraças. Esta espécie possui enzimas próprias para a sua degradação e é, por isso, capaz de as inativar, sendo segura a sua utilização. Os gatos são bastante mais sensíveis a estes produtos, incapazes de os metabolizar e a sua ingestão, inalação ou contacto com a pele pode ser desastrosa. A intoxicação causa sintomas neurológicos e musculares agudos tais como salivação excessiva, tremores, convulsões, dificuldade respiratória, diarreia e vómitos, depressão ou hiperexcitabilidade, febre ou hipotermia e, como derradeiro e último sintoma, a morte desnecessária e agónica. É muito importante ler atentamente os rótulos dos produtos antiparasitários que utilizar e NUNCA extrapolar para o gato aquilo que pode utilizar num cão. Se acontecer a utilização indevida de tais produtos ou derivados, deverá imediatamente lavar o gato com água tépida (nunca quente, porque a temperatura aumenta a absorção pela pele) e sabão. Se acontecer a ingestão, nunca dê leite ou gorduras, porque estas também aumentam a absorção. Recorra imediatamente a um veterinário, porque a situação é muito grave e só este possui meios médicos indispensáveis para aumentar a taxa de sobrevivência de um gato intoxicado com piretrinas. O prognóstico é reservado e muitas vezes ficam sequelas nos que conseguem sobreviver. Se for tutor de cães e gatos em simultâneo, cuidado com a utilização destes produtos nos primeiros. O gato poderá tentar higienizar a zona humedecida do pelo do cão ou pisar acidentalmente algumas gotas do produto que possam ter caído no chão. Sendo maníaco da limpeza, a sua tentativa de retirar algo estranho ou de odor desagradável do seu corpo, imaculadamente limpo, pode levar á ingestão do produto.

6 - UTILIZAR GUIZOS NAS COLEIRAS

Sem dúvida, quando compra uma coleira para o seu pequeno tigre, esta virá, muito provavelmente, ornamentada com um guizo. A maioria das pessoas acaba por o deixar ficar, por achar engraçado ou mesmo por conveniência, uma vez que se torna mais fácil localizar o seu portador. No entanto, sob o ponto de vista do gato, estes pequenos e ruidosos objetos são obra do demónio. Como caçadores, vêm a tarefa dificultada pelo seu soar indiscreto. Como presas, são mais facilmente localizados pelos seus predadores. Toda a anatomia do gato o dota da possibilidade de se tornar quase invisível e silencioso. O guizo inviabiliza esta admirável capacidade. E transforma-o num animal frustrado e nervoso. Imagine o que seria ouvir um tilintar irritante e constante, nos seus ouvidos, sempre que se movimenta! Se o objetivo é salvar vidas de pequenos pássaros e roedores, o uso de coleiras com cores garridas e brilhantes pode ajudar, com a vantagem de não stressar o gato. Em relação á vantagem de o tilintar servir para o localizar, pode sempre utilizar outros truques, como por exemplo agitar a caixa da ração para o atrair. E os guizos podem ser utilizados para fabricar brinquedos caseiros.

7 - PASSEAR O GATO À TRELA

Os gatos são predadores, mas também são presas. Ou seja, não gostam de ficar expostos, sem controlo do ambiente, uma vez que temem potenciais inimigos. Adoram explorar, mas sem perderem o domínio da situação, ao seu próprio ritmo e conforme a sua vontade. Normalmente exploram o seu território, partindo de um ponto inicial onde se sentem seguros e vão á descoberta da área envolvente, aos poucos e cautelosamente, regressando rapidamente ao ponto de partida, se sentirem algum tipo de ameaça. Mesmo quando fazem explorações mais alargadas, verificam visualmente se existem esconderijos ou zonas seguras nas redondezas, para ai se refugiarem, se acharem necessário. É por esta razão que tantos gatos são atropelados quando atravessam estradas movimentadas. Considerando que estão em ambiente hostil, precipitam-se numa fuga cega, para encontrarem abrigo onde relaxar e voltar a sentir que estão no controle da situação. Partindo deste principio, é fácil compreender que pode ser muito arriscado expor um gato a um ambiente desconhecido, preso por uma trela. Cego de pânico, tentará fugir descontrolado, enrolando-se no fio, reagindo de forma perigosamente agressiva a qualquer mão que o tente acalmar. Ambos, animal e tutor, poderão acabar feridos, com maior ou menor gravidade. Para além da associação, que o gato fará, do tutor com o incidente e quebrar-se a confiança que nele depositava.

