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Pedro Graça

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O que está a mudar na alimentação dos portugueses?

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Pedro Graça

Confirma-se que a alimentação inadequada é já a principal responsável pelos anos de vida saudável perdidos pelos portugueses

Todos os anos, a Direção-Geral da Saúde publica um relatório onde reúne a informação mais relevante sobre o estado da alimentação dos portugueses. O relatório deste ano acaba de ser publicado*. Confirma-se que a alimentação inadequada é já a principal responsável pelos anos de vida saudável perdidos pelos portugueses. Nos Estados Unidos da América estima-se que a obesidade possa contribuir para que pela primeira vez na história deste país, a longevidade regrida. E entre nós? Vale a pena refletir sobre a informação agora publicada e que considero mais marcante. Aqui vai mesmo que de forma telegráfica.

A crise económica que atravessa a nossa sociedade e as famílias portugueses continua a influenciar os consumos. De um modo geral, o consumo de carne e pescado baixou. Compra-se mais frango e outras aves em detrimento da vaca e porco. A crise poderia ser uma oportunidade para comer mais saudável, com menos gordura animal. Infelizmente, o consumo de leite, fruta e hortícolas também baixou.

O consumo de leguminosas (feijão, grão, lentilhas… mas também fava e ervilhas) não recupera e mantém-se baixíssimo. Não se percebe por que razão estes alimentos com elevado valor nutricional, protetores face à doença cardiovascular e cancro, reguladores da glicemia e também protetores face à diabetes, não reocupem o lugar central que deveriam ter na nossa mesa. Baratos ainda por cima.

Sabemos agora que o consumo elevado de sal não afeta apenas os adultos. Afeta também as crianças portuguesas. Mais de 70 % das crianças nacionais observadas entre os 8 e 9 anos já consomem sal acima das recomendações internacionais nestas idades. Uma tragédia que condicionará a vida futura destes cidadãos e onde a família, mais do que a escola, deve ser responsabilizada.

Encontrámos pastelaria produzida com quantidades acima do recomendado de ácidos gordos trans (valores superiores a 2% do total de gorduras). O consumo deste tipo de gorduras que estão muitas vezes rotuladas na lista de ingredientes com as denominações de “gordura totalmente ou parcialmente hidrogenada” ou “óleos totalmente ou parcialmente hidrogenados” pode aumentar significativamente o risco de doença cardiovascular. Isto a par de quantidades elevadas de açúcar e sal neste tipo de alimentação. Um sinal vermelho, em particular para quem se habituou a substituir refeições completas fora de casa por um bolo ou paste e um café.

A apetência de crianças e adolescentes por fruta e hortícolas continua a baixar todos os anos. Em 2002, 5,7 % dos adolescentes inquiridos dizia “nunca ou raramente” consumir fruta. Em 2014, são já 9% dos jovens inquiridos a referir que nunca ou raramente a consomem. O mesmo se passa com os hortícolas. Num país com condições excecionais para a produção de fruta e hortícolas necessitamos ainda de motivar os jovens para estes sabores que necessitam de aprendizagem.

Contudo, nem tudo são más notícias. A prevalência da obesidade parece estabilizar depois de anos consecutivamente a subir em todos os escalões etários. Também os profissionais de saúde parecem terem despertado para esta realidade e são cada mais os obesos a ser detetados e seguidos. Entre 2010 e 2014, o número de utentes com registo de obesidade nos cuidados de saúde primários subiu de 214 211 para 620 769 obesos sinalizados. Um progresso marcante do nosso Sistema Nacional de Saúde. Mas um desafio tremendo para quem trata esta massa brutal de doentes.

A própria população parece estar cada vez mais consciente da importância da alimentação saudável dada a procura de informação sobre este tema. Também nunca se investigou tanto sobre os nossos hábitos alimentares por parte dos investigadores nacionais (dado o financiamento). Mas ainda iremos a tempo num país em que metade da população tem excesso de peso e um milhão de obesos?

Este desafio obrigará os profissionais de saúde e toda a sociedade a uma nova forma de pensar e de comprar. Teremos a coragem de agir, através das nossas compras alimentares e dos nossos votos, em melhores produtos e políticas alimentares?

*A versão integral do relatório pode ser descarregada na íntegra e gratuitamente no sítio da DGS em www.nutrimento.pt

Pedro Graça

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NUTRIÇÃO

Pedro Graça é Diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. É doutorado em Nutrição Humana e professor associado na Universidade do Porto. É membro do Conselho Científico da ASAE