Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Faranaz Keshavjee

Faranaz Keshavjee

ESTUDOS ISLÂMICOS

Afinal, o que quer o Daesh?

O que o Daesh quer, e adoraria ver, é a divisão entre os europeus. A divisão entre xiitas e sunitas. A divisão entre nações inteiras; um crescendo de islamofobia, xenofobia, e o abandono dos refugiados à porta da Europa

A guerra do Daesh não é contra o Ocidente, ou contra a Europa, ou contra os valores democráticos. A guerra do Daesh não é também nenhuma guerra de muçulmanos contra cristãos ou contra os valores seculares e laicos. A guerra do Daesh é uma guerra contra todos os que não compactuam com a hegemonia religiosa que essa organização quer impor sobre o mundo. A guerra do Daesh é contra o mundo inteiro, e o objetivo final é destruir qualquer tipo de coesão e de unidade entre os diferentes povos, de diferentes etnias, que praticam religiões diferentes.

Quando nos referimos a esta organização criminosa que tem por objetivo matar todos os que divergem das suas interpretações “islâmicas” (como se o Islão fosse a única e mais verdadeira religião do mundo) é preciso olhar para a história e constatar factos. Antes de ouvirmos e lermos exaustiva a já intolerável culpabilização dos muçulmanos, ou da religião que praticam, dos atos criminosos do Daesh, é preciso questionar quem são, como se formaram , quando, quais os seus objetivos e, principalmente, quem paga todo o arsenal bélico e as tecnologias sofisticadas de que dispõem.

Por uma questão de honestidade intelectual, temos de ser claros: o Daesh surge como consequência da invasão dos europeus e americanos ao Iraque, para depor um governo soberano, embora que ditatorial, de resto, igual a muitos que ainda vigoram pelo mundo mas com os quais ninguém parece importar-se. Uma das mais perigosas consequências foi colocar todo o imenso exército de Saddham Hussein no desemprego. A isto junta-se a gestão desastrosa das forças da Nato no Iraque e descontrolo das erupções fundamentalistas e radicalistas no Levante. Para agravar ainda mais todo este cenário de catástrofe social e política, a Nato não teve “uma saída limpa”! Concomitantemente, a Guerra Fria, que nunca acabou realmente, disputa os poderes energéticos e geoestratégicos, tornando toda aquela zona geográfica um verdadeiro barril de pólvora.

Usar representações do Islão (sim, porque são representações, e não verdadeiro conhecimento do que é a teologia e a filosofia ou ética islâmica) para dizer que a génese da violência desta organização criminosa está contida nos textos sagrados do Islão, e que os seus líderes são cúmplices no encobrimento de potenciais terroristas, é o mesmo que dizer, por exemplo, que porque alguns no Vaticano encobriram casos de crimes de pedofilia praticados pelo seu clero, que todo o catolicismo, ou todos os católicos são coniventes com a pedofilia!

Esta argumentação é tão ridícula e hegemónica quanto são as que se podem fazer aos 1,3 mil milhões de muçulmanos espalhados pelo mundo, e que sãocidadãos que cumprem os seus deveres e obrigações, satisfeitos com as vidas que levam.

O Daesh estima-se ser um exército de 200 mil radicais que não apenas se organizam no Iraque, Síria e Levante, mas que têm uma rede que promove lavagens cerebrais a adolescentes, rapazes e raparigas, educados, de classe média, alguns nem sequer nascidos e criados em famílias muçulmanas, para partir para a Síria e juntar-se à organização criminosa.

Um nota rápida apenas, para explicar que o islamismo que este grupo terrorista interioriza e difunde entre os seus membros, embora inspirado no modelo wahabita, não é sequer wahabita. Embora os sauditas sejam seguidores da escola wahabita e salafita do Islão, e sigam um modelo legislativo baseado numa interpretação da sharia islâmica, que não é igual a outras, é importante perceber que o Daesh é um movimento radical e terrorista que nada tem a ver com a sharia saudita. Este, portanto, é um Islão único, novo, desconhecido, e repulsivo para os 1,3 biliões de muçulmanos. Tal como lembra François Hollande, nas declarações sobre o ataque à igreja na Normandia, precisamos de coesão, de trabalho em conjunto, e de defesa dos valores da nossa democracia. E isto não se consegue a não ser que nos unamos, na nossa pluralidade. A forma como o Daesh tem estado a atuar revela o total desespero por não estar a conseguir atingir os seus objetivos e estar a sofrer pressões da comunidade internacional que, felizmente, se tem unido para travar muitos dos seus potenciais atentados. Estes atentados recentes revelam pela forma e dimensões, a incapacidade, pelo menos na Europa e nos EUA, de concretizarem o que tinham conseguido até muito recentemente. O EURO 2016 correu maravilhosamente graças a um serviço de informação que cooperou a nível europeu e que conseguiu travar cerca de 15 atentados!

O que o Daesh quer, e adoraria ver, é a divisão entre os europeus. A divisão entre xiitas e sunitas. A divisão entre nações inteiras; um crescendo de islamofobia, xenofobia, e o abandono dos refugiados às portas da Europa.

A coesão de que fala Hollande não se resume à Europa apenas. O mundo está a sofrer uma guerra. E esta é causada pelo Daesh. A coesão que precisa existir é a do mundo das democracias e dos valores da laicidade e de uma ética cosmopolita. Não é uma ética em que celebremos a diversidade e a integração dela apenas. É uma ética em que a partir dessa mesma diversidade, e em conjunto com ela, possamos combater todos os Daesh que possam ter a intenção falhada de destruir a fraternidade mundial humana.

Faranaz Keshavjee

Faranaz Keshavjee

ESTUDOS ISLÂMICOS

Faranaz Keshavjee nasceu a 11 de Janeiro de 1968, em Moçambique, na então capital Lourenço Marques e chegou como “retornada” a Portugal, em Setembro de 1974, aterrando no Bairro Alto, bem no meio das ruas estreitas e carismáticas por onde passavam o fado, as varinas e os travestis.

O fascínio e o gosto pelo estudo e investigação nas ciências sociais e humanas levaram-na a estudar primeiro para uma licenciatura em Antropologia Social e depois um Mestrado em Psicologia Social no ISCTE, seguindo depois para o Reino Unido onde se especializou em Estudos Islâmicos e Humanidades, no Institute of Ismaili Studies em Londres, e prosseguindo a sua investigação para um doutoramento na Universidade de Cambridge. As questões de género e identidades sociais dos muçulmanos em Portugal fizeram parte dos seus trabalhos académicos. Quando regressou a Portugal trabalhou no Centro Ismaili como consultora académica, e deu aulas nas Universidade Católica, Lusófona e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Traduziu obras académicas sobre o Islão, foi conferencista em debates nacionais e internacionais, cronista no Público e bloguer no Expresso. O 11 de Setembro foi a data a partir da qual passou a ser referência incontornável nas discussões, entrevistas e publicações sempre que se tratasse de questões ligadas ao Islão e às sociedades muçulmanas.