Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Oito razões para vacinar o seu cão ou gato

Bolsa de Especialistas

Célia Palma

  • 333

É importante compreender a necessidade de imunizar o companheiro de 4 patas contra as doenças mais perigosas

Os seres vivos são organismos complexos, capazes de se defender da invasão de vírus, bactérias ou parasitas, que podem causar doenças. A sua sobrevivência depende desta mesma capacidade, sem a qual e morte ocorreria à primeira infeção e à qual chamamos imunidade. Corresponde a um sistema de estruturas e processos biológicos que detetam uma imensa variedade de agentes invasores, capazes de causar doença. Estes agentes evoluem rapidamente e adaptam-se de maneira a evitarem a neutralização pelo sistema imunitário. Este tem, portanto, que evoluir também, para conseguir reconhecer estes mesmo agentes. Os seres mais complexos, como o cão, o gato, tal como o Homem, possuem mecanismos de defesa eficazes que reconhecem de forma eficiente invasores. Através da imunidade adquirida o organismo cria memória defensiva, na sequência de uma resposta inicial a um invasor especifico. Estará assim possibilitado de responder de forma mais eficiente, aquando de um novo ataque pelo mesmo agente. Este processo de imunidade adquirida é a base da vacinação.

A descoberta e aperfeiçoamento da vacinação correspondeu a um enorme passo para a humanidade, a par, talvez, da descoberta da penicilina. Muitas doenças que dizimavam populações foram erradicadas do planeta, outras não foram extintas mas estão controladas.

A extensão da vacinação aos animais começou por ser uma questão de saúde pública, uma vez que havia doenças graves que eram contagiosas para o Homem. Assim a sua imunização evitava que contraíssem a doença e a transmitissem aos humanos, com os quais conviviam. Entre estas doenças encontra-se a mais conhecida e mundialmente difundida: a Raiva. A sua gravidade é tal que obrigou à tomada de medidas de vacinação obrigatória dos animais domésticos. Esta medida compulsiva levou à quase erradicação da doença e os casos conhecidos são poucos, hoje em dia, encontrando-se praticamente circunscrita aos países subdesenvolvidos.

Com a introdução do conceito de família multi-espécie, os animais, sobretudo cão e gato, passam a fazer parte da família sendo-lhe facultado cuidados de saúde curativos mas também preventivos. A vacinação para as principais doenças da espécie tornou-se uma rotina na tutela responsável.

Mas então o que são as vacinas? São substâncias derivadas ou quimicamente semelhantes a um agente infecioso, causador de doença. Estas substâncias são voluntariamente inoculadas e ao serem confrontadas com o sistema imunitário, este aprende a reconhecê-las e a combate-las durante a infeção. Há sobretudo 3 tipo de vacinas:

- as vivas, atenuadas, em que o agente patogénico foi enfraquecido por processos biológicos controlados, continuando a ter capacidade para desencadear resposta imunitária, sem conseguir causar doença. No entanto, podem desencadear sintomas transitórios, em indivíduos com menor resposta imunitária.

- as mortas, inativadas, em que o agente patogénicos é morto ou inativado através de um tratamento químico ou pelo calor. Estas são mais seguras, por não possuírem qualquer poder infecioso, mas não causam uma tão boa resposta imunitária, necessitando sempre de reforços a intervalos regulares.

- as sub-unitárias, que contêm frações ou sub-unidades do agente infecioso, selecionado devido à sua capacidade para iniciar uma resposta imunitária especifica.

Tendo compreendido agora um pouco daquilo que é uma resposta imunitária e os princípios da vacinação, aqui ficam as principais razões pelas quais devemos vacinar os nossos companheiros de quatro patas:

1- O ser humano, hábil e engenhoso, conseguiu arranjar forma de manipular algo natural, em seu próprio beneficio e em beneficio de outros, uma vez que utilizou todas as potencialidades do sistema imunitário, levando-o a criar defesas especificas para certos agentes patogénicos altamente perigosos, capazes de dizimar populações. Estes mesmos agentes são voluntariamente escolhidos e inoculados, pretendendo proteger o individuo contra uma determinada doença.

