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Os corpos perfeitos das mães

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Diana Ralha

Obrigada, VISÃO, por lembrares às Mães o quão incríveis e belos são os seus corpos, nas suas infinitas formas e imperfeições desenhadas a cizel por mãos e pezinhos de bebé

Quando anunciei a vinda do meu quarto filho, trazendo ainda o terceiro ao colo e pendurado na minha mama, a coisa mais estapafúrdia que ouvi (para além do: “então e vocês lá em casa não têm televisão?”) foi: ‘Vais dar cabo do teu corpo!”

E quem me disse este grande disparate foi a minha mãe.

A verdade é que as mães nem sempre dizem as coisas que os filhos desejam ouvir.

Temo-las como criaturas superiores, com resposta certa na ponta da língua, com solução em contrarrelógio para os mais diabólicos e milenares quebra-cabeças; guardiãs de toda a sabedoria de vida; torniquetes para todas as aflições.

As mães são, realmente, uma amostra do poder e do esplendor da natureza. Mas são humanas. Por isso, erram e, por vezes, atiram para canto, e falham em toda a linha. E fazem-nos a torto e a direito com os filhos. Quando o assunto são eles o coração anda ao lado da boca (quando não está nas palminhas das mãos, em permanente aflição).

Não sei o que passou pela cabeça da minha mãe para me dizer aquilo. Desconcertou-me e indignou-me verdadeiramente.

Fui a correr para a as suas saias, tão aflita (deixei o meu marido sozinho em casa a mastigar a notícia, abandonei-o à sua sorte, sem querer saber), à espera de ser reconfortada e tranquilizada como só uma mãe sabe fazer, e ela, que é a pessoa mais despojada de vaidades que conheço, opta por disparar argumentos sobre o efeito de mais uma gravidez no meu corpo.

Penso muito nesta tirada infeliz, no efeito que ela teve em mim.

Qualquer corpo que se mexe, que tem frio e tem calor, que se eriça e que se esfola, que dança e que vibra, que emagrece e que engorda conta uma história.

O meu corpo não é excepção.

E ficou amolgado com esta bujarda maternal.

Mas como qualquer boa marretada inesperada e a sangue frio, naquele dia tive uma epifania.

Ninguém acredita o que este corpo já passou para gerar uma vida: alargou, arredondou-se, desafiou as mais elementares leis da gravidade e da física, multiplicou-se, e a certa altura transbordou.

Este corpo incrível foi a primeira morada dos meus quatro filhos.

Foi o seu templo e esconderijo solitário, escuro e morno, durante nove meses.

Este corpo extraordinário rearranjou-se por dentro e por fora para concebê-los, e acarinhá-los na primeira e solitária viagem das suas vidas.

Também por quatro vezes, esta máquina perfeita recusou-se a expulsar os seus inquilinos e, por isso, um cirurgião incrível, golpeou-me o ventre, resgatou-me os filhos, perfeitos, das entranhas, e entregou-mos nos braços para que a história pudesse continuar comigo sempre perto.

E, das quatro vezes, este meu corpo retalhado e costurado recuperou na perfeição, ajeitando-se para repetir uma e outra vez a façanha descomunal de gerar uma vida.

Dizem-e que não é bonito. Que está flácido, que não posso ir à praia de biquini, que está desfeito, pendurado.

E eu rejeito que tentem envergonhar-me pelo meu incrível corpo.

Tenho um corpo que é um monumento, que está cheio de marcas de amor, tatuagens de feitos incríveis, meus e dos meus quatro filhos. O meu corpo desvenda toda uma epopeia que continua a ser escrita fora das suas fronteiras, que começa em cada sulco de estrias que o percorrem de alto a baixo.

Eu nem sempre soube que o meu corpo era tudo isto.

E eu nem percebia como é que alguém o podia achar bonito e objecto de admiração.

Quem mo explicou - nas entrelinhas, da forma mais atabalhoada possível - foi a minha mãe.

“Vais dar cabo do teu corpo!”

Foi assim que eu descobri que ela não tinha medo que eu deixasse de caber nas calças, que voltasse perigosamente aos 100 quilos. Ela quis dizer-me que o meu corpo é um santuário, que eu tenho um corpo perfeito de mãe que tenho que acarinhar.

Às vezes, é preciso uma ajuda para abrir os olhos, para ver para lá do espelho. Por isso, obrigada, VISÃO, por lembrares às Mães o quão incríveis e belos são os seus corpos, nas suas infinitas formas e imperfeições desenhadas a cizel por mãos e pezinhos de bebé.

Diana Ralha

Diana Ralha

FAMÍLIA

Diana Leiria-Ralha, 37 anos, é mãe de quatro filhos e autora do blog A Família Numerosa. Estudou Publicidade, porque tinha jeito para escrever e fazer bonecos, mas nunca exerceu. Tropeçou várias vezes nos soluços do destino, que a levaram a territórios inesperados: foi jornalista de Economia e de Política Local e é, actualmente, consultora de comunicação. É deslumbrada pelos pequenos grandes milagres da vida, e tem um magneto para atrair eventos extraordinários. Depois de muitos desaires, atinou e dedica esta vida a ser feliz.