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Relação ou “tábua de salvação”?

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Porque razão algumas pessoas vivem a sua vida como uma “tempestade no mar” e sentem a constante necessidade que um outro lhes “atire” uma “boia” e as “salve”?

Uma relação é uma relação. Uma tábua é uma tábua. Será que o nosso companheiro para além de companheiro também tem de ser “nadador-salvador” a todo o instante?

Porque não aprendemos a “nadar” para não precisarmos de “tábuas de salvação” e de ser “salvos” a cada momento?

Sentirmos que alguém nos “salva”, numa ou noutra situação mais complicada, é natural e acontece esporádicamente.

Mas, sentirmos que uma relação, qualquer que ela seja, é a nossa “tábua de salvação”, é tudo menos natural e nada saudável. Muito pelo contrário, pode ser revelador de dependência emocional em relação ao outro e significar a aceitação de “amores” e “quereres” menos bons, para não dizer máus de todo.

Pode ainda facilitar cedência de poder e permissão de influência desmedida, ainda que altamente nociva.

Escrevo sobre este tema, porque cada vez mais chegam até mim pessoas que experienciam um sofrimento e dor imensas por fazerem depender a sua vida de uma qualquer “tábua”, não de “salvação”, mas de “tortura”, mais ou menos consciente consoante os casos.

Porque podemos pensar que a nossa sua vida depende de outro? Das decisões do outro? Da boa vontade do outro? Do que o outro pensa? Do que o outro faz? Da boa disposição do outro? Do querer ou não querer do outro? Do afecto, do amor, da amizade, da confiança, da simpatia… do outro?

Porque precisamos que seja um outro a traçar o nosso rumo, a desenhar o nosso caminho, a pensar por nós, a substituir-nos naquilo que não acreditamos conseguir fazer sem termos ainda tentado?

Todos nós precisamos uns dos outros. Nas relações do nosso dia a dia precisamos uns dos outros. Sim, é verdade. Mas essa é uma dependência a que todos nós, de uma forma ou de outra, estamos vinculados.

A dependência que falo aqui é de dependência emocional nas relações amorosas.

Apenas enquanto somos bébés e crianças somos seres totalmente dependentes. Um bébé precisa do olhar da mãe, do toque da mãe, da sintonia da mãe para com as suas necessidades, da empatia maternal, das palavras da mãe, da tranquilidade da mãe. Mas, não só da mãe. Também a referência pai tem uma importância crucial no desenvolvimento de uma criança, e especialmente na sua autonomia e independência.

Durante o longo processo da adolescência enquanto se forma a personalidade, é pressuposto que os laços de afecto entre pais e filhos se reforcem, mas ao mesmo tempo, é também vital o estímulo á autonomia e independência do adolescente, com o fornecimento por parte dos pais de um conjunto de instrumentos que potenciem essa mesma autonomia. Os referidos comportamentos fazem parte de um quadro de desenvolvimento integrado que se postula como adequado e propiciador ao equilibrio emocional e psicológico.

Então, porque razão, algumas pessoas sentem que precisam de “tábuas”, “boias”, “barcos de salvação” a cada instante das suas vidas?

Porque razão sentem tanta dificuldade em pensar a sua vida sem essas “coisas”personificadas, e quando tentam visualizá-la, estremecem de medo?

A primeira pergunta que sugiro que se façam é:

Porque necessita que alguém o salve?

Porque pensa que não consegue cuidar bem de si?

Porque faz depender a sua vida, o seu bem estar, a sua felicidade, dos cuidados de um outro?

Lembra-se de ter sentido essa mesma necessidade quando ainda criança?

São muitas as razões que podem estar por detrás da necessidade de fazer depender a sua vida enquanto adulto, de um outro adulto.

Tendo por base uma influência psicanalitica, alguns autores referem poder tratar-se de uma falha no desenvolvimento que pode ter ocorrido durante os primeiros anos de vida, no sentido da não promoção da autonomia e independência. Assim, durante a vida adulta, a necessidade de depender de um terceiro pode ser constante e potenciar pensamentos e comportamentos de dependência excessiva do outro.

No entanto, a dependência também pode ser ocasionada por ter experienciado uma ou várias situações difíceis, e um outro o ter ajudado de alguma forma a ultrapassar essa mesma situação. Um sentimento de reconhecimento/agradecimento pode fazer surgir igualmente uma necessidade de dependência do outro para a resolução de situações futuras, não considerando as suas próprias capacidades para a resolução das mesmas.

Também pode acontecer ser o próprio a projectar no outro essa mesma necessidade, procurando relações com pessoas emocional e psicologicamente mais fragilizadas e colocando-se numa posição de “tábua de salvação” relativamente a estes, manipulando-os no sentido de precisar da sua ajuda para sobreviver, cuidando de si através do outro. Neste caso, ao afirmar que o outro é a sua “tábua de salvação”, apenas está a reconhecer a sua necessidade de manter essa relação e o outro na sua dependência, pois é apenas na relação de ajuda que encontra validação.