2- O sistema imunitário é bastante imaturo logo a seguir ao nascimento, uma vez que o novo ser vivo ainda não contactou com a maior parte dos agentes patogénicos presentes no meio ambiente, no qual irá viver. Ele está lá, pronto para a sua função, mas precisa de ser estimulado para iniciar a produção de anticorpos, ou seja, precisa de contactar com estes mesmos agentes, para criar a tal memória necessária para os reconhecer e neutralizar. No entanto, este contacto poderá ser devastador num jovem ser vivo, que poderá não conseguir defender-se na primeira infeção e a morte ou lesões graves poderão ser o resultado. Não é por acaso que a percentagem de mortes na primeira infância é sempre mais alta do que desejável, apesar de vir a baixar drasticamente como consequência dos avanços médicos e da medicina preventiva.

3- A vantagem da vacinação é exatamente a de possibilitar a resposta imunitária sem ter existido doença e sem os efeitos devastadores da mesma. Se um animal vacinado contactar com o agente patogénicos pela primeira vez, estará já capacitado para reagir e anular os efeitos de tal agente, mesmo não tendo sofrido uma verdadeira infeção.

4- Nos primeiros tempos de vida, a proteção dos bebés é conseguida pelas defesas da mãe, veiculadas pela amamentação. São os anticorpos maternos presentes no leite, tão importantes nesta fase vulnerável. Estes anticorpos são os mesmos que protegem a progenitora, sendo por isso muito importante que esta esteja corretamente imunizada. A proteção materna vai sendo cada vez menos eficaz, até desaparecer completamente, algum tempo depois de terminar a amamentação. A partir deste momento a cria estará por sua conta. Sendo assim, é fácil compreender que esta fase será das mais suscetíveis na vida de um cachorro ou gatinho. Não só ainda não adquiriu uma imunidade competente, como também deixou de ter a proteção que lhe era facultada pela mãe. Esta é a fase em que a vacinação adquire maior importância, devendo ser cuidadosamente adaptada à realidade infeciosa do local onde vive, à idade do animal e ao seu estilo de vida. Por isso, cada vacinação é um ato médico individual e especifico.

5- É importante que o cachorro, como animal social, conviva, desde tenra idade, com toda a realidade que fará parte da sua vida. Assim, se por um lado o devemos proteger de perigosas doenças, por outro devemos providenciar que sociabilize correta e adequadamente para evitar problemas comportamentais graves no futuro, que possam por em risco o seu relacionamento com o ambiente que o rodeia. Um animal confinado à casa, sem lhe ser permitido sair para vivenciar experiências importantes e enriquecedoras, será um animal mal socializado, com medos e fobias a coisas tão banais como um automóvel, outras pessoas, outros cães, outros animais, o camião do lixo, a mota do carteiro, o apito do padeiro, a ambulância! Queremos criar animais equilibrados, bem adaptados à sociedade onde se inserem, bem comportados, companheiros de vida felizes e ativos, versáteis, confiantes, que reagem positivamente a novos estímulos ou motivações. Os problemas comportamentais são eles próprios doenças, que devem igualmente ser prevenidas, a par das tão temidas doenças infeciosas. Aqui reside o grande desafio da vacinação. Conseguir um compromisso entre a necessidade de socializar o animal e a proteção que temos o dever de lhe facultar, para lhe permitir ultrapassar esta fase tão vulnerável, de forma saudável e feliz. Por tudo isto é tão importante que a vacinação seja feita por um veterinário. Aquilo que parece tão simples assume aqui uma importância tal, que só um especialista estará habilitado a executar corretamente. Se adiarmos a socialização do jovem, até à idade em que terá terminado a protocolo vacinal, será demasiado tarde e não mais poderemos voltar atrás, uma vez que esta ocorre em toda a sua intensidade numa fase muito precoce da vida.

