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Porque sofremos por amor?

Será que amar alguém nos faz inevitavelmente sofrer? Será que é possível evitar esse sofrimento?

Porque é que o Amor tem um sabor ora doce ora amargo. Porque é que nos faz rir, e logo depois, chorar? Porque nos faz sentir a plenitude e, logo depois, o vazio? Porque nos faz sentir grandes e, logo depois, pequeninos? Porque nos faz sentir fortes e, logo depois, frágeis? Porque nos enche de esperança e, logo depois, de desesperança? Porque nos faz sentir acompanhados e, logo depois, sozinhos…

Porque será que o Amor é feito de tantos contrastes?

Será que é mesmo assim?

A resposta a essa pergunta está noutra pergunta: será o Amor que tem todos esses contrastes, ou seremos nós a criá-los com as nossas crenças, mitos, convicções, experiências, e especialmente com as nossas idealizações e expectativas?

Porque será que nos filmes, nos livros, na música, nas revistas, nas telenovelas… o Amor é sempre “um algo” quase inatingível, ou dificilmente atingível, desencadeador de sofrimento e dor, transmitindo-nos, invariavelmente, a ideia de que para se ter Amor ou vivermos um grande Amor temos de alguma forma de nos sacrificar, de sofrer, de “carregar um monte ou uma montanha em cima das costas”? Porque se dá enfase á esperança de que se o fizermos, mais Amor vamos ter e mais amados vamos ser?

Quantos filmes já viu, quantos livros já leu, quantas músicas já ouviu, quantos artigos leu, quantas telenovelas já seguiu, cuja história versa sobre duas pessoas que se amam e que se fartam de sofrer para ficar juntas, e só mesmo no fim, depois de terem passado pelo “inferno”, tem direito ao “céu” e a viver uma linda história de Amor?

Por vezes penso: E se não fosse assim? Será que existiriam cinemas, televisão, revistas…

Até que ponto não se trata de um “ciclo-vicioso” que se autoalimenta a si próprio?

É preciso as pessoas pensarem que o Amor é sofrimento, porque no dia em que deixarem de acreditar nessa “mentira”, fizerem uma “arrumação às suas crenças”, analisarem as suas expectativas, perceberem a razão das suas idealizações, e tentarem compreender qual o fundamento do referido “dogma” de que para ser amado é preciso sofrer, as audiências caíram, os escritores de romances ficarão no desemprego, a imprensa cor-de-rosa desaparecerá, e os filmes românticos, que de romântico, muitos deles, tem muito pouco, passarão á história.

São essas mesmas crenças, mentiras, expectativas, ilusões, idealizações, criadas por nós próprios ao longo da nossa vida, “concentradas nos nossos neurónios” e potenciadas por esta sociedade da “incomunicação” que nos fazem acreditar que sem uma boa dose de sofrimento não teremos acesso ao “jardins proibidos do Amor”, onde só entra quem provar que o merece verdadeiramente, com lágrimas, com angustia, com tristeza, com anulação, com aceitação do inaceitável, que promovem essa “ideia” impregnada nos nossos genes de que para sentirmos o Amor de um homem ou de uma mulher temos de sofrer. De que o Amor exige sofrimento em troca.

E tudo isto é uma mentira.

O Amor talvez seja mesmo a única “realidade” que sobra ao cimo deste planeta que não é “comprável” ou “trocável”, porque quando o é, deixa de ser Amor e passa a ser “desamor” ou outra coisa qualquer. Muito menos é “adquirido” através do sofrimento.

A ideia de que para ter o Amor de alguém tem de sentir dor, é perversa e muito pouco dignificante. Se alguém lhe pedir que se sacrifique para ter o seu Amor, fuja enquanto é tempo. Esse alguém não gosta de si, e muito menos lhe quer ou faz bem.

Infelizmente, muitas pessoas continuam a sofrer, e a fazer tudo para continuar a receber nem que sejam apenas “migalhas” de Amor. Todos os dias, conheço mais uma!

Outras situações existem:

Quem já não amou perdidamente mas não teve coragem de se aproximar, ou se declarou e foi rejeitado, ou viveu uma relação e foi abandonado, ou traído, ou simplesmente não se sente amado… e sofre por Amor. Pensa que sofre por Amor. E é este pensar que está a sofrer por Amor que dói e que faz sofrer. Não o Amor! São as suas crenças acerca daquilo que é o Amor e a idealização do outro que o fazem sofrer.

