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Televisão no quarto? Não, obrigado!

Bolsa de Especialistas

Hugo Rodrigues

Quando eu era adolescente, era um luxo ter televisão no quarto, mas rapidamente isso se alterou e hoje é extremamente frequente ver casas com 3 ou 4 televisões espalhadas por todas as divisões possíveis e imaginárias. Mas será essa uma boa opção?

Como é óbvio, não existe uma resposta linear a esta questão, pois é uma decisão muito subjectiva da parte de cada pessoa. No entanto, faz sentido pensar nalgumas consequências que podem advir dessa escolha, pois só com a informação toda é que se pode decidir de forma adequada.

1 – Interfere com o sono

Os maus hábitos de sono são um problema transversal a todas as idades e não há dúvida que a presença permanente dos ditos “ecrãs” (televisão, tablet, telemóvel, computador) nas nossas rotinas é um factor claramente perturbador. Está hoje em dia bem estabelecido que as luzes deles provenientes interferem com a quantidade e a qualidade do sono, pelo que acaba por ser um contra-senso adormecer a ver televisão. Eu sei que é confortável (e até agradável), mas com o passar do tempo acaba por se tornar um mau hábito, que faz com que o sono não seja tão reparador como deve, e isso vai ter repercussões na disponibilidade mental e física ao longo dos dias. Para além disso, pode ainda tornar-se uma rotina que tem que estar sempre presente, havendo muitos casos de crianças que já só conseguem adormecer a ver televisão.

Este problema constata-se desde o nascimento dos bebés, que na maior parte das vezes adormecem no quarto dos pais com a televisão destes ligada. Embora muitas vezes esteja sem som, os flashes luminosos estão sempre presentes e a interferência com o sono acaba por se tornar uma realidade desde muito cedo e, posteriormente, ao longo da vida.

2 – É um hábito pouco social

Por estranho que possa parecer, ver televisão deve ser um acto social, ou seja, deve ser algo para desfrutar em família. Nem sempre é fácil, porque a diversidade de canais é muito grande, mas é importante partilhar o mesmo espaço, as experiências, as interesses e, claro, haver cedências de todas as partes em relação ao que se vai ver em cada altura. São regras básicas de convivência que devem ser aprendidas precocemente.

Quando existem muitas televisões numa casa, o que acontece é que na altura em que toda a gente tem alguma disponibilidade de tempo para poderem estar juntos, vai cada um para o seu lado, porque a mãe vai para o quarto ver uma coisa, o pai fica na sala a a ver outra e os filhos vão para os respectivos quartos ver outras. Os seres humanos são seres sociais e as crianças precisam de sentir isso desde sempre. Se não for assim, na adolescência é um hábito que se torna praticamente impossível de resolver.

3 – Retira algum controlo aos pais

A televisão tem uma capacidade praticamente interminável de entretenimento, dada a enorme quantidade de canais disponíveis hoje em dia na maior parte das casas. No entanto, essa diversidade traz consigo um grande problema, que é a menor capacidade de controlo dos conteúdos. Todas as crianças e adolescentes têm um acesso muito fácil a conteúdos que não são adequados às suas idades e, se não houver limites impostos pelos pais, rapidamente estes vão passar a integrar o seu dia-a-dia. Se a televisão estiver num lugar comum da casa (sala, por exemplo), o controlo é permanente, pois tem sempre algum adulto que pode supervisionar, mas se uma criança ou adolescente for para o seu quarto para ver o que gosta, isso já não se verifica. É preciso não esquecer que a televisão é um modelador de comportamentos, pelo que é fundamental uma escolha adequado do que é ou não permitido uma criança ver (sabendo de antemão que, mais cedo ou mais tarde, elas vão tentar ver o que é proibido...).

Por fim, em jeito de conclusão, não podia deixar de falar da forma como todos nós, adultos, somos exemplos para as nossas crianças. Assim, faz sentido que todos os pais tomem consciência desse aspecto quando decidem ter uma televisão no quarto deles, porque acaba por ser inevitável que isso faça com que os seus filhos também queiram uma televisão no seu quarto. Eu sei que é possível resistir a essa “pressão”, mas também sei que não é fácil, pelo que é capaz de ser preferível pensar nisso antes de acontecer. As regras em casa são sempre ditadas pelos pais, mesmo que por vezes não sejam as mais acetadas, portanto a ideia é só uma: seja um bom exemplo, porque os seus filhos vão ser iguais a si!

Hugo Rodrigues

Hugo Rodrigues

PEDIATRIA

Hugo Rodrigues é pediatra no hospital de Viana do Castelo e docente na Escola Superior de Tecnologias da Saúde do Porto e na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho. Pai (muito) orgulhoso de 2 filhos, é também autor do blogue "Pediatria para Todos" e do livro "Pediatra para todos"