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O que é que sustenta o desejo numa relação de longa duração?

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É preciso combustível para manter a chama. E o combustível é o erotismo. O pilar de sustentação do desejo é o erotismo que se consegue ou não ir construindo na relação

É a primeira vez na história da humanidade que a vivência da sexualidade numa relação de longa duração, não é para termos 5 ou 10 filhos, nem para ser uma obrigação marital da mulher. É a primeira vez que queremos sexo por prazer, ao longo de todo o tempo dessa relação. Até há poucas dezenas de anos não era assim. Mas agora é, queremos sexo pelo prazer e conexão com o outro, que está enraizado no desejo. Mas e quanto tempo é que esse desejo resiste? O que é que sustenta e mantém esse desejo ao longo do tempo e porque é que isso é tão difícil? Esta é a pergunta de 1 milhão de dólares. Como manter o desejo intacto pelo mesmo parceiro numa relação de longa duração?

Uma conhecida psicoterapeuta chamada Esther Perel defende que o segredo é conseguir a reconciliação entre o doméstico e o erótico. A solução para essa dificuldade é ser capaz de conciliar duas necessidades contrárias. Por um lado, a necessidade de segurança, previsibilidade, fidelidade, estabilidade, permanência. Ou seja, um lar familiar, um ninho seguro. Mas ao mesmo tempo, também temos uma forte necessidade de novidade, surpresa, aventura, atracção pelo risco. A reconciliação dessa necessidade de aventura e de segurança, numa única relação em contexto conjugal, pode ser um enorme desafio. O casamento foi até há pouco tempo uma instituição económica na qual se tinha um parceiro para a vida em termos de estatuto social, economia e filhos. Mas agora, queremos que o nosso parceiro nos dê tudo isto e ainda muito mais. Queremos que seja o melhor amante, o melhor amigo, o nosso confidente, a nossa paixão. Encantamo-nos por uma pessoa, e pedimos-lhe que nos dê resposta a todas essas necessidades. Dá-me pertença, mas deixa-me livre, dá-me segurança, mas dá-me aventura, dá-me familiaridade mas surpreende-me, dá-me estabilidade e continuidade, mas dá-me transcendência. Ou seja, queremos tudo, ou não fosse o ser humano feito de polaridades. E a acrescer a tudo isto, ainda esperamos que essa pessoa goste do que nós gostamos, que satisfaça as nossas necessidades, e nos acompanhe nas coisas que gostamos de fazer, quer em termos sociais, culturais, amorosos e sexuais. Esperamos basicamente que “encaixe” em nós e no nosso ritmo. Mas nunca é assim. É impossível ser assim, porque as pessoas trazem backgrounds diferentes. Quando duas pessoas se juntam vêm com histórias de vida e experiências muito diversas. Há sempre uma ponte para cruzar, ao encontro do outro. Há um investimento a fazer, sem se esperar que a outra pessoa nos dê tudo, que dela advenha tudo o que precisamos. Como dizem os ingleses, meet me halfway.

O desejo sexual é frágil. A ciência já descortinou o que perturba o desejo numa relação de longa duração. Vários estudos já demonstraram o impacto negativo da duração da relação no desejo sexual, sobretudo no das mulheres. Ou seja, quando corre mal, sabemos porque é que correu mal. O que ainda não é bem conhecido, é quando corre bem, o que é que fez com que corresse bem. Quando o desejo resiste a muitos anos de conjugalidade, quais foram os factores que explicam esse facto? Esta é uma questão a que a investigação ainda não respondeu. Ressalvo que não estamos a falar do que faz com que uma relação seja boa e perdure com satisfação para ambos durante muito tempo. Estamos a questionar apenas sobre o que sustenta o desejo sexual num contexto conjugal ao longo do tempo.

Perante a escassez de dados empíricos e resultados científicos, resta-nos especular com base na observação clínica. Muitas vezes os casais acomodam-se no conforto do amor, ou da intimidade, ou do companheirismo, ou de um quotidiano funcional, ou do que quer que seja, e esquecem-se de reavivar a chama do desejo. É preciso combustível para manter essa chama. E o combustível é o erotismo. O pilar de sustentação do desejo é o erotismo que se consegue ou não ir construindo na relação. Construir o erotismo significa acumular vivências sexuais positivas e satisfatórias com aquela pessoa que um dia escolhemos. Um património erótico que vai sendo arrecadado ao longo da relação e da sua história. Um património que resulta de um investimento na sexualidade, de uma valorização do prazer na relação, de um acumular de experiências que não foram deixadas ao acaso, muito pelo contrário, que foram investidas e valorizadas. Esta atitude não é facilmente acessível porque não somos socializados para valorizar o prazer sexual. Um património erótico que resiste ao impacto e desgaste da vida conjugal. Como diz Esther Perel, é preciso reconciliar o erótico e o doméstico (que é anti-erótico, porque é familiar, sobejamente conhecido, sem nada de novo, não surpreende nem transcende).

Há uma tendência para se querer fazer tudo com a outra pessoa. Que ela seja capaz de nutrir todas as necessidades, suprir todas as faltas, e que esteja sempre por perto, num contacto próximo. Nalguns casais observamos uma proximidade tão grande que acabam por emaranhar-se um no outro numa relação que chamamos de fusional. Numa relação deste tipo, o desejo não tem qualquer hipótese de sobrevivência. Porque não tem espaço. O desejo precisa de espaço e de alguma distância. Se há uma fusão dos dois, o desejo não respira. É por isso que o desejo aumenta quando as pessoas ficam separadas por alguma razão, durante curtos períodos de tempo (ou longos). Também sentimos mais desejo quando a outra pessoa está separada de nós e envolvida noutras actividades. O desejo precisa de espaço, como o fogo precisa de ar.

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, professora e investigadora no ISPA. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997 como psicoterapeuta. É membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta, é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar.