Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

O que quer afinal o Daesh?

Passada uma semana sobre os ataques em Paris na sexta-feira 13 que mais negra ficará na História Contemporânea interessa perceber como as nossas reações são muito do que possivelmente o Daesh deseja

Agora que é passada uma semana sobre os ataques em Paris na sexta-feira 13 que mais negra ficará na História Contemporânea, interessa, superados os momentos imediatos de terror, de pânico, de descrença, olhar com algum distanciamento para o ocorrido e tentar perceber as motivações por trás de um evento tão vil.

Especialmente interessa perceber como as nossas reações são muito do que possivelmente o Daesh deseja, sendo nós como que instrumentos muito bem usados numa planificação que nada tem de amadora.

1. Terror e mediatismo

O primeiro objetivo do Daesh com os ataques de Paris, tal como temos visto noutros por si executados, foi amplamente cumprido: lançar o terror com um ataque em larga escala no centro do território do inimigo. Conseguiu um elevado número de baixas, feriu o orgulho de uma nação, de uma cultura, recebeu tempo de antena como nunca antes.

Este seria sempre o objectivo mais imediato. O mais fácil de conseguir com alguma coordenação de equipas, e com resultados quase garantidos uma vez que a voragem dos meios televisivos faz o jogo dos terroristas ao dar-lhes a intensidade de terror com que nos entram em casa através dos ecrãs.

A sociedade desenvolve um medo coletivo através do clima de insegurança e pela perceção do perigo e esse sentimento é multiplicado e vivenciado nas inúmeras vezes em que as imagens são repetidas. Mais, como que numa gestão do terror que nos vai sendo ministrada em doses necessárias e suficientes para não curar, mas sim para perpetuar, esse terror é atualizado com a publicitação de novas imagens que ainda hoje surgem através do acesso a câmaras de vigilância que nos mostram o próprio acto terrorista. No frenesim de exclusivos, dia após dia, surgem novos ângulos, novas sequências de imagens, tudo se conjugando para uma manutenção do clima de medo.

2. Radicalizar a Europa, obrigando-a a agir externamente

Quase com a mesma garantia de sucesso, a intervenção militar era uma consequência que os cérebros do Daesh devem ter previsto desde o primeiro minuto em que se lançaram na preparação de um tão trágico quadro para Paris nessa noite de 13 de Novembro.

Era impossível que uma Europa ferida no centro simbólico dos seus ideais de Liberdade, não reagisse “a quente”. Na noite de dia 13 poderíamos não saber que ataque a França iria levar a cabo, mas era claro que ele teria lugar depressa e em escala significativa de força.

A agenda da Europa era assim forçada para ataques que poderiam – e podem – ter danos colaterais complexos, começando pela perda de vidas de civis usados como escudos-humanos, ou o bombardeamento de instalações não militares. No âmbito de uma reação que é do imediato e psicológico quadro da vingança, as variáveis são pesadas de forma muito diferente e a possibilidade de erro aumenta.

3. Radicalizar a Europa, obrigando-a a agir internamente

Uma outra consequência quase imediata seria, como é óbvio, quer em relação à suspeição generalizada, ao clima de islamofobia, instalado em França e na Europa, quer em relação ao fluxo de refugiados que procura este velho continente.

Um atentado nesta escala, com esta brutalidade, obrigaria muito da população europeia a repensar o olhar para o “outro” e a aderir mais facilmente a radicalismos anti-islâmicos. E foi o que aconteceu um pouco por toda a parte. Quer as comunidades islâmicas na Europa se sentem ameaçadas, sob a dita suspeição generalizada, como os refugiados se vêm agora numa Europa cada vez menos amistosa.

Na prática, o Daesh lucra imenso com este novo quadro em que a demora na instalação dos refugiados pode levar a uma radicalização, quer dos muçulmanos europeus, quer dos agora chegados, quer, ainda, dos não muçulmanos que os vêm como uma ameaça.

Isto é, o Daesh encontrou em atos como o de sexta-feira um jogo muitíssimo eficaz de radicalização da sociedade europeia, em que apenas ele ganha. Bem trabalhado através das redes sociais, o descontentamento dos muçulmanos europeus e dos recém-chegados pode ser um eficaz campo de recrutamento num momento em que havia uma crescente dificuldade em o fazer. Assim planeia o Daesh, gerindo os nossos movimentos e a forma como reagimos aos seus atos.

4. Obrigar a colocar o centro do olhar na Síria, esquecendo tudo o resto

O Daesh já percebeu, há muito, que o seu futuro não se encontra de forma imediata nos territórios da Síria e do Iraque. A manutenção, num longo tempo, desses territórios apenas pode ter lugar com novos contingentes de adeptos / tropas, o que, apesar de tudo, é cada vez mais difícil de acontecer.

A Líbia é cada vez mais uma séria candidata a novo território, muito mais sólido e menos importante para os EUA, Rússia e Europa que a Síria e o Iraque. Contudo, numa época de redes e de complexidades, o Daesh poderá dar um tremendo golpe às estratégias da coligação ao refugiar-se nos inúmeros territórios que tem em muitas outras frentes de guerra.

