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Dois ingredientes eróticos top

Há dois ingredientes muito poderosos para o erotismo, igualmente em homens e mulheres. A sua eficácia vai muito além das ostras, do ginseng ou de qualquer outro alimento que lhe caia no prato. Saiba quais são

Há centenas de anos e em quase todas as culturas, que se defendem produtos naturais como tendo propriedades "mágicas" capazes de resgatar o desejo e o interesse no sexo. Muitos animais têm sido sacrificados em prol deste bem precioso que é o desejo e a "potência” sexual. Com efeitos misteriosos transmitidos de geração em geração, desde os dentes de rinoceronte aos testículos de animais, passando por uma variedade de raízes e tubérculos, para chegar por exemplo ao comum chocolate, pela existência de feniletilamina na sua composição e ao vinho, seguramente pelo seu efeito desinibidor (em pequenas quantidades, bem entendido).

Abundam nas revistas dos quiosques sugestões para apimentar as relações, e conselhos sobre como manter a chama acesa. Já sabemos muito e com uma base científica sobre os factores que podem perturbar o desejo sexual. O que não sabemos tão bem, é o que mantem o erotismo e o desejo intacto numa relação de longa duração. Nos primeiros tempos corre tudo às mil maravilhas. Durante esse período de paixão ao rubro, o sexo é da cor do fogo, e temos a certeza que vai ser assim para sempre, parece-nos mesmo que esse fogo é inesgotável, e sentimos vontade de derreter na pele do outro.

Mas passado algum tempo, com um maior conhecimento da outra pessoa e a convivência que o quotidiano traz, começamos a observar pequenas coisas que desgostamos. Algumas daquelas que até gostámos e achámos muita graça no início, começam agora a irritar-nos gradualmente. Instalados na relação, a rotina bate à porta. O tempo vai passando e de repente alguém diz “qualquer coisa mudou”, “já não é como dantes”. Pois não, o vermelho vivo perdeu intensidade e transformou-se num laranja pastel. O sexo assumiu uns tons mais suaves e Outonais, o que não é necessariamente mau, mas alguns casais assustam-se com isto. Há mesmo quem se questione sobre os sentimentos para com o parceiro, “Será que já não gosto dele?”. E é aqui que entram em cena os dentes de rinoceronte, o ginseng ou a malagueta. Neste momento impõe-se uma nova tarefa ao casal. Salvar o erotismo entretanto ameaçado pela rotina do quotidiano e outros factores predadores do desejo. Aquilo que antes acendia facilmente o rastilho, agora já não é suficiente. São precisos estímulos novos.

Ao longo dos anos tenho ouvido homens e mulheres falarem sobre o que têm dentro dos seus baús eróticos, esse património valioso que se vai arrecadando ao longo da vida. E encontro em quase todos dois ingredientes muito poderosos para o erotismo, igualmente em homens e mulheres. A sua eficácia vai muito além das ostras, do ginseng ou de qualquer outro alimento que lhe caia no prato. Até porque o desejo sexual é multifacetado, tanto para se atear como para se extinguir.

A Novidade

Estamos fartos de saber que a rotina pode ser um pesadelo para o interesse sexual.

Sabemos que o quotidiano carregado de tarefas é o grande inimigo do bom sexo. A repetição do já sobejamente conhecido não acrescenta nada, e pode mesmo ser bastante irritante, do tipo “outra vez o mesmo”, “de novo isto”, “pois… já sei como vai ser”. É sobretudo assim nas relações mais longas e as mulheres são as mais queixosas.

Vários estudos já mostraram que o desejo sexual feminino é menos resiliente que o masculino. Um dos ingredientes de luxo do erotismo é a novidade. Estímulos novos, ou maneiras diferentes de fazer o mesmo. Liberta-se dopamina em resposta à novidade. A dopamina é um neurotransmissor com várias funções, dá uma sensação de bem-estar e prazer. Criatividade precisa-se! A surpresa, o ser surpreendido, sair da rotina ou haver algo inesperado dentro da rotina normal, o desconhecido, o inesperado, e o imprevisível funcionam lindamente para acender o rastilho. Já dizia o grande poeta Garcia Lorca, “Solo el misterio nos hace vivir, solo el misterio”.

A Transgressão

Sempre ouvimos dizer que o fruto proibido é o mais apetecido. Quando assinalo a transgressão como um ingrediente erótico relevante, não estou a referir-me a procurar uma terceira pessoa, ou outras situações que não sejam consensuais e aceites por ambos no casal. Refiro-me a pequenos comportamentos transgressores, ao atrevimento, quebrar regras, ao que não é suposto ou esperado, coisas proibidas. A transgressão pode assumir múltiplas formas. O atrevimento em oposição ao previsível, uma certa desobediência e rebeldia em oposição à rotina, o "não ser certinho", ser fora da caixa, criativo e transgressor.

Não vou dar exemplos, não há prescrições nem receitas. A imaginação é outro ingrediente erótico fundamental, e é inesgotável.

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, professora e investigadora no ISPA. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997 como psicoterapeuta. É membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta, é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar.