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O canto inferior direito

Eu tinha acabado de me divorciar e ainda não sabia o que fazer com a nova solidão. Falar com um desconhecido que estava do outro lado do mundo era semelhante a falar comigo mesma ou com deus. Dizia-lhe tudo o que me passava pela cabeça, já que nunca nos iríamos encontrar pessoalmente. O Shane era um deus imperfeito

Ilustração: Susa Monteiro

Quase uma da manhã do dia nove de julho de 2017. Estava sentada à secretária, à minha frente o documento de a Eliete no ecrã do computador, os dedos, indiferentes ao cansaço, tamborilavam no teclado de uma letra para a outra, sempre atrasados ou adiantados em relação ao meu pensamento, a tentarem agarrá-lo em palavras. Insones, os olhos mantinham-se atentos aos carreiros de letras que se enfileiravam por dentro da luz do ecrã. Para além do candeeiro que iluminava a minha a secretária, a penumbra da sala era a franja que roçava em mim do grande escuro que cobria a noite lá fora. Pelas janelas abertas, entravam gargalhadas e vozes dos que, quatro andares abaixo, resistiam a que o dia acabasse bebendo cerveja comprada no indiano da esquina, quando, de repente, no canto inferior direito do ecrã disparou um retângulo que me atingiu para sempre no coração, Micky says: Shane is dead.

Eu tinha amado o Shane. Não, não está bem dito.

Eu amava o Shane. Também não é assim.

Eu amo o Shane. O amor conjuga-se no presente.

O Shane e eu tivemos quase sempre o atrapalho de um ecrã entre nós. Existimos dez anos na vida um do outro, mas estivemos juntos pouco tempo. A afastar-nos havia o Atlântico e a longitude da quase totalidade do continente americano. Oito mil setecentos e quarenta e oito quilómetros entre Lisboa e Las Vegas. Essa era, no entanto, a menos intransponível das distâncias.

Conhecemo-nos na internet, numa das salas do Paltalk. Comecei a frequentá-las com o propósito de encontrar alguém que me ajudasse a melhorar o meu fraco inglês. Em troca, eu ensinaria português. Ninguém estava interessado nesta língua em que me entendo e desentendo. O Shane também não. Mesmo tendo namorado vários anos com a Elen, uma rapariga brasileira, ele não encontrara utilidade noutras palavras que não aquelas que conhecia desde a infância. Nunca viajara para fora dos Estados Unidos, na verdade, pouco se tinha afastado de Las Vegas, a improvável cidade onde nasceu e passou grande parte da sua vida, uma cidade mais nova do que o avô dele, uma cidade que parece ser a fingir, juntando na mesma rua as pirâmides do Egito, as gôndolas de Veneza e a Torre Eiffel, num resumo apressado e eufórico do mundo, uma cidade que parece ser a fingir, mas que é a sério. Também o Shane tinha tudo para ser a fingir, só que eu era tão feliz quando no canto inferior direito, Shane is now online.

Não tens mais nada para fazer numa sexta-feira à noite do que aprender inglês?, intrigou-se na primeira vez em que falámos. Lá ainda era dia e ele acabara de regressar do trabalho. Gostas de ser americano?, quis eu saber. Oh hell yeah! A resposta, longe de ser sobranceira, denotava um contentamento infantil. Se o Shane não era a América, encarnava pelo menos uma ideia da América. Por qualquer razão, quis ensinar-me inglês, Inglês a sério, como o dos filmes do Tarantino, dizia ele. We’ll have a blast, garantiu. Passado uns tempos enviou-me a primeira de muitas canções,

You don’t know how you met me,
You don’t know why,
You can’t turn around and say goodbye,
All you know is when I’m with you, I make you free,
And swim through your veins like a fish in the sea

Eu tinha acabado de me divorciar e ainda não sabia o que fazer com a nova solidão. Falar com um desconhecido que estava do outro lado do mundo era semelhante a falar comigo mesma ou com deus. Dizia-lhe tudo o que me passava pela cabeça, já que nunca nos iríamos encontrar pessoalmente. O Shane era um deus imperfeito. Passávamos também muito tempo sem dizer nada, a ouvir música. Ouvimos juntos centenas
de canções, cada um do seu lado do mundo.

Um ano mais tarde, comprei uma passagem de avião para Las Vegas. Dois anos depois, o Shane passou uns meses em Lisboa. Regressou ainda outra vez. Tudo somado perfaz pouco mais do que um ano. No resto do nosso tempo, foi este ecrã – onde neste momento uma mancha imprecisa me espelha – que mo trazia e mo levava. Habituei-me a trabalhar com o Shane dentro de um pequeno quadrado que se sobrepunha a parte do que eu ia escrevendo. Ele de t-shirt de alças, o boné dos Redskin com a pala para trás, o cigarro sempre aceso, às vezes a garrafa Crown Royal. E as canções,

Follow me and everything is alright,
I’ll be the one to tuck you in at night,
And if you want to leave I can guarantee,
You won’t find nobody else like me.

Não teria conseguido ser o Rui de O Retorno se o Shane não tivesse partilhado comigo as suas histórias de adolescente, se ele não me tivesse acompanhado nas desamparadas noites de que todos os meus romances se fazem. Eu devia ter-lhe dedicado O Retorno. Há sempre tantas coisas que nos esquecemos de fazer, que não nos lembramos de fazer no tempo certo. A dedicatória deveria ter sido: Aos desterrados, Ao Luís,
o meu chão, Ao Shane, o meu céu.

Não sei o que acabou primeiro, se a nossa paixão, se as nossas conversas no Yahoo. Sei que ultimamente falávamos pelo Messenger e que o Shane nunca deixou de me chamar baby. Tal como nunca deixei de sentir que ele me libertava quando, noite adentro, nenhum outro barulho para além dos meus dedos nas teclas, no canto inferior direito, Shane says: Hello baby, how r u doing? Então o tal pequeno peixe nadava pelas minhas veias como se estivesse no mar. E havia sempre uma canção nova que ele tinha ouvido não sei onde. E fotografias. Do sítio onde queria envelhecer em Oregon, do afilhado Steven, de coisas de nada, um 7 Eleven, uma mulher gorda a atravessar a rua, um mexicano a vender tortillas. Numa das últimas conversas que tivemos, E o Trump, como é que pôde ganhar as eleições?, indignei-me. America will take revenge, respondeu-me, Oh hell yeah!

Eu não podia adivinhar que o canto inferior direito do ecrã do meu computador seria capaz de me ferir para sempre. Queria tanto que, outra vez, Shane says: Hello baby, how r u doing?

Cá estou. We had a blast. Nunca disse que te amo. Não fui capaz de te ensinar português e agora é difícil explicar-te porque é que amo-te não é igual a I love you. Sempre fingimos que nos entendemos em inglês, mas ambos sabemos que isso não é verdade. Não é grave, o amor raramente precisa de palavras. Mas gostava de te ter dito que te amava. Já não falas comigo e vou-me esquecendo do inglês. Do dos filmes do Tarantino e do outro, em geral. I miss you so much, Shane.

(Crónica publicada na VISÃO 1386 de 26 de setembro)