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Avós: os velhinhos afinal são fortes

Para a maior parte de nós, “teenagers”, alguém com mais de trinta já é um bocado velho, a partir dos quarenta são velhos, a partir dos cinquenta são velhotes e dos sessenta são velhinhos

O peso da idade é muito cruel, como diz o meu avô. A vida nunca é leve e quanto maior o tempo de vida, maior o fardo que temos para carregar.

Penso que a maior fragilidade humana é a mortalidade, que com o passar dos anos se vai tornando cada vez mais evidente e também mais próxima. É inevitável, que todos o venhamos a sentir mais cedo ou mais tarde. O nosso corpo a recusar aquilo para que foi feito, viver.

No entanto, a história que vos vou contar não se concentra nas fraquezas da idade avançada mas na sua força.

Quando aconteceu o divórcio dos meus pais, a primeira coisa de que me lembro fazer, foi telefonar aos meus avós, que esperavam ansiosamente para falar comigo. Não podia ter sido mais honesta, do que fui na minha inocência, quando lhes disse que estava tudo bem. Ainda hoje me pergunto se acreditaram no que lhes disse naquele dia, ou escolheram deixar-me apreciar a calma daquele momento, os breves segundos que existem antes de todos os começos, em que a história ainda se sente demasiado sonolenta para nos acordar.

A verdade é que o divórcio dos meus pais foi calmo, sem atos escusados ou ações violentas. A relação deles não acabou, apenas se alterou. Discussões acesas transformaram-se em trocas de palavras entre duas pessoas que já não iriam partilhar a mesma casa, o mesmo lugar. Sei que há divórcios muito piores do que aquele que eu passei, mas algo aconteceu, algo diferente que se quebrou e que me empurrou para um sítio diferente, sem me oferecer onde cair. Dentro daquela família de quatro, que deixava de o ser, tinha-se criado uma estrutura. Uma construção sólida em que eu me apoiava inconscientemente quando a vida me fazia tropeçar, falo de pequenos tropeções, mesmo muito pequenos, porque no meio de uma estabilidade familiar a vida corre como uma brisa pela qual mal nos apercebemos.

De repente tudo o que era deixou de ser, pedras desconhecidas começaram a rolar e um apoio conhecido tinha realizado uma fuga invisível. Nesse momento, o meu “está tudo bem” foi substituído por silenciosos gritos de pânico, que apenas duas pessoas foram capazes de acalmar, os avós. São gerações muito distantes e no entanto, capazes de gerar uma cumplicidade como nenhuma outra.

Devo com alguma vergonha admitir que para a maior parte de nós “teenagers” alguém com mais de trinta já é um bocado velho, a partir dos quarenta são velhos, a partir dos cinquenta são velhotes e dos sessenta são velhinhos.

Descobri que os meus avós são velhinhos mas têm muita força!

Por vezes é difícil lembrarmo-nos de que os nossos pais também são filhos e que os nossos avós também são pais. Mas eu tento não me esquecer.

Os avós para quem tem a felicidade de os ter, são aquele conforto que carregamos durante a nossa infância. Aquele pequeno refúgio que às vezes é necessário, para nos escondermos, para nos escondermos até dos nossos próprios pais! Ninguém conhece melhor a tua mãe, nem sabe tão bem como ela consegue ser teimosa, como a mãe da tua mãe.

Os avós são a mesa repleta de comida que a avó prepara por achar que estamos demasiado magros, mesmo quando estamos com uns quilos a mais do que é suposto. São, como eu e o meu avô gostamos de brincar, “a vida boa”, de andar sempre a passear. São as melhores pessoas para esses momentos bons, mas infelizmente, muitas vezes esquecidas em tantos outros.

Foi nos meus maus momentos que me apercebi da força superior que eles possuem dentro das suas fragilidades. Numa altura em que senti falta de estrutura na minha vida, eles criaram-na. Estou a escrever este texto porque nunca o vou esquecer e quero que eles o saibam.

Quando comecei a revelar sinais, com discussões e problemas, de que precisava de alguém que me apoiasse, os meus avós agarraram esse papel com unhas e dentes. Aqueles que deveriam formar a estrutura mais frágil de todos nós, criaram uma muralha de ferro e aço para me sustentar. O meu avô é uma pessoa reservada, é raro ouvir a sua voz em eventos sociais. Mas eu e ele conseguimos falar até estarmos a cair para o lado de sono, sem nunca nos aborrecermos. Entre a minha curiosidade e as mil histórias que ele tem para contar, o assunto nunca falta. Mas quando as minhas decisões devem ser questionadas, não tem reservas em fazê-lo. Já a minha avó é o oposto, nunca conheci ninguém que conseguisse comunicar tão facilmente com qualquer estranho. É a alegria da casa. Observar tanta pureza em alguém com tantos anos de vida é invejável. Quase que parece que não foi tocada pelo mundo. Juntos, eles deram-me uma casa, não no sentido literal da palavra mas da estrutura familiar que me faltava. Alimentaram a minha sede emocional por aquele equilíbrio perfeito do pai e da mãe. Ofereceram-me um chão para andar até eu criar as minhas novas estruturas.

Nunca se deixem iludir pelas marcas do tempo que eles carregam, os nossos avós carregam nos seus ombros um pedaço de vida mais pesado do que todos nós (aquela cena das doenças e das dores, dor aqui, dor ali), e mesmo assim, quando precisamos, ainda arranjam força para nos ajudar a carregar o nosso.

Viva os avós e sorte de quem tem a felicidade de os ter.

Benedita Mendonça

Benedita Mendonça

ADOLESCÊNCIA

O meu nome é Benedita Mendonça e tenho 18 anos. Frequento o 12º Ano no curso de Humanidades. Já fui jogadora de ténis...agora sou só preguiçosa. Sofro de um vício incurável por Coca-Cola, o que provavelmente me ajuda a perder horas de sono a ler ou a escrever. Dá-me jeito tornar essas horas em algo mais do que perdidas e é por isso que quero partilhar toda a vasta experiência que esta minha idade me oferece sobre a adolescência.