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Faranaz Keshavjee

Faranaz Keshavjee

ESTUDOS ISLÂMICOS

Carta aberta de uma muçulmana aos portugueses

A distância entre ser muçulmano e ser extremista ou potencial terrorista é tão frágil e vulnerável, que, a qualquer momento, o vizinho que ofereceu samussas ou um bocado do delicioso caril no outro dia, pode ser um potencial assassino

D.R.

Sempre que inicio as aulas ou conferências, começo por uma premissa fundamental para entender tudo o que vou dizer a seguir: NÃO SE PODE NUNCA FALAR DE UM ISLÃO NO SINGULAR, MAS SIM, DE SOCIEDADES AFETADAS PELO FACTO ISLÂMICO. Porque o que existe no mundo inteiro são inúmeras e variadas as interpretações sobre o Islão, assim como inúmeras as comunidades onde a mensagem original foi apropriada em concordância com as práticas costumeiras consoante a tradição, língua, desenvolvimento civilizacional e geografia dos povos convertidos.

Foi assim que comecei a estudar o Islão e as sociedades muçulmanas em 1994; a premissa transmitida pelo professor Mohamed Arkoun, que investigava e lecionava na École Des Hautes Études de Paris, filho de família argelina refugiada, e recipiente da distinção mais elevada concedida pela república francesa – a Legion D’Honeur, serviu para conhecer o Islão como deve ser visto e analisado.

A premissa enunciada serve também para perceber que o meu pensamento nesta carta pode não representar o que muitos mais muçulmanos neste mundo, mesmo os da mesma comunidade de fé a que pertenço, ou o que os sunitas portugueses possam pensar.

E partir do principio de que a minha opinião não deve nem pode representar a de todo um mundo de 1,2 mil milhões de muçulmanos reflete exatamente uma visão fundamental de todos os muçulmanos porque contida no versículo da sagrada escritura em que Deus diz: “Oh Humanidade! Atentai sobre o vosso dever para com o Vosso Senhor, que Vos criou de Uma Alma apenas e dela criou o seu par e deles fez espalhar por todo o lado uma multidão de homens e mulheres para que vos conhecesseis uns aos outros”.

Este versículo é o que reflete a visão pluralista e a integração da diversidade humana no Islão. Ele revela que a partir de uma Unicidade Espiritual, a diferença se manifestou e que é precisamente a partir da diversidade e diferença que devemos e podemos construir uma nova ética cosmopolita*. Esta deveria ser a ética que deveria prevalecer não só no mundo dos muçulmanos mas também no imenso mundo fragmentado em que hoje todos vivemos.

Os trágicos e irreparáveis acontecimentos de Paris no dia 13/11, assim como os que dois dias antes sucederam no Líbano, onde igual número de mortos sucedeu, coincidem com um período festivo de importância universal na cultura Hindu, que é o Diwali. Entre os dias 11 e 15 de Novembro deste ano, todo o mundo Hindu celebra o Festival da Luz sobre as Trevas; montes de balões iluminados são largados para o céu na aspiração da vitória da bondade espiritual e no afastamento da escuridão espiritual. Cada balão de luz representa a luz dentro da pessoa quando a ignorância é afastada através do entendimento e da iluminação. Curiosamente, o evento coincidiu com a escuridão que assombrou os homens e mulheres que na cidade das Luzes gozavam da liberdade de viver e conviver na alta cultura que a civilização moderna conseguiu construir. Mais um atentado terrorista abalou a Europa e fez regressar o temor, o medo de viver livremente e em segurança nas nossas próprias casas, ruas, restaurantes, e desfrutar dos lugares de cultura.

Quem são os autores? O auto-designado “Estado Islâmico”, o ISIS, ou o Daesh. Uma continuação da Al-Qaeda mas com a fundação de um califado. Ele é o fantasma que emerge desde o 11 de Setembro para assombrar todo e qualquer muçulmano e fazer com que tenham de imediatamente agir e intervir nas redes sociais, ou com os amigos, para como que pedir desculpa por existir. Sim, porque a distância entre ser muçulmano e ser extremista ou potencial terrorista é tão frágil e vulnerável, que a qualquer momento, o vizinho que ofereceu samussas ou um bocado do delicioso caril no outro dia, pode ser um potencial assassino. Ou o filho dele; que era tão bom rapaz e que nunca pensamos poder “fazer mal a uma mosca”, fugiu para se juntar ao resto dos terroristas!

A minha vida, assim como, creio eu, a de todos os muçulmanos, nunca mais foi a mesma desde o 11 de Setembro. Mas também é verdade que, desde então, ao mesmo tempo que procuro ir ao fundo das questões, da causa das causas, fico cada vez mais convencida de que vivemos num mundo onde não nos conhecemos efetivamente.

