Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

15 dicas para compreender o que o seu cão lhe quer dizer

Bolsa de Especialistas

Célia Palma

Jamie McCarthy / GettyImages

Se conseguirmos comunicar será mais fácil entender. E se entendermos poderemos agir em conformidade. E muitos problemas serão ser evitados

O homem partilha há séculos a sua vida com o cão. Mas será que efetivamente reconhece a sua linguagem? Será que entende a sua comunicação, baseada em posturas corporais, odores significativos e vocalizações por vezes excessivas? Será que compreende os sinais que emite, tantas vezes discretos e de reconhecimento difícil? Será que entende o que ele quer dizer com cada latido, em tons variados?

Erros de interpretação são, na esmagadora maioria dos casos, responsáveis pela agressividade do cão, dirigida a humanos. Normalmente o animal dá sinais, que tentam evitar a confrontação física. Mas nós ignoramos ou deciframos de forma errada. E só respondemos da forma pretendida, quando se efetiva a dentada. Neste caso o cão aprende que só este recurso atinge o objetivo. E passa a utiliza-lo, já sem pré-aviso.

As crianças são as vitimas mais frequentes, não só por serem demasiado invasivas, provocando dor ou desconforto, que fará o cão reagir, ou porque não compreendem, também elas, a sua linguagem postural. Têm a tendência para relacionar com a linguagem humana. E apesar do animal aprender a mimetizar o comportamento do seu tutor, mantem muito do que lhe é inato.

A titulo de exemplo, posso mencionar a situação em que o cão “rosna”, para afastar uma possível ameaça. A criança relaciona a exposição dos dentes com o sorriso humano e confiante avança para o contacto físico direto, normalmente dirigido à cabeça, abraçando-o como forma de cumprimento. O cão, que havia recorrido a todas as formas de comunicação constantes do seu repertório, para evitar o confronto, vê-se obrigado a utilizar o seu último recurso.

Importante seria a educação desde a escola do primeiro ciclo, ou até do pré-escolar, que ensinasse às crianças a linguagem canina. Se ambas as artes se entendessem, a possibilidade de haver um acidente seria reduzida ao mínimo.

A comunicação consiste na transmissão de informação de um individuo para outro e é um aspeto social indispensável na conduta social de qualquer espécie. O cão utiliza sinais olfativos, auditivos e visuais.

SINAIS OLFATIVOS: consiste na deposição de odores de longa duração, no ambiente, sob a forma de urina, fezes e secreção das glândulas anais. Os odores corporais, diferentes de individuo para individuo e produzidos por variadas glândulas, são, também, uma forma de comunicação.

1 - Marcação urinária

Urinar com uma das pernas levantadas é típica de machos inteiros adultos, apesar de uma pequena percentagem de fêmeas também o fazer. Pretende deixar a mensagem de que aquele individuo passou por aquela zona. Os cães tem tendência para urinar sobre as marcas deixadas por outro animal, na tentativa de sobrepor a sua própria marca. Muitas vezes levantam a pata, contra determinados objetos verticais, sem efetivamente verterem qualquer quantidade de urina. Esta postura, só por si, é também uma forma de comunicação visual, ocorrendo, sobretudo na presença física de outro individuo. Quando dois cães se encontram no exterior é frequente uma espécie de disputa de marcação, urinando ambos, alternadamente, por cima das marcas deixadas por cada um, com ou sem emissão de urina.

2 - Marcação por fezes

Com a defecação o cão elimina também o conteúdo das glândulas anais. Estas encontram-se localizadas em ambos os lados do ânus e o seu conteúdo é ejetado, juntamente com as fezes, devido à pressão que exercem aquando da sua passagem pelo esfíncter anal. O odor destas glândulas é altamente especifico e único, diferindo de individuo para individuo. Por ser tão especifico é importante tanto no reconhecimento territorial como individual. A secreção das glândulas anais varia de dia para dia e o seu odor tem que ser comparado com outros sinais químicos ou visuais, para permitir o reconhecimento diário do individuo. Tão importante forma de comunicação justifica a necessidade compulsiva de todos os cães, independentemente da idade ao sexo, cheirarem as fezes deixadas por outros indivíduos.

