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Dicas para quando o seu gato começa a ficar velhote

Bolsa de Especialistas

Célia Palma

Conselhos para ajudar o seu pequeno tigre a viver melhor na última etapa da vida.

Envelhecer é natural. É nossa função, como profissionais de saúde, fazer com que esta fase da vida seja vivida da melhor forma possível, utilizando todos os recursos médicos disponíveis, por forma a que os efeitos inevitáveis do desgaste físico e psíquico sejam minimizados, atenuados ou superados da melhor forma. O gato, apesar de não evidenciar, até tarde, sinais externos de envelhecimento, não é imune a tal processo e sofre desgaste articular, alterações ósseas degenerativas, alterações dentárias, envelhecimento orgânico geral e disfunção cognitiva. A dificuldade nesta espécie está, exatamente, na sua descrição. São mestres em esconder as suas fragilidades. Uma gato idoso, com problemas articulares e consequentes dificuldades locomotoras, mantém-se mais tempo deitado, brinca e interage menos, para além de não subir para aqueles locais onde gostava de permanecer em vigília, observando o espaço envolvente. Se o tutor não estiver atento ou informado, vai achar normal que o gato, por estar mais idoso, durma mais, não valorizando estas alterações de comportamento. Devem ser instruídos no sentido de estarem atentos às alterações de rotina, mesmo as mais subtis, uma vez que o seu amigo pode estar a sofrer em silêncio. A degradação cerebral (que origina a disfunção cognitiva) comum e inevitável, tal como nos humanos, pode levar á demência e consequentemente, a alterações no ciclo do sono, modificação de hábitos de sempre, desorientação espacial, vocalização excessiva (sobretudo durante a noite), alterações nas relações sociais, eliminação inadequada, aumento da ansiedade em situações onde anteriormente se sentia confortável, entre outros. Estudos sugerem que cerca de 25% dos gatos que têm entre 11 e 14 anos, já evidenciam pelo menos 1 problema relacionado com disfunção cognitiva. Esta percentagem dobra para 50%, para gatos com mais de 15 anos. A estimulação cognitiva treina um cérebro em progressiva degradação e mantem-no funcional durante mais tempo. Em relação à mobilidade, manter o gato ativo, levando em consideração os limites impostos pelas alterações degenerativas articulares, ajuda a melhorar a locomoção.

A idade a que um gato passa a ser sénior é variável, mas poderemos dizer que, em média, os 12 anos serão uma fase de passagem, em que os primeiros sinais de envelhecimento aparecem, de forma subtil e gradual. Com os cuidados médicos que são atualmente dispensados aos animais de estimação, a melhoria na qualidade da alimentação e uma vida recatada e confortável, têm aumentado a longevidade e sem dúvida os nossos companheiros felinos vivem mais hoje em dia, que no passado. Consequentemente o número de gatos sénior tem aumentado exponencialmente. A medicina geriátrica felina tem evoluído a par, disponibilizando um elevado número de fármacos, cuja função será minimizar e/ou retardar os inevitáveis efeitos do envelhecimento.

Aqui ficam algumas dicas que podem ajudar o tutor a devolver ao seu gato sénior a qualidade de vida que ele merece.

1 - Facilitar o acesso aos recursos básicos.

Um gato idoso, poderá sofrer de artrite. Esta doença condiciona a mobilidade do animal e o seu acesso a locais mais altos ou que exijam uma maior agilidade para serem alcançados. A distância que tem que percorrer para concretizar uma tarefa também se poderá tornar num obstáculo intransponível para um artrítico. Assim, todos os recursos devem ser cuidadosamente verificados no sentido de serem testados em relação á facilidade com que podem ser alcançados. Devem ser colocados comedouros e bebedouros ao nível do chão, mesmo que numa fase inicial se mantenham outros nos locais onde sempre estiveram. Deve ser permitido ao gato a escolha, para que a necessidade básica de comer ou beber não se torne uma tarefa tão dolorosa, que este opte por não o fazer de todo. As caixas de areia devem ter rebordos baixos, para facilmente serem transpostos e o animal não se ver obrigado a eliminar noutro local. Se o espaço que habita for de dimensão considerável, o melhor será disponibilizar recursos mais perto do local onde passa a maior parte do tempo. Se costuma passear no exterior, verifique a altura da gateira (porta especial para gatos e que permite que o animal saia ou entre na casa sempre que quer) e a facilidade de acesso á mesma ou ao local pelo qual lhe é permitido sair e entrar. Se gosta de dormitar ou estar de vigília num local elevado, coloque rampas antiderrapantes ou outros objetos que funcionem como degraus, para que possa continuar a desfrutar de velhos hábitos.

2 - Incentive o exercício físico adequado ao estado de saúde do seu gato geriátrico.

