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Entrevista exclusiva ao Medo de Amar

Quantas histórias de amor não se vivem ou se perdem por ai… em nome de um “intruso” chamado Medo de Amar?

Quantas relações não passam de um olhar mais demorado, de um entrelaçar de mãos, de um primeiro beijo, porque queremos amar mas sentimos Medo de Amar?

Quantas vezes amamos, e não vamos atrás, porque o medo nos faz fugir e esconder o que sentimos, ou fazer de conta que não sentimos?

Ao longo dos anos acompanhando pessoas e casais, fui-me apercebendo que muitos deles sentiam muito medo de amar. Desde sempre…

Vamos tentar perceber porquê? Porque tantas pessoas preferem “deixar ir”, e porque tantas outras ficam uma vida inteira pensando nesse Amor e no que aconteceria se tivessem tido a coragem de, simplesmente, ir atrás do que sentiam?

Vamos conversar com o Medo de Amar?

Olá Medo de Amar! Muito obrigada por nos concederes esta entrevista e por conversares connosco. Compreendo que tenhas passado vários dias a pensar se darias esta entrevista. Afinal, todos nós sentimos dificuldade em falar sobre nós próprios. Mas foste corajoso, em aceitar! Talvez mesmo paradoxal! Afinal és um medo corajoso! Existem algumas perguntas que gostariamos de te fazer.

Sabes, isto de amar está a tornar-se muito complexo para a maioria das pessoas. Cada vez surgem mais pessoas a falar sobre essa espécie de “parede invísivel” que se interpõe entre elas e o amor e que as deixa, ora “petrificadas”, ora com vontade de fugir para bem longe.

Todas elas afirmam querer viver um grande amor, mas quando ele parece começar a despertar, surge “um tipo de arma na mão” que lhes diz: “tem cuidado, vê lá o que fazes, vê onde te metes, olha que vais sofrer…” e muitas acabam por escolher não viver esse Amor, com medo de doer. Por isso decidi, que era importante entrevistar-te e ouvir-te.

Afinal o que é que tu pretendes mesmo com isto. Deixar que se vivam lindas histórias de Amor? De onde vens tu?

Medo de Amar: Eu surjo do “tudo” o que as pessoas “aprenderam” desde pequeninas e das experiências amorosas por que passaram. Digamos que posso ter crescido com elas, e até ficar maior que elas. Depende, entre muitas coisas, das relações que viveram e de como interpretaram essas vivências. Depende da sua personalidade, da forma como gerem as suas emoções, da forma como vêem o Amor: como um perigo, ou como algo muito bom e que faz bem.

Mas existem demasiadas pessoas a ver o Amor como um grande risco. Porquê? Do que é que elas têm tanto medo? O que é que tu as fazes pensar, para elas terem vontade de se esconder do Amor, ou fugir para longe dele?

Medo de Amar: Eu faço-as pensar que aquilo que viveram pode repetir-se, faço-as pensar na dor que sentiram, no que pode acontecer de menos bom se derem esse passo; Faço-as acreditar que o Amor não existe, que é uma fantasia, que faz sempre inevitavelmente sofrer, que podem perder a sua liberdade, vontade, autonomia, independencia e o seu espaço. Que podem perder até a identidade, que vão ficar dependentes, que não devem confiar, que podem perder a pessoa que amam, que é sempre tudo igual… começa bem e acaba mal.

Tento convencê-las que o outro não as vai aceitar como são, que vai tentar mudá-las e virar de pernas para o ar, que não se vão entender, que são muito diferentes, que o outro as vai rejeitar e abandonar, que pode acabar a qualquer momento, que vão se dar mal, que é melhor não arriscar, que é melhor nem começar, nem ir mais além, que vai ser perda de tempo, que a mãe, o pai, os filhos e o cão não vão gostar, que os amigos e conhecidos vão detestar.

E ainda, que ela/ele não está apaixonado, nem encantado, porque se estivesse… que ele/ela “é demais” e nunca vai querer alguém “assim menos mais”, que o outro as vai trair com todos que lhe apareçam pela frente, que moram longe um do outro e que não conseguiriam estar juntos nem namorar, que o seu sucesso profissional seria comprometido, que jamais conseguirá fazer o outro feliz, que irá inevitavelmente magoar o outro, que não conseguiria viver com ele/ela na mesma casa, dormir na mesma cama e lavar os dentes ao mesmo tempo, que os exs não os vão largar enquanto não os separarem, que não estão preparados para o Amor, que ele/ela só tem defeitos terriveis e inaceitáveis, fisicos e mentais, que não podem acreditar, que vai doer muito, a ponto de não aguentar, que nunca nunca nunca… dará certo… porque é uma história impossível.