3 - Marcação pelas glândulas apócrinas

Estas glândulas localizam-se, sobretudo, à volta da cabeça, região anal, na base da cauda e períneo. Contribuem, também elas, para o odor especifico de cada individuo. A interação mais óbvia entre cães que se encontram no exterior, durante o passeio, corresponde ao comportamento impulsivo de se cheirarem mutuamente nestas regiões. A investigação olfativa da área ano genital é a mais óbvia e mesmo cães que estão familiarizados o fazem frequentemente, sobretudo se estiveram separados mesmo que por curtos períodos. O ritual de se inspecionarem olfativamente é tão importante por si só , como a informação odorífica que daí advém. Nunca deve ser impedido tal comportamento, uma vez que faz parte do repertório natural da espécie canina. Permita que o seu cão absorva toda a informação a que tem direito, que inspecione e seja inspecionado, que ponha em pratica todos os comportamento que lhe são inatos. Ou seja, permita ao seu companheiro ser aquilo que ele realmente é: um CÃO…

4 - Glândula mamária

As fêmeas a amamentar produzem uma substância química na sua glândula mamária, substância esta que parece ter um efeito relaxante e calmante nos cachorros. Um análogo sintético desta substância dá os primeiros passos no mundo das feromonas farmacêuticas, com o objetivo de facilitar a adoção de cachorros, ajudando na sua adaptação à nova casa e a gerir a ausência súbita dos odores maternais.

SINAIS VISUAIS: a descrição da comunicação visual entre cães domésticos é convencionalmente baseada nos sinais evidenciados pelos lobos, durante a interação ”dominância/submissão”. No entanto, devido aos anos de convivência com humanos e a aprendizagem que adveio desse relacionamento, muitas destas posturas estão modificadas no seu significado. Também o apuramento de raças, no sentido de satisfazer as, muitas vezes excêntricas, preferências humanas, resultou numa significativa modificação de posturas, ou na impossibilidade de as interpretar. Uma vez que todo o corpo do animal está envolvido nesta forma de comunicação, orelhas e caudas amputadas ou ausentes, ou mesmo colocadas em posições pouco ortodoxas, fazem toda a diferença na comunicação entre indivíduos da mesma espécie ou na sistematização de tais posturas, por forma a serem compreendidas também pelo ser humano. O aspeto físico atual do cão domestico pouco ou nada tem a haver com o do seu antepassado lobo. Com esta divergência de aparências perdeu-se muito do aspeto “lupino” e muitos dos elementos de linguagem corporal estudados a partir desta espécie. Como resultado, a comunicação postural assume uma importância menor numa interação de sucesso entre cães domésticos, do que entre lobos, sendo mesmo impossível entre determinadas raças, cujas características raciais os deixam diminuídos em relação à possibilidade de evidenciar posturas adequadas à situação. Isto pode ser um verdadeiro problema num encontro entre desconhecidos e talvez seja uma das razões porque ocorrem tantos acidentes de agressividade canina, direcionada ao seu semelhante. Os tutores também têm a sua quota parte de responsabilidade uma vez que, por não compreenderem a linguagem inata do cão, o castigam ou advertem por a evidenciarem. Por exemplo: quando dois cães se encontram e se começam a explorar olfativamente, emitindo rosnadelas de aviso, acompanhadas de lutas de saliva ( situação em que um dos envolvidos encosta a boca ao pescoço do outro, molhando-o com a sua baba) e tentativas de monta, o tutor castiga aquele, que por erro de interpretação, identifica como agressor. Está desta forma a inviabilizar uma abordagem natural e a impossibilitar qualquer possibilidade de entendimento entre as partes. Numa situação normal, após avaliação mútua e estabelecimento de limites e regras, ambos se entenderiam e comunicariam da forma natural para a espécie. Como resultado, teriam conseguido uns momentos cognitivamente estimulantes e importantes para a socialização, assim como a possibilidade de ter sido simplesmente “cão “, durante toda essa interação, evidenciando os comportamento naturais. Também o desmame precoce e o isolamento social dos cachorros, tem a sua quota parte de responsabilidade na incapacidade comunicativa entre cães, quando lhes é permitida a interação.