Uma auto-estima e auto-confiança fragilizadas podem igualmente fazer com que se procurem companheiros e namorados que sejam verdadeiros “balões protectores”, e na sua ausência, ou suposta ausência, surgirem sentimentos como o desamparo, o desconforto, a ansiedade, o medo de abandono, e especialmente a angústia de separação.

De igual forma, pessoas que apresentam tendência a aceitação de demostrações de afecto muito pobres e com grande dificuldade na expressão das suas necessidades emocionais e afirmação do que sentem, tendem a aceitar e viver relações em que o outro desempenha o papel de “salvador”, embora a sua voz interior lhes diga repetidamente que algo de errado está a acontecer e se sintam em constante perigo.

Estes são apenas alguns dos exemplos do que pode estar por detrás de pensamentos e afirmações como: “não consigo viver sem ele”, “não vejo a minha vida sem ela”, “ele é tudo para mim”, “não existo sem ela”, tantas e tantas vezes induzidos pelas mais variadas crenças e mitos, medos e receios, e potenciados pela indústria cinematográfica, telenovelas, romances, músicas, revistas cor-de-rosa…

E pergunto, uma vez mais: de onde vem a ideia de que os outros são mais capazes, mais seguros, mais inteligentes,mais fortes do que você próprio?

De onde vem a ilusória ou fantasiosa sensação de apoio, segurança e protecção quando se sente sozinho há tanto tempo, quando essa não é a relação que quer para si, quando nada faz sentido, quando não sente ter o controlo da sua vida nas suas mãos, quando deixou de sorrir, quando deixou de dormir, quando, quando, quando…

Uma relação de Amor não precisa de “tábuas”, nem de alguém que o salve a toda a hora. Se assim for, não vai ter ao seu lado um companheiro, mas um médico, um bombeiro, ou um enfermeiro. Então, o melhor que tem a fazer é ir para as urgências ou para o quartel de bombeiros, sentar-se lá numa cadeirinha e esperar…

Acredite que se vai sentir muito mais tranquilo se o fizer, porque ao menos lá, terá paz, a paz que jamais vai encontrar numa relação de dependência em que está sempre á espera do outro, que o outro esteja disponível para si, que cuide de si, que faça o que quer e que “seja” por você.

E, para além do “preço” demasiado elevado que vai ter que pagar por essa “tábua”, estará a abrir mão de um algo tão valioso quanto precioso: estará a prescindir de ser quem é, de acreditar que consegue, e especialmente, de aceitar o fantástico desafio que é confiar em si enquanto ser humano e de se responsabilizar pelas suas decisões, pelas certas e também pelas menos certas, de aprender, de crescer e de amadurer.

Quando numa relação o mais importante é que o outro esteja lá, independentemente do quão gratificante esta seja, e do sentido da mesma;

Quando existem cedências, sacrificios, negação, submissão, anulação,necessidades esquecidas…e tudo ou quase tudo, justifica a garantia de que não se é abandonado, nem se está só no mundo,

se isso acontece,

fique atento porque aquilo que parece ser uma “tábua de salvação”, pode transformar-se na “cela de uma prisão”!

Escolher não ver o céu azul, o Sol, as estrelas, a Lua… escolher deixar de ser, de sentir, de decidir… e colocar a sua vida, assim, em cima de uma “tábua” á espera que alguém o salve, pode significar deixar de viver.

No meu último livro “Pessoas que nos fazem felizes”, escrevi a este propósito:

“Você não precisa da protecção, segurança, cuidado, ou que alguém tome conta de si, e muito menos de quem demonstra não lhe querer bem, nem gosta de si. Até porque, ninguém o pode fazer melhor que você próprio.

Você precisa não de uma “tábua” mas de sentir que é amado e que gostam de si. Apenas isso! Quer maior contradição do que ter ao seu lado uma pessoa que não lhe faz bem algum, e acreditar que ela pode protegê-lo e dar-lhe segurança?

Se não é uma contracesso é um enorme equívoco.

Todos esses sentimentos você tem de encontrar dentro de si, sob pena de ter durante o resto da vida relações não de amor, mas de mera dependência, seja ela qual for, e de não viver a vida no seu esplendor.”

Para pensar…

Margarida Vieitez

Margarida Vieitez

RELAÇÕES

Margarida Vieitez é especialista em mediação familiar, de conflitos e aconselhamento conjugal, e dedica-se há mais de 20 anos ao estudo e acompanhamento de conflitos de diversa ordem, nomeadamente, familiares, conjugais e divórcio. Detentora de seis pós graduações, entre as quais, em Mediação Familiar pela Universidade de Sevilha, em Mediação de Conflitos e, em Saúde Mental, ministrou vários cursos de Mediação Familiar no Instituto de Psicologia Aplicada, estando frequentemente presente em conferências e seminários. Autora de vários livros, dentro os quais, "O melhor da vida começa aos 40", "Sos Manipuladores" e "Pessoas que nos fazem Felizes" .