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Há bem pior que os hackers e convém ter medo

Sean Gallup

Há que ter medo. Não para nos acobardarmos, mas para estarmos atentos e não permitir derivas ditatoriais

Tenho, pelo menos racionalmente, medo do que pode acontecer aos nossos dados, ao que publicamente ou a coberto do segredo existe sobre cada um de nós em milhares de computadores. Não estou a falar dos dados bancários, nem da conta da Amazon. Falo daquilo que somos, do que assumimos em público ou do que está guardado nas bases de dados dos hospitais ou dos serviços públicos.

A maior parte das pessoas não está disposta a viver numa espécie de clandestinidade digital, e em relação aos dados médicos ou legais nem sequer podemos sem nos tornarmos eremitas.

Quero dizer então que tenho medo do guardião legal. A prova máxima é o que acontece agora com Trump. Se já tínhamos razões mais do que suficientes para desconfiar do guardião legal dos dados, seja o governo ou as empresas que supostamente guardam o que é nosso, se o guardião mudar podem acontecer coisas muito graves. São conhecidas as guerras legais entre empresas e estados para decidir quem tem o direito de acesso e em que circunstâncias. Trump está numa verdadeira guerra com a imprensa, o que quer dizer que já vai usar o que os jornalistas escreveram publicamente sobre ele para os julgar e tentar decidir quem tem direito a quê.

Mas e se for muito mais longe? Se aquilo que damos como adquirido começar a mudar a coberto da suposta legitimação do voto? Já começou a discriminar pessoas em função do país de origem, uma forma encapotada de discriminar e função da religião, só para começar. Já começou a usar a velha tática de acusar povos inteiros dos crimes de meia dúzia, parece que agora todos os mexicanos vendem droga. E se depois de perseguir os imigrantes Trump ou qualquer outro do género, em qualquer país, conseguir ilegalizar a homosexualidade e usar as bases de dados públicas para perseguir os que se casaram ao abrigo dos regimes legais atuais, ou os que simplesmente se assumiram no Facebook? Se decidir descriminar doenças como tantas vezes se fez na história, ou no caso português se alguém voltasse a criminalizar o consumo de drogas e fosse usar os dados médicos existentes? São situações que talvez me parecessem absurdas há um ou dois anos. Hoje infelizmente não posso dizer o mesmo. E há que ter medo, não para nos acobardarmos mas para estarmos atentos e não permitir derivas ditatoriais a coberto de uma eleição pontual, a coberto de mandatos que ninguém atribuiu a nenhum político.

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

TECNOLOGIA

Jornalista e editor de Novas Tecnologias na SIC