5 - Quero brincar

O convite para a brincadeira pode ser direcionado a outro cão, ao tutor, a qualquer ser humano, ou mesmo a um animal de outra espécie. Exibe uma expressão alegre e positivamente ansiosa, peito encostado ao chão, membros anteriores esticados para a frente, posteriores elevados, abana freneticamente a cauda e quando em silêncio, mantém a boca aberta, língua de fora, a arfar, orelhas dirigidas para a frente. Quando está neste estado de espirito adora que se lhe atire um brinquedo, para que o recolha e traga de volta, para novamente ser atirado. Também gosta de jogar à “apanhada” e ás escondidas. O jogo é importante para o relacionamento do cão com outros cães e também com os humanos. Aumenta o vinculo afetivo pelo prazer que proporciona. Brinque com o seu cão todos os dias, por curtos mas repetidos períodos.

6 - Estou atento

Quando foca a sua atenção em algo que lhe desperta o interesse, o cão mantem-se ereto, ligeiramente inclinado para a frente, cauda levantada, corpo rígido, boca fechada, orelhas para a frente e para cima, rodando na direção dos ruídos, mantendo o olhar fixo. O que lhe desperta a atenção pode ter varias origens e a atitude seguinte é variável, dependendo da motivação.

7 - Estou com medo

Se estiver efetivamente com medo de algo ou alguém, o cão revela a sua ansiedade baixando-se para parecer mais pequeno e mais facilmente passar despercebido, com o peso centrado na zona posterior do corpo, rígido e tenso; cauda entre as pernas, completamente invisível; orelhas bem puxadas para trás, encostadas à cabeça; olhos de tal forma esbugalhados, que deixam ver a parte branca do olho. Um animal com esta postura está em pânico e neste estado de espírito pode tornar-se perigoso para quem tente aproximar-se. Efetivamente o medo é a principal causa de agressividade nos cães. Nunca tente uma abordagem frontal a um animal com esta postura. A melhor atitude será a de se afastar e esperar que o cão relaxe.

8 - Estou contente

Um cão contente está entre o excitado e o positivamente ansioso, com o peso distribuído pelos quatro membros ligeiramente fletidos; orelhas direcionadas para trás ou para os lado; cauda direita a acompanhar a linha do dorso, abanando rapidamente; tentando lamber insistentemente a pessoa ou o animal ao qual está a demostrar o seu afeto. Pode também tentar saltar para a pessoa em questão, reclamando atenção. Este é o momento em que deve refrear o seu entusiasmo, dando-lhe um comando, como o “senta!”, para que receba os cumprimentos e carícias de uma forma controlada. Um cão que consegue autocontrolar-se é um cão mais equilibrado e psicologicamente saudável, facilitando o convívio com a família, outros humanos e animais.

9 - Estou ansioso

Os sinais de ansiedade e receio são muito subtis e por vezes difíceis de identificar. A errada interpretação destes sinais leva ao acidente, uma vez que o cão, depois de ter utilizado todos os seus recursos para evitar o conflito, terá que recorrer ao último e fatídico, que é a dentada. Estes são os sinais mais frequentes e que, se estivermos atentos, conseguiremos identificar:

- Lamber os lábios sem comida ou odor de comida presentes.

- Arfar sem calor ou sede.

- Testa enrugada e orelhas para o lado.

- Mover-se muito devagar como se fosse em “slow motion”

- Bocejar como se estivesse sonolento, sem motivo para estar cansado.

- Híper vigilante, olhando rapidamente em todas as direções.

- Recusa comida, apesar de estar com fome.

- Afastar-se quando nos tentamos aproximar,

- Andar de um lado para o outro, sem objetivo aparente.