E além de fazer doer, confunde, e pode fazer com que entre numa espiral emocional de culpabilização, e se pergunte: o que é que eu tenho de errado? Porque é que eu não consigo viver esse Amor? O que preciso fazer/sofrer mais para o viver?

Nada. Não precisa de fazer nada. Apenas parar.

Vivemos todos na camada superficial de nós próprios, “bombardeados” pelos nossos pensamentos automáticos que nos comandam como “soldadinhos de chumbo”.

Precisamos parar e pensar o que é o Amor. E o Amor não é nada disso que por aí se ouve. Eu sei-o, você sabe-o, todos o sabemos. Por vezes é difícil afastar essa “nuvem de poluição” que envolve o Amor, e perceber que não é o Amor que nos faz sofrer, mas nós a nós mesmos. Que são os nossos pensamentos acerca do que é o Amor e de como deve ser o Amor que nos fazem entrar no “labirinto do desamor” e não saber como sair de lá.

É especialmente a nossa capacidade de idealização do outro e as nossas expectativas de “relações de Amor extraterrestres” que nos fazem sentir, o que de outra forma não seria pressuposto sentirmos, e/ou uma relação de Amor fazer-nos sentir, como frustração, culpabilização, necessidade de virar o outro ao contrário, desilusão e por fim, incapacidade de acreditar no Amor.

É a nossa inebriante necessidade de sermos amados, ainda que mal amados, que nos faz ficar dependentes de relações e pessoas que não se sabem amar a elas próprias quanto mais aos outros. É ela que nos faz sofrer.

É o concentrar de todos os nossos esforços, energia, força, recursos nos outros, em nome do Amor, o alimentar de “relações caóticas” como se fossem uma “droga” e precisássemos de a consumir diariamente, esquecendo-nos de nós, que provoca essa dor, que mais não é do que a dor da perda de nós mesmos.

É a incessante necessidade de que o outro nos faça feliz que leva á dor do desespero que pode fazer doer muito mais do que se decidirmos ir á procura da nossa própria felicidade.

É a idealização do outro e a incessante busca de características nossas no outro que faz mal.

É o pensar que a paixão é um “estado eterno de Amor” e confundir os dois, que o respeito e a confiança são prescindíveis e que devemos aceitar tudo, mesmo deixar de ser, e se perder em nome de uma relação de “Amor”, que faz sofrer.

E enquanto continuarmos a pensar assim, e principalmente a viver de ilusões e idealizações do outros e das relações, tentando mudar quem não quer mudar, a viver e, especialmente, a sentir os outros, as relações e o Amor através do “filtro do sofrimento”, vamos continuar a escolher sofrer e a “sofrer por Amor”.

Não, o Amor não é sofrimento. O Amor faz-nos sentir plenos e em harmonia, faz-nos encontrar connosco e com os outros, aceitarmo-nos e aceitar, ou não, os outros, como somos e como são, viver as relações tranquila e serenamente, sentir ainda mais vivos e sentir a vida acontecer a cada momento, como ela é, como a vemos, não como os outros a veem, escolhendo quem queremos ao nosso lado, sem necessidade de sacrifícios para se ser aceite, querido, amado, desejado… para ter Amor!

O Amor não é sofrimento!

O Amor é felicidade!

E todas as pessoas que não se importam com a sua felicidade, não o amam, não o merecem nunca reconhecerão a sua “dor” e muito menos merecem o seu Amor!

Margarida Vieitez

Margarida Vieitez

RELAÇÕES

Margarida Vieitez é especialista em mediação familiar, de conflitos e aconselhamento conjugal, e dedica-se há mais de 20 anos ao estudo e acompanhamento de conflitos de diversa ordem, nomeadamente, familiares, conjugais e divórcio. Detentora de seis pós graduações, entre as quais, em Mediação Familiar pela Universidade de Sevilha, em Mediação de Conflitos e, em Saúde Mental, ministrou vários cursos de Mediação Familiar no Instituto de Psicologia Aplicada, estando frequentemente presente em conferências e seminários. Autora de vários livros, dentro os quais, "O melhor da vida começa aos 40", "Sos Manipuladores" e "Pessoas que nos fazem Felizes" .