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A saúde dos atletas olímpicos

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Os atletas olímpicos medalhados vivem em média 2,8 anos mais, estão vivos em maior número 30 anos após a sua participação olímpica. Os atletas com menos probabilidade de se lesionarem foram os do tiro ao arco, a canoagem, do ciclismo de pista, do remo, do tiro e dos desportos equestres

Agora que os Jogos Olímpicos já encerraram, poderá ser curioso colocar algumas questões clínicas sobre diversos aspectos da saúde dos atletas.

Foi isso mesmo que foi feito pelo grupo BMJ (British Medical Journal), ao publicar recentemente dois estudos realizados em atletas olímpicos.

O primeiro (BMJ 2012;345:e8308) procurou investigar se os medalhados olímpicos vivem mais tempo do que os seus conterrâneos. Foi um estudo retrospectivo (isto é, olhando para dados existentes sobre cada atleta), incidindo sobre 15.174 atletas dos Estados Unidos, Alemanha, Países Nórdicos, Rússia, Reino Unido, França, Itália, Canadá, Austrália e Nova Zelândia que tinham ganho medalhas nos JO modernos (entre 1896-2010). Os atletas foram comparados com pessoas com as mesmas características demográficas na mesma época, tendo os resultados indicado que os atletas olímpicos medalhados vivem em média 2,8 anos mais, estão vivos em maior número 30 anos após a sua participação olímpica, que este efeito é mais marcado nos desportos de resistência (vs. de potência) e que não se verificaram diferenças entre os atletas em relação às medalhas ganhas (ouro, prata ou bronze).

As explicações mais lógicas para estes dados não são fáceis. Os autores especulam sobre um eventual nível de saúde basal superior nos atletas de alta competição, por questões genéticas. Estas, combinadas com altos níveis de treino, favoreceriam a longevidade aumentada. Outra hipótese seria um melhor estilo de vida global dos atletas de alta competição, mesmo quando já não competem: menos tabagismo, melhor dieta, etc.

O segundo estudo (Br J Sports Med 2013;47:407-414) analisou as lesões desportivas e as doenças dos atletas concorrentes às XXX Olimpíadas em Londres 2012. Durante as duas semanas de provas, os 10.568 atletas presentes (4676 mulheres e 5892 homens) reportaram 1.361 lesões (11% do total) e 758 episódios de doença (7% do total), ou seja, 129 lesões e 72 doenças por 1.000 atletas. As modalidades com mais lesões foram o taekwondo, o futebol, o BMX, o andebol, a bicicleta de montanha, o atletismo, o halterofilismo, o hóquei e o badminton. Os atletas com menos probabilidade de se lesionarem foram os do tiro ao arco, a canoagem, do ciclismo de pista, do remo, do tiro e dos desportos equestres. Trinta e cinco por cento das lesões foram impeditivas do treino ou competição e as mulheres lesionaram-se mais do que os homens (86 vs. 53 por 1.000). As doenças mais frequentes foram as infecções respiratórias, devidas a stress mecânico das vias respiratórias, desidratação e poluição ambiental. Os autores atribuem as lesões (e suas variações) a diferentes níveis e técnicas de treino físico, assim como a uma maior consciencialização dos atletas das potenciais lesões físicas, mesmo leves (que mesmo assim podem impedir a participação nas provas). Quanto às doenças, elas têm-se mantido estáveis, com as infecções respiratórias causando mais incapacidade do que outro tipo de patologias.

Este estudo é muito interessante porque procura determinar por exemplo se uma maior percentagem de lesões poderá ser devida a técnicas de treino diferentes, ou mesmo a diferente intensidade de treino. Neste último caso o panorama é algo indefinido: a sabedoria habitual diz que quanto mais intensivamente se treina, mais hipóteses de se obter lesões de esforço. Mas parece que talvez o que seja importante é as modalidades de treino serem apropriadas e cuidadosamente aplicadas, isto é, quanto mais se treina menos lesões se virá a ter (Gabbett TJ. Br J Sports Med 2016;50:273–280)…

António Vaz Carneiro

António Vaz Carneiro

SAÚDE

É professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e director do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência da FMUL. É ainda director da Cochrane Portugal.