Brinque com o gato regularmente, por curtos períodos e de forma controlada. Utilize brinquedos com movimento, mas que o façam lentamente, para que um corpo menos ágil e uma visão reduzida, possam ultrapassar, com sucesso, o desafio criado pelo jogo. Crie espaço tridimensional estimulante e fácil de alcançar, para que exercite todo o seu aparelho locomotor. Evita desta forma a atrofia muscular e mantém as articulações mais funcionais. Utilize o olfato para criar jogos com comida apetitosa, em dispensadores de comida, que não necessitem de muita robustez física para serem movimentados, ou escondendo pequenas porções em locais de fácil acesso. Começam a ser utilizados tanques de água aquecida, em fisioterapia de gatos, tal como já acontece há algum tempo com os cães. Mas seria preciso que estes se tivessem habituado desde jovens ao contacto prazeroso com a este meio, uma vez que, no geral, existe uma certa aversão desta espécie, aos desportos aquáticos. Caso contrário, o stress causado pela imersão, mesmo que só de uma parte do corpo, seria contraproducente. Pode também efetuar massagem terapêutica dos membros, para evitar a atrofia muscular e favorecer a mobilidade articular.

3 - Aumente o número de recursos.

A desorientação espacial acontece nos animais com demência e pode ser um problema em relação à manutenção de hábitos básicos de higiene e alimentação. Se o gato não se conseguir orientar em relação à localização do comedouro, bebedouro ou caixa de areia, poderá deixar de se nutrir convenientemente ou de eliminar no sitio correto. A desnutrição e desidratação podem ocorrer, assim como a eliminação inadequada. Doenças orgânicas podem advir de uma nutrição deficitária ou de um aporte insuficiente de água. A não utilização do caixote de areia leva muitos tutores a ponderarem a eutanásia. Assim, se se disponibilizarem mais recursos, por forma a que o gato que os encontre com maior facilidade, mesmo que desorientado, podem ser evitados alguns dissabores. Devem ser colocados pratos com comida e água, para além de caixas de areia suplementares, em locais de fácil acesso, sobretudo naqueles em que o animal passa mais tempo. Mas nunca estes três recursos devem estar lado a lado, para que o gato não evite a sua utilização. Se estiverem no mesmo espaço, devem ser colocados o mais afastados possível.

4 - Verifique a saúde oral.

Muitos gatos idosos têm alterações dentárias, que podem causar dor ou desconforto enquanto se alimentam ou executam o “grooming” natural. Reabsorção da raiz do dente, gengivite e periodontite, tártaro e úlceras orais causam dor intensa ao comer e o animal passa a evitar alimentar-se, apesar de ter fome. Como consequência advém a desnutrição, desidratação e mau estado do pelo. Consulte o Médico Veterinário, no sentido de avaliar a saúde oral do seu gato. Se necessário alimente-o com comida branda, palatável, menos abrasiva e mais fácil de deglutir.

5 - Disponibilize superfícies antiderrapantes.

Disponibilize pisos de borracha, com textura, que facilitem a tração e que permitam ao gato deslocar-se mais facilmente em direção aos recursos. Evitará acidentes relacionados com a eliminação e ajudará o animal a manter-se mais ativo.

6 - Favoreça o contacto físico com o gato.

Em gatos geriátricos, a audição e a visão estão muitas vezes comprometidas. Nalguns caso o olfato também está afetado, o que pode ser extremamente incapacitante, se levarmos em consideração que este vive no mundo dos odores. Fica, portanto, confinado a uma espécie de bolha sensorial, onde o pouco contacto que tem o exterior é proporcionado pelos terminais nervosos da pele. Promova o contacto físico com o seu gato, acaricie-o, afague-o e massaje-o frequentemente, favorecendo as zonas do corpo que lhe dão mais prazer. Estes momentos de interação servem de estimulação cognitiva, assim como promovem o bem estar e estreitam laços afetivos entre ambos.

7 - Escove-o regularmente.

Este é um cuidado que deve ter com qualquer gato, em qualquer idade. No entanto, os velhotes, por dor, demência ou doença oral, descuidam o cuidado meticuloso que habitualmente têm com o pelo e o estado do mesmo ressente-se, ficando baço, eriçado, escamoso e com aspeto pouco saudável. Também fica comprometido o controle que fazem dos parasitas, uma vez que quando se lavam eliminam ovos de pulga ou mesmo os próprios parasitas, reduzindo o seu número. Uma escovagem regular, substitui os cuidados que o próprio gato costuma dispensar no cuidado da pelagem, devolvendo-lhe o aspeto saudável, para além de ser uma forma de verificar a existência de parasitas, ou qualquer doença se pele.

8 - Verifique regularmente o estado de crescimento das unhas.

