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Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

A tragédia da guerra na construção da memória e do património

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De Aleppo ao Krack des Chevaliers, a vivência dupla das memórias

Ao Francisco Moura, Companheiro de tantos caminhos!

É complexa a nossa relação com o futuro. Facilmente o vemos nublado, sem certezas e com muitos problemas que para ele transportaremos sem saber como os resolver. A crise no Médio Oriente encaixa plenamente neste quadro em que o futuro reside num sem número de condicionantes, sem que nenhuma delas seja de solução e controle fácil. A única certeza é que daqui a largas dezenas de anos, a guerra será o centro da memória de várias gerações.

Pessoalmente, cada vez mais olho para o futuro procurando no passado amarras a que me agarrar, mesmo que pequenas e frágeis. São o património que temos o direito de, a qualquer momento, reclamar como nosso, como passível de ser parte dessa equação que deve ter também muito de afectos e não apenas de estratégias - que essas, como temos visto, poucos resultados positivos nos têm dado.

E esse património que é, quer da vida de cada um de nós, quer da nossa História enquanto colectivo, tem tensões, tem contradições, tem complementaridades. No ano de 2007, em dois dias separados apenas por uma rápida noite de um longo debate sobre os choque culturais entre vários companheiros dessa mesma viagem, visitei dois castelos em nada iguais, mas em tudo semelhantes. Aleppo, de que hoje tanto se tem falado e, em Talkalakh, o famoso Krack des Chevaliers.

Krack des Chevaliers

Junto à fronteira com o Líbano, foi este castelo dos cruzados que visitei em primeiro lugar. No meio de uma viagem tão recheada de ruínas romanas excepcionais, coma visita ainda mais espantosa algumas mesquitas do século VIII, do início do Islão, a ida a um castelo medieval, baluarte mítico das Cruzadas, em nada me cativava.

Decorria um Outono igual a tantos outros, e entre réstias fortes de sol e lufadas agrestes de vento, lá saímos do autocarro, com a vontade de descobrir alguma emoção, algo que me retirasse da letargia em que me colocava a ideia de entrar num tema que ainda hoje tantos traumas trás ao mundo: as Cruzadas.

O edifício é, realmente, espantoso. A rampa interior que nos conduz através do miolo das muralhas afirma-se para o visitante como uma elegante barreira iniciática que subimos com grande prazer, sempre munidos de um pequeno sorriso irónico nos lábios, criado pelo espanto de se estar a ser engolido por um mo(nu)mento que antes nos repulsara. Já aqui nos perseguiam – mais que acompanhavam – uns 3 ou 4 rapazes, com não mais de 12 anos. Esperavam que, mais tarde ou mais cedo, alguma moeda lhes caísse nas mãos. Brincavam, gesticulavam, corriam, importunavam, infatigáveis nas tarefas típicas desta idade e neste contexto.

E sim, de monumento rapidamente passámos, não a um momento, mas a um sem número de momentos, todos eles ímpares, únicos. Guardarei sempre com muito cuidado a fotografia que me foi tirada no topo do torreão mais alto do castelo. A não-sei-quantos-metros-de-altura, sem nada no horizonte que rivalizasse em medida e no respeito que este incutia, o vento quase não me deixava ficar de pé. Muito mais despenteado que o normal, abri bem largo os olhos para ver em todo o círculo em redor. Pareciam mesmo os ventos chamados por Ares para a dura refrega nas portas de Tebas ou da Ílion de grossas muralhas.

Mas o momento mais doce, mais inesperado, mais intenso, veio no interior do que deve ter sido o refeitório dos cavaleiros hospitalários transformado em capela depois de um terramoto por volta de 1170. Já depois da conquista no século XIII, islamizado o espaço, um mirab foi construído numa das paredes aproximadamente virada para Sul, na direcção de Meca.

Não sei se os miúdos não deram por que entrámos naquele espaço – realmente, éramos apenas uns 3 os que tínhamos saído do grupo para melhor explorar o castelo. O silêncio, matizado com os zunidos sibilantes do vento nas janelas góticas, dava uma aura de profundo mistério ao local.

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Na simples contemplação do quase nada, irromperam na galhofa os pequenos. Um dos mais velhos de nós ainda lançou um impropério qualquer para o ar, como que enxotando uma nuvem de mosquitos que descobriram que a luz se tinha acendido na calma noite. Íamos embora, com desalento, quando um deles me puxou pela mão. Apontou para o mais pequeno que se posicionava, em passos lentos, junto ao nicho de oração. Parámos.

Não sei se o que aquela criança cantou estava correcto e se a pronúncia do Alcorão era respeitada. Apenas sei que ficámos deslumbrados. Calados. Aterrados. Todo o tempo do mundo parou enquanto aquela criança cantou, de mãos colocadas como mandam as regras junto aos ouvidos, encostado ao nicho virado para a Cidade Santa. Fiquei pequeno, inútil, incapaz de qualquer pensamento ao tomar noção da minha pequenez e da inutilidade de uma fortaleza tão inexpugnável perante aquelas notas, aqueles sons que só podiam ser divinos.

Não sei se era disto que Ulisses tinha medo ao amarrar-se ao mastro do navio, aquando da visita esperada das sereias. Sem ardis, ao contrário do herói dos mil estratagemas, deixe-me ir. Vivi, naquele momento, dos minutos mais intensos da minha vida.