São estes alguns dos pensamentos que eu, enquanto Medo de Amar “disparo” a toda a velocidade “em forma de rajada” a ponto de, porque sempre em “modo automático” se identificarem, sem sequer se perguntarem, mas de onde veem tudo isto? E acontece muitos irem atrás daquilo que o seu cérebro identifica com sendo a realidade. Porque, se assim não fosse, a maioria dessas pessoas, correria atrás, ainda que fosse um “talvez amor”, para conhecer e conhecer e conhecer… e tentar perceber, se é ou não um grande amor… quanto mais não seja para um dia, quando pensarem em tudo o que viveram e deixaram de viver, encontrarem um sentido, uma resposta, e não apenas um “e se?”

Está a dizer-me que é possível elas reduzirem o Poder e a Influência que tem nas suas vidas, nas suas escolhas, nas suas decisões, de ir ou não atrás do amor, quando sentem amor por um outro alguém? Que não é “loucura” acreditar no amor? Que podem não pensar que se vão magoar, que vão sofrer, que vai doer? Que se podem afastar esses pensamentos?

Medo de Amar: Eu existo para evitar a dor. Para proteger! Mas será que a dor de evitar o amor e de o mandar embora, não é muito maior? Por vezes, pergunto-me porque é que as pessoas tem tanto medo de amar e porque andam comigo “á tiracolo” como um “escudo” que as protege de tudo, especialmente de sentirem dor? Será que protege mesmo? Não fará a dor parte da vida? Sim, eu posso em certa medida proteger da dor, mas neste caso do Amor, o meu papel é apenas o de afastar quem realmente lhe faça mal, quem seja tóxico, não quem lhe faça bem, quem goste de si, quem o ame. E isso, pode acontecer se for atrás de todos aqueles pensamentos sem os observar e questionar. E isso, pode fazer com que se meta na sua “conchinha” e deixe a vida passar, ou que um grande Amor passe e não o consiga ver, de tão atento que está aquilo que eu lhe digo para pensar, e ao que pode vir a sentir.

Eu não me alimento sozinho. Alimentam-me. Sou alimentado pelas vivências de um passado mais ou menos remoto, e pela ansiedade de futuro desconhecido.

Sou ainda alimentado, pela insegurança, falta de confiança, auto-estima fragilizada, pela incerteza de merecerem ser amados e felizes, por não se conhecerem e não conhecerem todos os seus recursos emocionais e resiliência perante o “não deu certo”, o “acabou”, ou o “não gosto mais de ti”, por imaginarem sempre o cenário mais catastrófico, o filme mais dramático, um sofrimento tão sofrido que só existe nas suas mentes, porque nunca acontece como imaginámos, é sempre diferente, é sempre uma nova aprendizagem, mesmo quando a história parece parecida demais.

Então é possível viver sem Medo de Amar? Então não existem histórias de amor impossíveis?

Medo de Amar: Como seria amar sem medo? É esta a pergunta que eu peço a todas as pessoas para se fazerem. Que pensem como seria e o que sentiriam se amassem sem medo. Como se sentiriam se os medos que os impedem de viver o amor desaparecessem? Será que alguém consegue viver o amor com tantas defesas?

O que eu sugiro é que tentem perceber que medos lhes são úteis e que medos os fazem “olhar” para a vida e para o amor, e não ver e viver, a vida e o amor?

Que conversem com eles e lhes perguntem donde vieram, e o que querem. E que só os “adoptem” quando sentirem que os protegem, não que os castram e aprisionam.

Não existem amores impossiveis. Essa é mais uma das histórias que foram inventadas por quem não teve coragem de ir atrás… por quem se satisfez com a segurança do “impossivel” porque certamente o “possível” despertaria muito maior insegurança.

Obrigada Medo de Amar pela entrevista!

É sempre tempo de pedir aos medos sem sentido para partirem e decidir ir atrás de um Amor que o coração diz ser e ter sentido!

É sempre tempo de escolher… amar!

Margarida Vieitez

Margarida Vieitez

RELAÇÕES

Margarida Vieitez é especialista em mediação familiar, de conflitos e aconselhamento conjugal, e dedica-se há mais de 20 anos ao estudo e acompanhamento de conflitos de diversa ordem, nomeadamente, familiares, conjugais e divórcio. Detentora de seis pós graduações, entre as quais, em Mediação Familiar pela Universidade de Sevilha, em Mediação de Conflitos e, em Saúde Mental, ministrou vários cursos de Mediação Familiar no Instituto de Psicologia Aplicada, estando frequentemente presente em conferências e seminários. Autora de vários livros, dentro os quais, "O melhor da vida começa aos 40", "Sos Manipuladores" e "Pessoas que nos fazem Felizes" .