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Paulo Mendes Pinto

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CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

Wind of Change, ou a Europa vista pelo saudosismo dos Scorpions

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Mais do que perguntar como vamos sair da crise, interessa perguntar para onde vamos sair.

Com a faixa Wind of Change, do album significativamente nomeado como Crazy World, de 1990, os Scorpions olhavam, como a Alemanha sempre tem feito, para leste, e davam graças pelo fim da hegemonia soviética, como se os tempos de mudança avançassem para um “Fim da História”, parafraseando Fukuyama.

E avançavam, sim. Por essa mesma altura, descobri Cioran o seu Histoire et utopie, um filósofo infelizmente pouco lido por estas praias atlânticas. Nessa minha leitura de pós-queda do Muro de Berlim, o sentido desse texto era quase profético ou, até, escatológico: depois de dividido o mundo em dois blocos, depois de criada essa cisão tão forte que dividira a Europa e o mundo durante décadas, deixara-se de ter a capacidade para criar utopias.

E hoje, cinquenta anos depois de Cioran, bem mais de vinte depois dos Scorpions, que Europa temos? A Europa, com a EU à cabeça, não consegue perceber o sentido do novo "wind of chang", nem sabe como encontrar medidas que estejam para além de um pseudo-pragmatismo imediato. O ocidente perdeu a capacidade de pensar um futuro diferente do que tem, o que se verifica cada vez mais na incapacidade de criar soluções ao tecnocratismo estabelecido.

Com o fim da Guerra Fria, uma das verdades feitas pelo senso comum ia no sentido de um desarmamento global. Os inimigos deixariam de o ser. A corrida ao armamento já não tinha o sentido “patrioteiro” de outros tempos. Mas nada disso aconteceu.

Depois da afirmação de poder na Ucrânia, com o prolongamento no protagonismo na Síria, a Rússia cria um novo conceito militar onde regressa a todos os fantasmas de antigamente. Convenhamos, muitos desses fantasmas estão já ser plenamente fundamentados por acções altamente irreflectidas por parte da NATO.

Que queremos nós, cada um dos cidadãos europeus, o que quer a Europa? Mais do que perguntar como vamos sair da crise, interessa perguntar para onde vamos sair. De facto, aa que chamamos crise é apenas o resultado de uma entediante e sustentada falta de visão e de estratégia. Estasiados no barulho das luzes de cada momento, esquecemos de olhar para o futuro, arriscando repetir o pior do passado.

Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

Coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions. É especializado em História das Religiões Antigas (mitologia e literaturas comparadas), mas dedica parte dos seus trabalhos a questões relacionadas com a relação entre o Estado e as religiões. Na área da Ciência das Religiões, é o responsável por diversos projectos de investigação, especialmente na relação entre as Religiões e a escola, assim como no desenvolvimento de uma cultura sobre as religiões como componente de cidadania. É ainda investigador da Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste» da Universidade de Lisboa. É Membro do Conselho Consultivo da Associação de Professores de História. É director da Revista Lusófona de Ciência das Religiões. Recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Académico da Un. Lusófona em 2013.