Os outros dois rapazes esperaram junto a nós que o canto deixasse de ecoar naquelas paredes de metros de espessura. Também o respeito os obrigou a não avançar nem para a brincadeira, nem para o peditório que seria o corolário lógico da cena.

Num inglês já muito praticado, pediram, mais uma vez, as “coins” que reclamavam desde a subida relatada no sexto parágrafo. Já se tinham juntado a nós mais uns cinco ou seis companheiros. Todos acabámos por dar, sem pensar uma única vez, uma nota, e não das mais pequenas que tínhamos nos bolsos.

Eles ficaram radiantes. Nós também, apesar de não saber se eles consciencializaram exactamente o sentimento que em nós provocaram. Obviamente, o peso e o valor das memórias tem este lado de espantoso: o que hoje é para mim uma memória única, talvez já não exista na cabeça daqueles jovens desde o dia seguinte ao relatado. Mas mais pesada é a memória quando equacionada com um futuro: no actual contexto, onde estarão eles, já não nas suas memórias, mas na sua sobrevivência física? Refugiados algures num Mediterrâneo que os recusa? Mortos nos escombros de alguma habitação que antes os acolhia e protegia? Não sei, mas o som ainda o oiço.

Aleppo

Também recorrentemente me socorro do imaginário que criei de Aleppo. Era uma cidade espantosa. Sem igual. Hoje, pelas notícias dos telejornais, não consigo imaginar a mesma cidade. Dizem que é Aleppo, mas para mim não é. É dos casos em que os meus bloqueios mentais mais me incapacitam de percepcionar a realidade da destruição desta guerra sem lei.

O desaguar teve lugar nas portas da cidadela. Emblemática com os torreões, majestosa no domínio sobre a cidade, esta cidade foi inúmeras vezes conquistada e reconquistada. Ironicamente, e por oposição ao Krack, esta cidade foi das que mais resistência apresentou às investidas de tropas cristãs, quer aos cruzados, quer às tropas bizantinas.

Mas mais que História, esta cidade foi para mim recheada de momentos de vivência muito significativos. A subida íngreme até ao portão decorado com excelente trabalho de ferro martelado foi custosa. Mas muito saborosa foi a visão que se seguiu depois de contornado um “S” que nos disse que, com essa volta forçada pela estrutura defensiva, estávamos a entrar noutro “sítio”.

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E era mesmo outra a realidade que nos esperava depois de um pequeno túnel sombrio, pelo qual se tinha entrado num portão encimado por serpentes, qual imagem e metáfora de um regresso a algo de primordial. Muita luz, mas muita serenidade. Do negro das paredes, do caminho que nos guiava, feria-nos o branco que definia a porta e nos deixava ver o casario do interior da cidadela.

Era outro mundo. Apenas por uma nesga da muralha se via a cidade em baixo e se percebia que havia mundo para além de um grupo, de um complexo de casas, de banhos, de estruturas caiadas e ondes as cúpulas tornavam tudo suave.

Algumas dessas estruturas jogavam, no seu interior, com jogos de luz que eram possíveis porque o vidro deixava, no meio dessas cúpulas, passar um grupo de raios solares perfeitamente direccionados que faziam desenhos geométricos, quer na própria cobertura abobadada, quer no chão onde se projectava. Tudo parecia poético, sereno, perfeito.

O fim desse dia, depois desta manhã na cidadela, foi passado a visitar a Mesquita Omíada da cidade, uma das mais antigas do mundo islâmico, construída no séc. VIII.

Elegante, requintada, este edifício nada tinha de sumptuoso. A sua tremenda horizontalidade apenas era quebrada por um imenso, alto, minarete, hoje destruído pela guerra civil. Ele era a imagem deste monumento único.

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Pude andar por toda a mesquita. Pátio, salas e salões. No pátio imenso sentei-me a ver o corrupio de gentes ao final do dia que respondiam ao apelo do muezim para a oração. Vinham de todos os lados, percorriam o longo caminho que atravessa a porta exterior até ao salão de oração. Pelo meio passavam pela fonte para a purificação.

Foi das primeiras vezes que vi em grande quantidade mulheres todas cobertas com longas vestes negras, as burcas. Num ou noutro caso percebi que me olhavam estranhando a minha presença, calças de ganga, ténis e t-shirt. Quem se espantava mais, ali no meio do pátio da mesquita?

Hoje, continuo sem saber o que me provoca mais espanto. Aquelas mulheres a espantarem-se comigo? Eu a espantar-me com a quantidade de mulheres de burca? Ou o espanto que deve provocar em ambos, em mim, e nelas, o facto de o minarete, tal como muitos mais edifícios notáveis da Síria, estarem agora destruídos?

É dramático quando a resposta certa nos leva para um denominador comum que é a guerra, a destruição. Sim, o que mais nos espanta é a guerra destruidora que se criou. O resto? O resto são roupas que se vestem e despem conforme as culturas.

Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

Coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions. É especializado em História das Religiões Antigas (mitologia e literaturas comparadas), mas dedica parte dos seus trabalhos a questões relacionadas com a relação entre o Estado e as religiões. Na área da Ciência das Religiões, é o responsável por diversos projectos de investigação, especialmente na relação entre as Religiões e a escola, assim como no desenvolvimento de uma cultura sobre as religiões como componente de cidadania. É ainda investigador da Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste» da Universidade de Lisboa. É Membro do Conselho Consultivo da Associação de Professores de História. É director da Revista Lusófona de Ciência das Religiões. Recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Académico da Un. Lusófona em 2013.