8 - DAR CHOCOLATE

Muito falado em cães, mas também tóxico para gatos. O chocolate contem teobromina, que não é metabolizada no fígado, causando diarreia, vómitos, tremores, descoordenação motora e até morte. Qualquer produto que contenha chocolate, mesmo que em ínfimas quantidades, está completamente proibido na alimentação felina.

9 - LEVAR O GATO AO VETERINÁRIO SEM TRANSPORTADORA

Como veterinária já assisti, com grande consternação, a acidentes evitáveis, que acontecem com gatos que vão á consulta, sem estarem devidamente acondicionados numa caixa transportadora. Os tutores conhecem o seu animal no contexto doméstico, em ambiente controlado e com o qual está completamente familiarizado. Salvo raras exceções, em casa sentem-se confortáveis e seguros e a sua atitude é a expectável. Mas quando são confrontados com o ambiente hostil de sala de espera do consultório veterinário, com sons ameaçadores, odores assustadores e outros animais igualmente amedrontados, todos os sinais de alerta da sua condição de presa disparam e o gato só quer sair dali a qualquer custo, sem olhar a meios ou medir consequências. Neste momento de absoluto pânico torna-se prioritário e essencial abandonarem o local, para se refugiarem em qualquer outro, que considerem mais seguro. Por mais que instrua os tutores, na primeira consulta do gatinho e que lhes ofereça desdobráveis com conselhos sobre a melhor forma de os transportar, continuam a aparecer gatos ao colo, ou mesmo á trela, quando nos visitam na clinica onde trabalho. Infelizmente já experienciei de tudo, desde os que fugiram do colo dos tutores, depois destes ficarem seriamente arranhados, para nunca mais serem encontrados, àqueles que foram logo em seguida atropelados, na movimentada estrada em frente. Felizmente que alguns conseguiram ser resgatados, depois de se acalmarem, nesse mesmo dia ou uns dias depois. Mas, por negligência ou mesmo irresponsabilidade, algumas vidas se perderam desnecessariamente. Portanto, mesmo que o seu pequeno tigre seja a mais calma e doce criatura alguma vez vista, não arrisque. Não saia com ele sem ser na transportadora, cuidadosamente verificada, para que não corra o risco de se abrir. Os gatos são animais que passam subitamente de uma emoção a outra. Um gato em pânico, tanto pode ficar estático, como no segundo seguinte atacar e/ou fugir.

10 - DAR PILULA CONTRACETIVA

O controle da natalidade nas gatas deverá ser feita através da esterilização cirúrgica. A pílula anticoncecional está completamente contraindicada, pelos riscos que a sua administração acarreta. A piómetra é uma doença uterina, em que ocorre uma infeção no interior deste órgão, infeção esta que não se consegue controlar com a administração de antibióticos. Só a ovariohisterectomia (remoção de ovários e útero) a pode resolver, mas existe a possibilidade de septicemia pós-cirúrgica (generalização da infeção). O risco de desenvolver esta doença é muito maior em animais a quem é administrada contraceção oral.

Escolher um gato para partilhar o ambiente o nosso familiar implica um compromisso em que nos responsabilizamos pelo seu bem estar físico e psicológico. É nosso dever proporcionar-lhe alimentação adequada, exercício físico regular, cuidados de saúde indispensáveis e possibilidade de expressar todos os seus comportamentos naturais. Completamente indefeso, estará á mercê das nossas decisões, dos nossos caprichos, das nossas futilidades. Uma irresponsabilidade dos tutores pode custar a vida do animal. Nunca arrisque e pondere bem qualquer decisão que envolva o seu gato.

Até ao próximo mês…

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.