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A inteligência útil do desporto

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Se existe algo de que eu tenho a certeza é que não seria metade da pessoa que sou se não fosse o desporto. Ou então, talvez fosse o dobro da pessoa que sou hoje, gulosa como sou...

Nasci numa família de desportistas e desde sempre me lembro de a minha família ser apologista do desporto desde a infância, muito ciente da sua boa influência e importância durante o nosso crescimento. Quando éramos pequenos, o nosso mundo era uma mistura de raquetes de ténis, tocas de natação, bolas de golfe, ballet para mim e futebol para o meu irmão. Tínhamos uma vida muito ativa, desde manhã até ao fim da tarde. Passávamos uma parte do dia na escola, a aprender e a brincar com os nossos amigos. Quando a escola terminava, seguíamos para uma das nossas atividades desportivas... Também para aprender e brincar com os nossos amigos.

Muitos pais têm medo que um desporto distraia as crianças do que devia ser a sua primeira prioridade: a escola. É a estes pais e a todos os outros que eu quero contar como é que foi crescer com algo mais do que somente uma vida escolar.

Os meus dias eram cheios, movia-me de um sítio para o outro, na minha energia inocente e encontrando sempre liberdade nas coisas que fazia. A semana dividia-se entre as várias modalidades que praticava, embora nunca em excesso. No final do dia, chegava a casa constantemente cansada e pronta para comer um bom jantar. Depois fazia os trabalhos de casa ou estudava, outras vezes via um bocado de televisão. E quando chegava a hora de dormir, estava de pijama na cama e pronta para adormecer.

À medida que fui ficando mais velha, comecei e focar a minha atenção apenas num desporto, o ténis. Mas acho importante salientar que nunca me vou esquecer das experiências e memórias que as outras atividades me trouxeram. A minha infância não seria a mesma sem as lembranças do meu hole in one aos 8 anos (sim, é verdade, fiz um hole in one aos 8 anos) ou do espetáculo de ballet em que me vesti toda de cor-de-rosa e decoraram o meu cabelo com flores. Foram partes importantes da minha vida, que me deixam orgulhosa e feliz.

Ao longo dos anos, a intensidade de trabalho foi aumentando tanto na escola como no ténis. Ao contrário de muitos dos meus colegas, não saía das aulas e ia para casa. O meu tempo livre para estudar era menor. Isto não quer dizer que estudasse menos, ou que tivesse piores notas e não fizesse os trabalhos de casa. Não, o que isto quer dizer é que o meu tempo para isso era menor porque ocupava parte dele a aprender outras coisas, exteriores à escola mas tão ou mais importantes do que as que lá são lecionadas.

Lembro-me que lá em casa, nunca nos deixavam faltar aos treinos por causa dos testes. Matemática e português são matérias importantes e a escola deve ser uma prioridade durante a nossa educação, mas não existe nada melhor do que um desporto para nos ensinar a viver. Lá em casa o desporto era uma disciplina tão importante quanto as outras.

O ténis moldou muito do que sou hoje em dia. Ensinou-me o que é ter responsabilidade e fez-me sofrer as consequências quando não a tive presente. Ensinou-me a competir, oferecendo-me vitórias em troca de esforço e deixando-me para sempre com algo de que me orgulhar. Ensinou-me códigos de conduta, honestidade e fair play. Mas as maiores lições de vida que recebi foi quando o ténis me levou lá abaixo, àquele sítio que não queremos estar e me obrigou a lidar com a derrota e com a frustração e me ensinou a sair de lá e a voltar a subir. É essencial saber lidar com as partes más da vida. O desporto e todas as pessoas que fizeram parte do meu percurso foram os meus professores, os meus treinadores e os meus adversários, principalmente os adversários que me ganharam!

A verdade é que eu sentia que tinha duas vidas, tinha mais amigos, conhecia mais pessoas do que as minhas amigas da escola que não estavam envolvidas em nenhum desporto. Tinha a minha vida da escola e a minha vida do ténis. Por vezes, quando precisava, serviam de refúgio uma da outra. Também tinha os meus amigos da escola e os do ténis. Curiosamente, foram os amigos do ténis que noto serem aqueles que ficaram. Cria-se uma certa cumplicidade difícil de apagar entre duas pessoas, quando a sua amizade se forma entre os fortes enredos do desporto. O meu clube de ténis era a minha segunda casa, não a escola. E tinha também lá a minha segunda família, que suava comigo, chorava comigo e celebrava comigo. Ensinando-me valores de entreajuda, trabalho de equipa e apoio, que as aulas, inevitavelmente individualistas, apenas sonhavam em conseguir educar.

Existiram momentos em que conciliar as duas vidas não foi fácil. Em que depois de um treino duro não tinha forças para me enfiar na secretária a estudar, em que a única coisa que queria era dormir. Mas se existe algo de que eu tenho a certeza, é que não teria vivido metade do que vivi se não fosse o ténis e não seria metade da pessoa que sou se não fosse o desporto na minha vida. Ou então, talvez fosse o dobro da pessoa que sou hoje, gulosa como sou...

Benedita Mendonça

Benedita Mendonça

ADOLESCÊNCIA

O meu nome é Benedita Mendonça e tenho 17 anos. Frequento o 12º Ano no curso de Humanidades. Já fui jogadora de ténis...agora sou só preguiçosa. Sofro de um vício incurável por Coca-Cola, o que provavelmente me ajuda a perder horas de sono a ler ou a escrever. Dá-me jeito tornar essas horas em algo mais do que perdidas e é por isso que quero partilhar toda a vasta experiência que os meus 17 anos me ofereceram sobre a adolescência.