10 - Estou muito zangado

O corpo apresenta-se completamente tenso; a cauda virada para cima ou para trás, rígida, abanando freneticamente, por vezes só a extremidade; as orelhas estão orientadas para a frente; os lábios repuxados para trás , expondo os caninos de forma ameaçadora; pilo ereção, desde a base do pescoço até à cauda. Se são estes os sinais transmitidos, não enfrente a cão em nenhuma situação. O maior perigo é, sem dúvida para as crianças. Por analogia com as expressões faciais humanas, os pequenos confundem a ameaçadora exposição dos dentes com o amistoso e convidativo sorriso com que são presenteadas pelos seus semelhantes. E confiantes avançam para o abraço.

SINAIS AUDITIVOS: o cão recorre a um grande número de sons para comunicar. O ladrar tornou-se num recurso frequente, após a domesticação, uma vez que aprendeu que recebe algo quando se faz ouvir, nem que seja só atenção do tutor. O tom e intensidade mudam conforme o contexto em que é usado, desde o tom mais alto, quando requer atenção, até ao mais baixo e ameaçador, quando está agressivo. A comunicação verbal é também utilizada em situações de jogo, brincadeira e cumprimento, assim como quando o cão está sozinho, o que sugere que não é uma forma de comunicação por si só, mas uma maneira de chamar a atenção.

11 - Uivar: sinto-me só….

Tentativa de localizar alguém, ou trazer companhia para perto de si. Os cães são animais sociais que sofrem com a solidão. O sentimento de isolamento social é penoso e por isso o animal evidencia todos os esforços para atrair companhia. Quando um cão uiva, os cães das redondezas juntam-se-lhe, dando inicio a uma espécie de “conference call” solidária. Possivelmente a atitude dos seus congéneres servirá para diminuir a sensação de solidão sentida pelo animal.

12 - Rosnar: quero distância…

Significa: afasta-te, não te aproximes. O cão rosna para que um outro animal ou pessoa não se aproxime da sua comida, para que não lhe tirem o brinquedo preferido, para manter uma distancia de segurança em relação a uma potencial ameaça. Quando rosna está a dar sinais claros da sua intenção. Perigoso é um cão que morde sem ter rosnado antes. Isto só acontece quando o animal já aprendeu que a dentada é o único recurso que serve as suas intenções, o único que efetivamente afasta a potencial ameaça, uma vez que, anteriormente, todos os seus sinais comunicativos de evitação foram ignorados.

13 - Ganir: quero qualquer coisa…

Este é um som quase manipulador, uma vez que o cão aprende que o tutor não gosta do ladrar ruidoso, mas não resiste a um pedido sentido e insistente, em tom mais baixo. É normalmente acompanhado da expressão se “cachorrinho abandonado”. Também o fazem quando estão ansiosos ou com dor, mas rapidamente aprendem que conseguem atenção utilizando este recurso.

14 - Gemido: estou frustrado…

Quero companhia, ou comida, ou brincadeira, ou atenção…

15 - Ladrar: estou aqui…

Há diferentes tonalidades, intensidades e contextos do ladrar. Um tom alto e estridente indica empolgação e felicidade. Um tom baixo pode ser uma ameaça. Os cães ladram para chamar a atenção, para responder a outros cães, mostrar felicidade, para alertar para um problema. Mas o ladrar pode ser, também, um problema, uma vez que o cão pode utilizar este recurso de forma exagerada e incomodativa, causando problemas com os vizinhos ou mesmo com a própria família humana. São, muitas vezes, os próprios tutores a protelarem este comportamento, uma vez que dão atenção ao cão quando este evidencia tal atitude, mesmo que seja para lhe ralhar. A melhor atitude será a de ignorar completamente o comportamento. A atenção do tutor só deve ser conseguida quando o comportamento se extinguir.

Espero que este artigo contribua para melhorar o relacionamento dos tutores com os seus cães. Se conseguirmos comunicar será mais fácil entender. E se entendermos poderemos agir em conformidade. E muitos problemas serão ser evitados, menos animais abandonados por agressividade, menos dentadas a acabar no hospital, menos traumas psicológicos para ambas as partes. Devemos apostar na prevenção, educando crianças, desde tenra idade e a sociedade em geral, mesmo que não sejam tutores de cães.

Até ao próximo artigo.

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.