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A importância de brincar na rua

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Existem muitos estudos e experiências que sublinham a importância do brincar e andar na rua, situação que tem vindo a desaparecer da vida de muitas crianças e adolescentes

Por estranho que possa parecer, estamos entrar no período do ano com tempo mais agreste, é intencional a escolha do tema para a nossa conversa de hoje, brincar na rua, as actividades ao ar livre, memórias que muitos de nós recordamos como quotidiano de infância e adolescência. É verdade, dantes brincávamos na rua, aliás, dantes brincávamos.

É certo que as questões da segurança e, sobretudo, dos estilos de vida incluindo a prolongadíssima estadia dos de crianças e adolescentes na escola bem como a mudança verificada nos valores e nos equipamentos, brinquedos e actividades dos miúdos, o brincar na rua começa a ser raro.

Existem muitos estudos e experiências que sublinham a importância do brincar e andar na rua, situação que tem vindo a desaparecer da vida de muitas crianças e adolescentes.

Embora consciente das questões já referidas creio que seria possível e desejável que de forma ajustada às circunstâncias de vida se devolvesse aos miúdos o andar e brincar na rua.

Poderia se com a supervisão orientada de seniores com tempo livre e vontade de serem úteis, mas talvez muitas famílias, se assim o decidissem, conseguissem alguma disponibilidade para ter as crianças por algum tempo fora das paredes de uma casa, escola, centro comercial, automóvel ou ecrã. Num parque grande, bonito, bem arranjado e cuidado, existente na zona onde vivo e frequento com alguma regularidade não encontro o número de crianças e adolescentes de que gostaria. Em contrapartida, a grande superfície comercial que está a poucas centenas de metros está sempre com imensas famílias com crianças pequenas mesmo a horas menos aconselhadas.

Voltando à sempre presente questão do risco e da segurança, o grande inibidor do voltar à rua, julgo interessante a posição da Society for the Prevention of Accidents (RoSPA) de Inglaterra. Refere a existência de uma preocupação muitas vezes excessiva e asfixiante com a segurança e riscos na vida dos miúdos que, por vezes, é excessivamente zelosa inibindo experiências e actividades contributivas para a capacidade de gestão de limites e riscos e para o aumento da autonomia dos miúdos, factor nuclear no seu desenvolvimento e educação.

Segundo a associação britânica as actividades disponibilizadas aos mais novos “devem ser tão seguras quanto necessário e não tão seguras quanto possível”. Refere ainda que a esfoladela ou o arranhão resultantes do jogo não têm que ser entendidas como experiências negativas, pelo contrário, ajudarão os miúdos a conhecerem riscos, limites e estratégias de protecção e superação de dificuldades ou incidentes.

A nossa vida desenrola-se à luz de uma quase paranóia securitária, que se pode entender mas não tem que se aceitar, que nos obriga a buscar o risco zero da gaiola dourada.

Creio ser muito importante que pais e educadores assumam uma atitude mais flexível e aberta e, sobretudo, que o façam com a convicção de que continuam a zelar pela segurança dos mais pequenos.

No imperdível “O MUNDO, o mundo é a rua da tua infância”, Juan José Millás recorda-nos como a rua, a nossa rua, foi o princípio do nosso mundo e nos marca. Quantas histórias e experiências muitos de nós carregam vindas do brincar e andar na rua e que contribuíram de formas diferentes para aquilo que somos e de que gostamos.

Como tantas vezes tenho escrito e afirmado, já o referi acima, o eixo central da acção educativa, escolar ou familiar, é a autonomia, a capacidade e a competência para “tomar conta de si” como fala Almada Negreiros. A rua, a abertura, o espaço, o risco (controlado obviamente), os desafios, os limites, as experiências, são ferramentas fortíssimas de desenvolvimento e promoção dessa autonomia.

Curiosamente, considerando as nossas condições climatéricas, Portugal é um dos países com valores mais baixos no tempo dedicado a actividades de ar livre. Esta situação tem comprovadamente implicações menos positivas em várias dimensões da qualidade de vida de adultos e crianças. Por isso a minha decisão de nesta altura do ano falar de questões desta natureza.

Talvez, devagarinho e com os riscos controlados, valesse a pena trazer os miúdos para a rua, mesmo que por pouco tempo e não todos os dias. Um tombo ali, uma ferida no joelho acolá, a camisola que se rasgou de um puxão no meio do jogo, as calças sujas da lama que estava no parque, não são riscos, são experiências contributivas para o desenvolvimento.

Eles iriam gostar e far-lhes-ia bem.

Deixem-nos ser miúdos.

José Morgado

José Morgado

EDUCAÇÃO

Doutorado em Estudos da Criança. Professor no Departamento de Psicologia da Educação do ISPA - Instituto Universitário. Membro do Centro de Investigação em Educação do ISPA - Instituto Universitário. Colaborador e consultor regular de Programas de Formação de Professores e de Projectos de Investigação e Intervenção. Colaborador regular em Programas de Orientação Educativa para Pais. Autor de diversas publicações nas áreas da qualidade e educação inclusiva, diferenciação pedagógica, etc.

Blogue – http://atentainquietude.blogspot.com