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Um colchão inteligente

Fui a Braga filmar o que é um dos primeiros (talvez mesmo o primeiro) “colchão inteligente”.

É uma daquelas reportagens que mal surge vou a correr. O nome como em quase tudo a que chamamos inteligente não é lá muito esperto, e já agora não foi esse o nome que a marca lhe deu oficialmente, mas acaba por ser assim que a ele nos referimos todos.

Vou a correr porque com o hábito destas coisas vejo (mas confirmo primeiro) o potencial da tecnologia. E não me espantava nada que o Oscar Valdemoros CEO da Spaldin tivesse razão quando me diz a frase que hoje parece quase ridícula - um dia todos os colchões serão inteligentes.

É que faz todo o sentido. Todos sabemos que nos deitamos em estados diferentes conforme os dias, mais ou menos fisicamente cansados, mais ou menos tensos, e ainda por cima é frequente que duas pessoas muito diferentes se deitem no mesmo colchão.

Mas em todos estes estados, com todas estas variantes, o colchão é o mesmo ao longo de anos. Tentamos comprar um que sirva o melhor possível as nossas características tanto quanto as conhecemos, o que normalmente se resume à nossa noção do que é confortável, ou simplesmente compramos o que tem o preço que nos convém. E ao longo dos anos o nosso peso também varia, e podemos estar doentes, ou temporariamente imobilizados na cama, tudo coisas que nos podem fazer desejar que o colchão fosse outro, não melhor nem pior, mas mais adaptado às circunstâncias específicas.

E é isso mesmo que este… afirma fazer. Na prática tem tubos cheios de ar, com pressão regulável dentro do colchão. Em relação aos dois corpos o problema fica logo resolvido com duas fileiras independentes de tubos. Depois a pressão é regulável, com um telemóvel ou tablet claro, estavam à espera de quê? Eu experimentei e não senti os tubos, senti de facto a tensão diferente do colchão como se a matéria fosse mais densa numas zonas e menos noutras, mais macio ou mais duro. Cada um pode regular a seu gosto, ou a conselho do médico ou com base nas recomendações do próprio sistema que são otimizadas com os dados estatísticos de quem usa. Isso mesmo. O colchão tem sensores. Tem que ter sensores para avaliar a pressão dos tubos, e a pressão exercida pelos corpos em cada zona. Já agora tem também sensores que são capazes de monitorar a quantidade e qualidade do nosso sono. O primeiro pretexto é que com esses dados o próprio sistema pode ir trabalhando as melhores soluções para o nosso descanso, mas também para o dos outros. Depois vamos contribuir para os algoritmos que o sistema geral irá usar. Ou seja quanto mais gente dormir em colchões assim mais dados o sistema terá, mais “inteligente” ficará. Já imagino aí uns títulos de jornais e dizer que o colchão viola a privacidade, que há uns espiões a ver o que é que fazemos na cama. Não será assim tão grave, mas é fácil a um treinador de um equipa de futebol querer controlar os seus jogadores em estágio, saber quanto quem dormiu de facto o quê antes do grande jogo, e eles provavelmente vão assinar o papel que permite isso mesmo.

E nós também, quando este tipo de dados poder ser usado para melhorar mesmo a nossa saúde, para nos dar avisos prévios se algo estiver a correr menos bem, também vamos querer que um computador algures esteja a mastigar os dados do nosso sono.

Mas no caso o que me fascinou mesmo é que é um caso raro em que uma destas aplicações da moda que captam tudo e mais alguma coisa das nossas vidas é capaz de nos dar algo imediatamente em troca, no caso o conforto de um colchão à medida do nosso corpo e das suas circunstâncias.

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

TECNOLOGIA

Jornalista e editor de Novas Tecnologias na SIC