Ao bombardear, numa guerra aparentemente clássica, o Daesh na Síria e no Iraque, a coligação apenas está a criar a ilusão de que o vence. Neste momento, a não ser pela simbologia que algumas cidades do Médio Oriente apresentam, os territórios da Síria e do Iraque são perfeitamente secundários numa estratégia global que passa, muito mais, pelos movimentos como o Boko Haram na Nigéria, ou a luta tremenda entre sunitas e xiitas no Iémen.

Perdendo um território no Médio Oriente, o Daesh ilude a coligação passando para uma estratégia muitíssimo mais difícil de combater: a multiplicidade de pequenos estados fieis ao califado.

Neste quadro, o Daesh deverá ter plenamente noção, não só destes dois paradigmas que domina, e das respetivas vantagens, como do facto de no da multiplicidade, ele se tornar quase invencível. O olhar da coligação, assim como dos mídia, apenas para o território Sírio, possibilita ao Daesh evoluir nos outros quadros dominando, mais uma vez, a nossa reação.

5. Potenciar tensões entre aliados

Ao colocar o centro do olhar na Síria, obrigando a mais ataques a si mesmo, o Daesh eleva inevitavelmente a tensão entre EUA, Rússia e mesmo Europa. Genericamente, com o arranque dos ataques mais sistemáticos contra os territórios do Daesh na Síria e no Iraque, os terroristas obrigam a um sem número de tomadas de posição em relação a todos os restantes jogadores e peças no xadrez do Médio Oriente.

De uma forma mais concreta, Rússia e EUA teriam, em tempo normal, antes do dia 13, de debater entre si as propostas de solução diferentes que cada um tem para Assad. Contudo, a Rússia, ao agir previsivelmente sob a legitimidade do ataque ao voo abatido sob o Sinai, belisca a EU e mesmo a NATO ao colocar-se ao lado de França desde o primeiro momento, reagindo no terreno antes de se criar algum consenso sobre o presidente sírio.

Por fim, a Rússia, ao estar na primeira linha dos ataques ao Daesh, pretende manter a sua influência estratégica na região mediterrânica, estando muito próxima da Turquia, velho membro da NATO que, até ao momento, se tem mantido muito fora desta guerra. A consolidação da posição russa na Síria renova a sua dimensão de potência. Isto é, o Daesh possibilitou o fim da hegemonia norte americana nas guerras do Médio Oriente.

6. A dimensão teológica

Por fim, mas talvez o mais importante num discurso dirigido para os Muçulmanos, temos a dimensão das consequências pretendidas no campo teológico e moral. Os ataques não ocorrem por acaso num dia 13, uma sexta-feira. Creio que o valor simbólico e a dimensão de superstição e de medo desse dia foi um fator muito importante na acção.

E foi-o não apenas pelo valor simbólico antes referido, mas pela natureza dos espaços atacados. Se no início de 2015 Paris foi atacada num símbolo da Liberdade, um jornal satírico, nesta sexta-feira o ataque dirigiu-se, usando o quadro bíblico, a Sodoma e a Gomorra, locais de “pecado”.

Todos os locais eram marcas da diversão, do estilo de vida europeu: futebol, concertos, esplanadas e restaurantes. Um deles, o recinto de concertos, albergava regularmente bandas de cariz altamente reprovável por qualquer religioso menos tolerante, seja ele muçulmano, ou judeu ou cristão. O nome da banda que atuava no momento do ataque reflete muito bem o horizonte por onde a sua música anda (Eagles of Death Metal), sendo um perfeito exemplo daquilo que qualquer radicalista e fundamentalista de qualquer dos monoteísmos considera totalmente pecaminoso e contra a moral definida por Deus – o bónus, seguindo o adagiário, “cereja no topo do bolo”: os músicos eram americanos.

Ao concertar um ataque a estes locais, um estádio, um concerto e esplanadas, o Daesh está a definir-se, para os seus adeptos, como controlador moral. O ataque, mais que ser a cidadãos europeus, ou à França ou mesmo a Paris, foi-o a um estilo de vida que eles consideram demoníaco; o ataque foi uma ação de limpeza e, ao mesmo tempo, de ensino para que, muçulmanos em processo de secularização não se deixem afastar do “bom caminho”.

Ao olhar dos membros do Daesh, não foram mortas vítimas civis como dano colateral. Não, assumindo o papel da divindade, o Daesh executou pessoas que cataloga como perdidas para o demónio, inimigos de Deus.

Enfim, qualquer um de nós.

Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

Coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions. É especializado em História das Religiões Antigas (mitologia e literaturas comparadas), mas dedica parte dos seus trabalhos a questões relacionadas com a relação entre o Estado e as religiões. Na área da Ciência das Religiões, é o responsável por diversos projectos de investigação, especialmente na relação entre as Religiões e a escola, assim como no desenvolvimento de uma cultura sobre as religiões como componente de cidadania. É ainda investigador da Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste» da Universidade de Lisboa. É Membro do Conselho Consultivo da Associação de Professores de História. É director da Revista Lusófona de Ciência das Religiões. Recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Académico da Un. Lusófona em 2013.