O gato dispensa uma boa parte do seu dia à manicura das suas 18 unhas. Quando fica mais velhote descura, muitas vezes, um cuidado que para si era indispensável. As suas unhas são formadas por camadas, que descamam quando as afia ou quando procede ao arrancamento dessas partes mortas, com a boca. É muito frequente crescerem sem controle, nos animais idosos, encravarem e causarem infeções mais ou menos graves, que poderiam ser evitadas se o tutor procedesse ao corte regular das mesmas. Pelo menos uma vez por mês, deve verificar o seu estado de crescimento e aparar, se necessário.

9 - Proporcione odores diferentes em ambientes diferentes.

Como os gatos vivem no mundo dos odores e este é, normalmente, o último dos sentidos a ser perdido, pode sinalizar os vários locais, importantes para o dia a dia do gato, com odores diferentes e agradáveis, na sua perspetiva. Poderá orientar-se por estas fragrâncias, distinguindo locais como os de repouso, de eliminação ou de alimentação. O ideal será utilizar ervas aromáticas, como a lavanda, a alfazema ou o rosmaninho, constantes nos diferentes locais, por forma que o animal compreenda onde está pelo odor presente no ar. Dependendo dos casos e conforme o sentido que o gato mantém mais funcional, poderá recorrer também a sinalização com luz ou sons. Também o piso poderá ser coberto com coberturas antiderrapantes e texturas variáveis de local para local.

10 - Estimulação cognitiva.

Um cérebro exercitado mantem-se funcional durante mais tempo. Se votarmos o sénior ao abandono cognitivo, os seus neurónios pouco estimulados definharão e os sinais de demência aparecerão mais precocemente. Portanto interaja com o gato de todas as formas possíveis, para que seja incentivado a resolver problemas, de dificuldade controlada, para que brinque, dentro das sua possibilidades físicas e para que aprenda novos truques e comandos, não com o objetivo se o tornar um animal de circo, mas para que se mantenha ativo, consciente do ambiente em que vive e interessado nos estímulos envolventes. Esconda porções de comida apetitosa e aromática, em locais diferentes, para que tenha que seguir o seu olfato para se orientar e acabar por ser premiado com uma refeição gourmet. Utilize brinquedos que se movam devagar e aromatizados com fragrâncias interessantes, como por exemplo a “erva dos gatos”. Coloque-os a uma distância suficiente para serem visualizados por um animal com deficit de visão e mova-os lentamente, para que este os consiga acompanhar ou sentir a deslocação do ar. Pode utilizar o treino com clicker para interagir com o gato, sobretudo se este já estava habituado a este tipo de treino. Mas não esqueça que deve ser muito paciente e não esperar que responda com a mesma facilidade com que o fazia anteriormente, para além de que os desafios devem ser mais simples e as recompensas apelativas e adaptadas ao animal sénior, muitas vezes já com problemas visuais a auditivos.

11 - Consulta o veterinário.

Leve o seu gato sénior ao veterinário assistente, para que este avalie o seu estado de saúde. Provavelmente aconselhará um check-up analítico, para detetar precocemente algumas alterações que possam não ser ainda evidentes, para além de radiografias que ajudem a avaliar o estado das articulações. Mas sobretudo encetará um inquérito exaustivo sobre o comportamento do gato, para detetar alguns sinais de disfunção cognitiva, que possam passar despercebidos aos tutores. Aqui, mais uma vez, o diagnóstico precoce pode ajudar a retardar o envelhecimento cerebral, ajudando o gato a manter uma cognição aceitável, até mais tarde. Poderá ser aconselhada uma alimentação adaptada a esta fase da vida, para além de suplementação que ajude a melhorar a saúde articular, assim como a cerebral.

Providenciar comida, água, exercício físico e conforto, já não é o suficiente para uma tutela responsável. É, também, responsabilidade do tutor, hoje em dia, providenciar cuidados médicos preventivos ou curativos que ajudem a evitar a doença ou a conviver com ela, quando inevitável, de forma confortável e com o máximo de qualidade de vida. Felizmente já não têm que ouvir que o seu gato “está, simplesmente, a ficar velho”. É responsabilidade, do veterinário assistente, preparar clientes para os problemas relacionados com a idade dos seus pacientes e fornecer o máximo de informação, para que o efeitos naturais do envelhecimento possam ser minimizados e o animal possa viver uma vida longa e generosa. Se para isso for necessário recorrer a medicação, para além de suplementação alimentar ou mudanças na própria dieta, pois que seja. Envelhecer não tem que ser um fardo difícil de suportar. A dignidade e conforto têm que ser mantidos a todo o custo, para beneficio do bem estar do gato e dos seus cuidadores.

Até ao próximo mês.

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.