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Religião e mortalidade: existe alguma ligação?

Deveremos aceitar que não compreendemos as razões estritamente científicas que possam explicar uma menor mortalidade em pessoas mais religiosas, mas incorporar este conhecimento na nossa abordagem clínica

Os leitores habituais desta nossa coluna conhecem bem as bases científicas com que documentamos todas as nossas crónicas, defendendo que, em saúde, as provas dadas pela investigação clínica são as que nos podem dar o suporte para decidirmos melhor.

No 1º artigo que escrevemos para a VISÃO tivemos o cuidado de afirmar:

“O movimento designado por Medicina Baseada na Evidência preconiza que as melhores provas científicas devem servir de base à decisão clínica e não a tradição, a cultura local ou as crenças. Deste modo, a nossa convicção sobre a reclamação de eficácia de uma intervenção terapêutica, ou da precisão de um teste diagnóstico ou da operacionalização de um factor de risco deverá sempre ser baseada na melhor evidência científica disponível. Se assim não for, não podemos acreditar com segurança nestas causalidades clínicas.”

Ou seja: na análise a factos relacionados com a saúde em geral, ou com a prática médica, ou com técnicas de gestão ou com as políticas de saúde, favorecemos a utilização de dados científicos (evidência científica) de boa qualidade. É claro que por vezes não existe evidência de boa qualidade, ou não existe evidência de todo, pelo que, reconhecendo este facto, alertamos o leitor que o que estamos a afirmar (ou a contrariar) não ser baseado em evidência científica.

Situação diversa é haver evidência de boa qualidade que suporta um fenómeno ou um achado difícil de explicar sob o ponto de vista científico/médico. Por exemplo, às vezes não temos conhecimento exacto sobre os mecanismos de um tratamento, embora os estudos que o analisaram identifiquem benefício (os médicos gostam sempre de saber porque é que as coisas acontecem…). Um caso típico é o da acupunctura como tratamento para certas dores de cabeça, cujo benefício está provado em estudos excelentes, mas não sabemos exactamente porquê.

O estudo que agora trazemos ao vosso conhecimento foi publicado em 2016 numa das melhores revistas médicas mundiais, o Journal of the American Medical Association Internal Medicine, e a questão a que os investigadores procuraram responder era se as mulheres mais crentes, que assistem regularmente a manifestações religiosas, quando comparadas com as que nunca o fazem, têm tendência a morrer menos (JAMA Intern Med. 2016 Jun 1;176(6):777-85).

Designado inicialmente como o “Nurses’ Health Study”, o estudo seguiu um grupo de 74.534 mulheres durante um período de vinte anos (1992-2012) e analisou a relação entre a frequência de serviços religiosos e a mortalidade global, cardíaca e oncológica. Durante este período, de cada 100 mulheres 4 morreram de causas cardiovasculares e 6 de causas oncológicas. Após uniformização estatística das características de todas as pacientes, isto é, fazendo com que pudessem ser comparadas umas com as outras em termos de outros factores de risco de mortalidade (tais como comportamentos e estilos de vida), verificou-se que a frequência de cerimónias religiosas mais do que uma vez por semana se associou a uma diminuição de 33% de mortalidade global (e também da cardiovascular e oncológica). Este estudo apresentou uma metodologia muito rigorosa, permitindo isolar a frequência de cerimónias religiosas como estando associada a menor mortalidade (uma das limitações deste estudo: ter analisado apenas um dos aspectos da religiosidade individual - a frequência de cerimónias religiosas – quando existem tantas outras como o apoio social, acções de voluntariado, etc.). Os autores identificaram como factores potenciais para explicar estes resultados a presença de depressão, o grau de optimismo e a existência de apoio comunitário (entre outras).

Estes resultados não são novos e têm vindo a ser comunicados ao longo das últimas décadas. Uma revisão sistemática recente concluiu que a frequência de serviços religiosos ajudou à redução da mortalidade em 18% nestas pessoas saudáveis (Explore (NY). 2011;7(4):234-238).

Como citado pelos autores, a participação em cerimónias religiosas (como indicador de crenças religiosas) pode afectar o comportamento individual, mudar a percepção do mundo e a emoção, promover a compaixão, organizar as comunidades e podendo, de formas várias, promover o bem estar, a saúde e o equilíbrio social. Mas sabemos também que as crenças religiosas podem igualmente promover a divisão, a violência e a intolerância. Portanto, a realidade é complexa.

De facto, poderá não haver uma explicação racional sobre estes achados tão interessantes, mas o que pensamos é que estes dados nos podem ajudar a melhor tratar os nossos doentes, apoiando diversos níveis de espiritualidade de maneira apropriada. Ou seja, deveremos aceitar que não compreendemos as razões estritamente científicas que possam explicar uma menor mortalidade em pessoas mais religiosas, mas incorporar este conhecimento na nossa abordagem clínica.

António Vaz Carneiro

António Vaz Carneiro

SAÚDE

É professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e director do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência da FMUL. É ainda director da Cochrane Portugal.