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Pedro Graça

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Quando o mediterrâneo e a saúde se juntam à nossa mesa

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Pedro Graça

Não deixe de consultar o novo guia alimentar nacional

Foi lançado por estes dias a Nova Roda dos Alimentos Mediterrânica. A Roda dos Alimentos é o mais icónico símbolo da educação alimentar em Portugal. É revisto e atualizado sucessivamente desde 1977 por peritos nacionais e sem qualquer interferência da industria alimentar ou de outros quaisquer interesses, que não sejam os de ajudar os portugueses a fazer escolhas alimentares mais equilibradas e saudáveis.

Durante este período, a nossa Roda assistiu à chegada e partida das pirâmides alimentares, ao aparecimento de novos mitos, ao endeusamento do chocolate preto, à morte por decreto do leite e até ao ressurgimento do consumo de proteína. No entanto, e de forma serena, este guia alimentar contínua a celebrar os princípios da alimentação mediterrânica, que estão na base da longevidade das populações mediterrânicas dos anos 60 estudadas por Ancel Keys.

Na base deste padrão alimentar está o consumo regular e abundante de hortícolas, no prato e na sopa. O consumo diário de 2 a 3 peças de fruta. A presença de alguns lacticínios sem gordura excessiva. A inclusão diária de uma pequena porção de leguminosas no prato ou sopa (feijão, grão, ervilha, lentilha…). O azeite como gordura principal. Uma pequena quantidade de carne, peixe ou ovos apenas uma vez por dia, ou seja, em metade das refeições principais a base são os vegetais. E depois, a base energética assente no pão mais escuro, na massa, no arroz e noutros cereais, de preferência integrais. Não esquecendo a água, que está no centro, e deve ser a principal bebida ao longo do dia. Deste guia excluem-se doces, pastéis, refrigerantes ou chocolates, que por não constarem da lista são para comer ocasionalmente, apenas quando o Rei faz anos.

A estas regras base do bem comer, juntaram-se agora alguns princípios do modo de vida mediterrânico, que necessitam de estar presentes no nosso pensamento e ação. Em primeiro lugar, o apelo para o consumo de produtos produzidos localmente e da época. A produção de alimentos é o principal agressor da saúde do nosso planeta e da emissão de gases com efeito de estufa. Necessitamos de comer diariamente, mas podemos ser mais eficientes, rejeitando produtos excessivamente processados e provenientes de paragens longínquas.

Depois, um apelo ao conhecimento culinário. Saber cozinhar saudável é hoje tão essencial como saber ler e escrever. A alimentação é o principal determinante da saúde de uma família. Por isso, a família deve reunir-se em torno deste conhecimento, podendo até recuperá-lo das tradições familiares e adaptá-lo aos tempos atuais.

Uma das novas menções, sublinha a importância da utilização das ervas aromáticas, em substituição do sal. Sendo a hipertensão um dos mais graves problemas de saúde pública no nosso país, e sendo o consumo de sal o seu motor, fazia sentido que esta prática mediterrânica fosse agora enfatizada.

A nova Roda Mediterrânica faz também um apelo à atividade física. Ao contrário do homem mediterrânico dos anos 60, a nossa vida deixou de ser “braçal” e tornou-se “sentada”. Segundo dados publicados já este ano, a maioria da população portuguesa com 15 ou mais anos (5,8 milhões) não pratica qualquer atividade desportiva de forma regular. Necessitamos inverter esta situação.

Por fim, a questão do vinho. Este novo guia alimentar refere o consumo moderado de vinho. Que consideramos poder ser de 1 copo de vinho em cada uma das duas refeições principais. Diversos trabalhos apontam para que este consumo moderado de álcool, nos que já bebem e são saudáveis, possa ter algum efeito positivo sobre a saúde e fazer parte da tradição mediterrânica. Mas esta menção deve ser cautelosa na medida em que somos um país onde mais de 1/3 da população com 15 ou mais anos (2,1 milhões) consome álcool diariamente e onde o álcool é um dos principais responsáveis pela mortalidade nas estradas.

Fica assim traçado de forma breve, este novo guia alimentar nacional. O que ambiciona é difícil, ou seja, tenta captar numa figura a essência de uma forma de comer ancestral, apurada nos últimos 8000 anos e considerada tão importante e em risco, que a UNESCO lhe atribuiu recentemente o título de património da humanidade.

Mas vale a pena tentar, em particular quando este património nos protege, nos promete mais anos de vida e de alimentação saborosa.

Pode encontrar e descarregar a nova Roda dos Alimentos no sítio da Direção-Geral da Saúde em www.nutrimento.pt

Pedro Graça

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NUTRIÇÃO

Pedro Graça é Diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. É doutorado em Nutrição Humana e professor associado na Universidade do Porto. É membro do Conselho Científico da ASAE