Este é um mundo onde todo o tipo de teoria tem espaço para florescer, para difundir e, perigosamente, ficar impregnada. É a era do conflito de Verdades. Aquela em que a verdade de uns se sobrepõe à de outros, e vice-versa. É o tempo em que surgem “especialistas” de tudo o que tem que ver com o Islão ou as sociedades religiosas, dentro e fora das religiões. É um tempo de choque de ignorâncias. E o mais extraordinário é ver a facilidade com que nesta imensa circulação de informação, pelos inúmeros meios tecnológicos, se promove a desconexão, a escuridão, o confronto, e a desintegração. Um exemplo claro e muito próximo do que digo, é o do artigo publicado no jornal Público sobre o Estado Islâmico, a sua génese de formação e a teologia que apregoa. Encontro nesse artigo inúmeras incongruências e incoerências e ao mesmo tempo nenhum esforço para investigar sobre a veracidade ou congruência dos assuntos debitados ao longo do mesmo. Trata-se de um artigo traduzido de uma revista estrangeira. Não sabemos quem o terá inicialmente encomendado e quem será o mecenas das “verdades” nele expostas. É que, por virtude de formação, procuro sempre saber quem paga a quem para escrever o quê. Só para dar um exemplo do perigo deste tipo de procedimento, é recordar que Hitler tinha também encomendado estudos “científicos” que mostrariam a superioridade humana de uns sobre outros. E o resultado foi o que vimos. Este é o perigo das sociedades modernas no que respeita ao tratamento e difusão da informação. E isto só mostra que modernidade não é forçosamente sinónimo de progresso.

O verdadeiro progresso humano passa por combater as fontes de intolerância, alimentadas principalmente pelo medo do desconhecido, da tirania, da doença, da violência, da escassez, e do empobrecimento. Contribuir para o melhoramento da qualidade de vida humana promove a Esperança. E oferecer esperança aos povos é dar o passaporte para a construção de sociedades de paz e de dignidade humana.

Num mundo em que o diferente deixou de ser abstrato e distante, e no qual o desafio de viver juntos é cada vez mais complicado, e onde a maior informação pode significar menos contato e até maior confusão, é imperioso que trabalhemos no sentido de uma nova ética cosmopolita, que não entende apenas as diferenças, mas faz por conhecê-las, e aprender com elas, para que olhemos para a diversidade como uma oportunidade e não como um peso.

Neste sentido, e porque vivemos um período particular onde milhões de refugiados de guerras procuram esperança entre nós, cabe-me a mim, e creio que a todos nós, recordar que ou fomos algures refugiados, ou poderemos necessitar, eventualmente noutro momento da história, de viver num lugar seguro. Como refugiada de uma ex-colónia portuguesa, sei o que significa ter um tecto e sei o que significou para os meus pais que tivesse acesso a educação e a um futuro promissor. Sei o impacto positivo que teve a chegada dos “retornados” para o impulso positivo da economia portuguesa. Portugal não pode nem deve temer a entrada de novos refugiados. Há uma experiência de sucesso que podemos repetir e creio que temos os recursos necessários para saber distinguir, através da nossa intelligentsia, os que chegam para se integrar e os que não devem ficar para dividir. Mas esse é um assunto que seguramente as nossas autoridades saberão tratar com sabedoria e conhecimento. Assim como foram capazes de o fazer até hoje. Como portuguesa, muçulmana e como ex-refugiada, sei que Portugal pode ser um case-study para o resto da Europa e do mundo. E estarei presente, certamente junto com outros especialistas na matéria, para o que for preciso fazer para ajudar no conhecimento e na promoção de uma nova ética cosmopolita, uma ética que promova a integração do diferente, através do conhecimento e da dignidade humana, a partir das quais poderemos viver num ambiente de paz e de prosperidade.

*O conceito de Nova Ética Cosmopolita é introduzido por Sua Alteza o Principe Aga Khan e vem substituir o vulgar termo Tolerância, porque enquanto neste se aceita o outro, mesmo que não gostemos, na nova ética cosmopolita a tolerância vai mais longe e compromete-se não só a tolerar mas a descobrir o que a partir da diferença se pode construir.

Faranaz Keshavjee

Faranaz Keshavjee

Faranaz Keshavjee

ESTUDOS ISLÂMICOS

Faranaz Keshavjee nasceu a 11 de Janeiro de 1968, em Moçambique, na então capital Lourenço Marques e chegou como “retornada” a Portugal, em Setembro de 1974, aterrando no Bairro Alto, bem no meio das ruas estreitas e carismáticas por onde passavam o fado, as varinas e os travestis.

O fascínio e o gosto pelo estudo e investigação nas ciências sociais e humanas levaram-na a estudar primeiro para uma licenciatura em Antropologia Social e depois um Mestrado em Psicologia Social no ISCTE, seguindo depois para o Reino Unido onde se especializou em Estudos Islâmicos e Humanidades, no Institute of Ismaili Studies em Londres, e prosseguindo a sua investigação para um doutoramento na Universidade de Cambridge. As questões de género e identidades sociais dos muçulmanos em Portugal fizeram parte dos seus trabalhos académicos. Quando regressou a Portugal trabalhou no Centro Ismaili como consultora académica, e deu aulas nas Universidade Católica, Lusófona e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Traduziu obras académicas sobre o Islão, foi conferencista em debates nacionais e internacionais, cronista no Público e bloguer no Expresso. O 11 de Setembro foi a data a partir da qual passou a ser referência incontornável nas discussões, entrevistas e publicações sempre que se tratasse de questões ligadas ao Islão e às sociedades muçulmanas.