Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A sabedoria instintiva de criança dizia-me que a verdade quase sempre conspira com o tempo para o tornar mais monótono e lento. A mentira, pelo contrário, tem o poder de o descompor e apressar

Ilustração: Susa Monteiro

Corri para casa o mais depressa que pude. Cheguei afogueada ao alpendre onde a minha mãe e as vizinhas desfiavam outra interminável tarde de rendas, bordados e coscuvilhices. Quando recuperei o fôlego para dizer, A D. Gilda teve um aborto, a minha mãe e as vizinhas largaram, num grito, os panos e artefactos, linhas, agulhas, dedais, deixando cair os banquinhos de madeira em que estavam sentadas, tal a pressa com que se dirigiram para o portão. Já na rua, a D. Maria do Carmo seguiu à frente, a mãe da Rosita e a D. Alda no seu encalce, a minha mãe, a Glória e a mulher do mecânico a fecharem o esquadrão. Ultrapassei-as e já estava à porta da D. Gilda quando elas bateram palmas para se fazerem anunciar. A vontade de oferecerem os seus préstimos naquela hora difícil era tanta quanta a necessidade de saberem os pormenores do que se passara.

Não imaginava o que seria ter um aborto. Sabia apenas que era uma coisa muito má que podia acontecer à D. Gilda. Essa eventualidade tornara-se, aliás, um dos assuntos recorrentes das conversas da minha mãe e das vizinhas, já que tudo as levava a falar daquilo. Havia sempre a que baixava o tom para lamentar a desgraça que seria a D. Gilda voltar a abortar, a que gritava um Deus a livre e guarde, a que relembrava o último aborto que quase matara a pobre coitada, a que antecipava a tragédia daqueles filhos perderem a mãe. A ideia de que se podia perder uma mãe como se perdiam berlindes, borrachas e lápis inquietava-me de tal maneira que não me conseguia concentrar a tentar perceber o que seria um aborto. Com os meus cinco anos, a falta de significado de algumas palavras era compensada pela forma vincada com que quase todas as outras existiam para mim. Perder era perder, e constituía sempre uma tristeza. Ter era ter, e podia ser bom ou ser mau. Era bom ter coisas que podia guardar no meu quarto: o cão de trapos com que dormia, os livros da Anita, os sapatos de verniz, a bola para jogar na praia. Ter coisas que não podia guardar era muitas vezes mau: ter febre, ter fome, ter medo. Ter um aborto parecia ser ainda pior do que ter um ataque como o que o Sr. Hélder sofrera meses antes, deixando-o entrevado numa cadeira.

Todas as infâncias são longas na sua brevidade e a minha foi ainda mais, por me ter calhado o azar de ser a mais nova do bairro onde morávamos. Ser a mais nova significava obedecer aos outros miúdos, subir com mais dificuldade às árvores, ficar excluída do concurso da Miss Bairro da Cuca que a Mariazinha e a minha irmã organizavam, estar proibida de ir brincar para os outros bairros e – suprema humilhação – não poder ir à escola.

Estando a minha irmã e os outros miúdos o dia inteiro na escola, as horas tornavam-se tão vagarosas que aprendi a contar o tempo pelo raio de sol que atravessava a cozinha. Quando a luz começava a entortar-se sobre o pequeno fogão branco empoleirado numa laje, pouco faltava para a escola acabar. O bairro acordava, então, do seu desesperante torpor e eu assistia ao espetáculo das rodas onde se cantava a Triste viuvinha e o Mandei a criada limpar o pó, às acrobacias nas bicicletas, aos cozinhados nos fogões de brincar e aos embalos dos chorões que falavam, às pontarias treinadas para atingir o céu da macaca, às discussões sobre cuidados a ter com insetos que se colecionavam em caixas, às batotas e às zangas que se desfaziam mais depressa do que a água da chuva nos secava no corpo.

Quando a rua era só sombra, as mães chamavam para os deveres e banhos. Duma casa e doutra ouviam-se choros por contas malfeitas ou pelo sabão a arder nos olhos. Seguia-se o cheiro intenso de refogados e o barulho dos talheres e das músicas dos discos pedidos na rádio. Por fim, o bairro caía no breu parado de que eu tinha tanto medo. Não fossem os latidos do Restinga, o cão que vivia acorrentando no quintal do Sr. Tadeu, jurava que, todas as noites, o mundo acabava lá fora.

Naquela tarde em que irrompi com a notícia do aborto da D. Gilda, eu estava tão maçada com a costura e os bordados que a minha mãe e as vizinhas faziam que a almofada dos alfinetes e das agulhas perdera a sua atração e tornara-se um desinteressante ouriço metálico. Subi e desci a mangueira umas quantas vezes, ficando a ouvir o barulho pesado das mangas maduras a caírem no chão, fiz bolos de lama no quintal, enfeitando-os com as lesmas que babavam o branco caiado das paredes, apanhei umas palmadas da minha mãe por me ter ferido num dos joelhos, fiz tudo o que me passou pela cabeça e o sol continuava longe do pequeno fogão branco.

A sabedoria instintiva de criança dizia-me que a verdade quase sempre conspira com o tempo para o tornar mais monótono e lento. A mentira, pelo contrário, tem o poder de o descompor e apressar. Por isso eu mentia, mentia muito. Mas nunca de forma tão engenhosa e perfeita como o fiz naquela tarde, A D. Gilda teve um aborto.

Uma boa mentira é um combustível potente. Nada arrancava aquelas mulheres das tardes atoladas no alpendre, e de repente ei-las a correr pela rua fora, para se porem num instante junto da barriga empinada da D. Gilda, deitada no sofá. Não percebi como fui desmascarada sem que a D. Gilda tivesse aberto a boca. Seguiram-se as sugestões das vizinhas acerca dos castigos que a minha mãe me deveria infligir. Mas nada esmoreceu o orgulho e o contentamento que senti com a minha proeza.

Poucos anos depois, as vizinhas espalharam pelo bairro que a Glória, a melhor amiga da minha mãe, era amante do meu pai. Durante muito tempo a minha mãe quis convencer-se de que as vizinhas tinham inveja da amizade que a unia à Glória. Quando a verdade rasga, a mentira também serve para coser. Ou para cicatrizar.