6- No caso dos gatos a realidade é um pouco diferente, uma vez que também o é o seu estilo de vida. Na sua maioria são animais que não saem à rua e portanto menos expostos aos perigos do exterior. Mas, mesmos menos expostos, também eles devem ser vacinados e também eles devem socializar precocemente, ou seja, vivenciar cedo, na vida, situações que farão parte do seu dia a dia. Por exemplo: é muito importante que sejam adequadamente manipulados por humanos, especialmente crianças. Gatos que não contactam com pessoas nos primeiros dias de vida, muito mais dificilmente aceitarão um contacto físico descontraído e relaxante para ambas as partes. Também devem experimentar precocemente o convívio com outros animais que poderão fazer parte do ambiente familiar, tais como cães, coelhos, porquinhos da India, ou mesmo animais de quinta. A habituação a rotinas domesticas tem igual importância. Aspirar, lavar, limpar, secar, receber visitas, ver televisão ao ouvir radio, são situações que podem causar desconforto a um gato mal socializado. Sobretudo os sons podem ser assustadores. Mas, no geral esta socialização não o coloca em risco de apanhar doenças infeciosas próprias da espécie, uma vez que o convívio com outros gatos, fora do ambiente familiar, não é habitual, exceto para os que vagueiam livremente nas imediações do local onde vivem. Logicamente que se são gatos de abrigo coletivo, de gatil de criação, ou de casas de acolhimento temporário, o risco será elevado e nestes casos têm que ser tomadas medidas suplementares de proteção e de vacinação adequadamente adaptada a cada caso. Mas sem esquecer a tão importante socialização, uma vez que o objetivo principal destes casos específicos é a adoção simples ou mesmo a compra, para que o animal vá fazer parte de um ambiente familiar, que nunca se sabe se será exclusivamente humano, ou multi-espécie, exclusivamente de apartamento ou com possibilidade de explorar os quintais vizinhos.

7- A imunidade materna, tão importante para a sobrevivência do filho, torna-se um problema quando não reconhece o produto (antigénio) vacinal como algo benéfico e o neutraliza, reduzindo a possibilidade do jovem produzir os anticorpos necessários para se tornar imune. A única forma de conseguir ultrapassar este inconveniente será a revacinação, ou seja, a necessidade de efetuar reforços vacinais a intervalos regulares, durante este período critico. O objetivo será o de conseguir um equilíbrio entre os anticorpos produzidos pela cria e a neutralização produzida pelas defesas da mãe. Se não o vacinamos deixamo-lo indefeso quando a imunidade materna deixa de ser suficiente; se não lhe permitimos usufruir da imunidade materna, não o deixando mamar, poderá morrer antes de ter idade para poder ser vacinado; se o vacinamos enquanto a imunidade materna ainda está ativa, esta neutralizará os anticorpos produzidos; se esperamos até ao desaparecimento da imunização maternal, houve uma fase em que esta já não era suficiente para proteger o jovem, mas ainda tinha capacidade neutralizadora.

8- A vacinação, tão importante, deverá, no entanto, ser a estritamente necessária e suficiente. Dentro do possível deveremos optar por um protocolo que nos garanta a proteção do animal para aquelas doenças a que poderá estar exposto, com o número mínimo, mas eficaz, de inoculações. Não adianta vacinar para além do necessário, ou para doenças que não constituem um risco para a realidade em causa. A decisão sobre que vacinas administrar e com que frequência deve sempre levar em consideração a relação risco/beneficio, uma vez que o ato vacinal não é completamente seguro. Qualquer substância inoculada pode causar problemas alérgicos ou mesmo de reação local, para além do, felizmente raro, choque anafilático (reação alérgica grave que ocorre poucos segundos ou minutos depois do contacto com o alérgeno). Mas, sem dúvida, estas reações ocorrem raramente e não têm expressão suficientemente importante para deixarmos de vacinar. A vacinação não só protege o animal de infeções evitáveis, como controla a expansão de doenças, uma vez que cada animal que não a contrai também não a irá transmitir. Quando se faz vacinação em massa para doenças graves e altamente contagiosas, consegue-se o controle eficaz das mesmas, apesar de não serem vacinados 100% dos suscetíveis.

A jeito de conclusão final, a vacinação envolve decisões bem mais complexas do que aquilo que pode parecer à primeira vista. Confie no seu veterinário assistente. Será a pessoa mais indicada para, de forma ponderada, decidir sobre qual o protocolo vacinal que melhor se adequa ao seu caso especifico. Ambos, tutor e profissional estão empenhados em proporcionar ao animal longos e saudáveis anos de vida.

Até ao próximo mês…

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.