Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Última chamada

De repente, soaria bem alto, em todos os altifalantes do aeroporto, Fly me to the moon, let me play among the stars, e os aviões, lá fora, celebrariam o nosso encontro em acrobacias aéreas que iríamos vendo através da parede de vidro, de alto a baixo, à medida que nos afastaríamos, a sapatear, por um luminoso corredor afora

Ilustração: Susa Monteiro

Quando o corredor por onde eu seguia terminava, abria-se outro, perpendicular àquele. O novo era igual ao que ficava para trás. Corredores compridos, a direito, que uma reta é o caminho mais curto entre dois pontos e aqueles eram caminhos para gente com pressa.

Tudo existe longe de tudo e não se pode perder tempo. Tem de se correr. Mas, naquela altura, eu já não era capaz de o fazer. Os corredores largos, construídos para serem atravessados por multidões em ambos os sentidos, estavam vazios. Era só eu, os meus passos a ecoarem marmóreos, e seguranças colocados espaçadamente a bocejarem de tédio. Corredores cegos, sem janelas, como se tivessem sido abertos dentro de um corpo em que eu entrara sem dar conta. Nunca ali tinha estado, apesar de reconhecer o sítio. Era o sítio dos pesadelos em que me perco num labirinto.

Segundo o bilhete eletrónico tudo se passaria de forma simples, voaria de Lisboa para Viena e depois de Viena para Sófia, com uma escala de hora e meia. Só que o primeiro avião saiu de Lisboa com setenta e cinco minutos de atraso. Não sabia se teria tempo de apanhar o outro avião. Infelizmente não dispomos desse tipo de informação, disse a hospedeira quando lhe perguntei se o voo para Sófia também estava atrasado. Talvez o outro avião espere, o destino daqueles jovens também é Sófia, acrescentou, apontando para um grupo grande, ao fundo, Mas aconselho-a a dar uma corridinha.

Despejados no aeroporto, os jovens desataram a correr, os rapazes mais à frente, a puxarem pelas raparigas. Segui-os atarantada. Arrependi-me de ter levado o computador, o livro e outros pesos que se juntavam à minha idade e às minhas limitaçõezinhas para me arrastarem os passos, já esquecidos de como se faz para deslizar por corredores de um aeroporto ou pela vida. Acabei por perdê-los de vista. Os jovens e eu éramos muitos, talvez o avião ficasse à nossa espera. No entanto, eles chegariam bastante antes de mim e não haveria razão para que eu lá não estivesse também. Partiriam, deixando-me ali, e eu teria dificuldade em justificar à companhia aérea a minha lentidão, a culpa passaria
a ser minha, perderia o direito à indemnização se tivesse de passar a noite em Viena. Pior do que tudo, correria o risco de não ter voo no dia seguinte que me permitisse chegar a tempo da apresentação de Tudo São Histórias de Amor, recentemente traduzido para búlgaro, faltaria às entrevistas marcadas e às sessões nas universidades. Não podia não estar ansiosa.

No quadro com os horários das partidas passavam dezenas de destinos, num piscar de olhos. Vi imediatamente Sófia, naquilo que entendi como um golpe de sorte, um sinal de que chegaria a tempo. Porta G27. Última chamada. Estava na zona F, precisava de passar para a G. Corri
o mais que pude pelas alamedas de lojas e cafés, as indicações penduradas no teto guiavam-me, letras e setas, letras e setas, a minha desengonçada correria a estragar a compostura daquele mundo moderno.

Desemboquei num controlo de passaportes. Inseri o meu na ranhura, conforme as indicações, a máquina tirou-me uma fotografia e as portas abriram-se automaticamente. Foi já do outro lado que pensei, A Bulgária pertence à União Europeia, não devia haver controlo de passaportes. Consultei um novo quadro de partidas que, como o outro, baralhava letras, a fazer e desfazer cidades: os passageiros para Sófia estavam ainda a embarcar, mas a porta de embarque era a FB410 e não a G27. Fiquei petrificada.

Existiam dois voos para Sófia quase à mesma hora e, há pouco, enganara-me ao procurar pelo meu. As portas do controlo de passaportes não se abriam no sentido contrário e eu estava impedida de voltar para trás, para a zona F, de onde não devia ter saído. Pedi ajuda. Mandaram-me esvaziar a mochila, descalçar os ténis, ignoraram o meu desespero, obrigaram-me a seguir em frente.

Não deviam existir trajetos de sentido único para além daquele que a própria vida estabelece, mas não adiantava reclamar. Retomei a corrida. Aqueles com que me cruzei ou troçavam da minha pressa ou parecia que não me viam. Tinha andado muito até à zona G, não imaginava quanto mais precisaria de andar para sair dali e regressar à F, o mais certo seria o embarque estar terminado quando lá chegasse. Ao cansaço acrescia a culpa que me pesava ainda mais o corpo e considerei desistir.

Estava irremediavelmente só. Tinha subido e descido escadas, magoado as mãos a empurrar portas perras, passado dois controlos de segurança e outro de passaportes. Quando fui dar aos intermináveis corredores desertos, já não conseguia correr mais. Última chamada. No final de um desses corredores, fui devolvida à normalidade do percurso. O aeroporto voltou a cheirar a uma mistura de pizza, perfume e desinfetante e as pessoas deslizavam em tapetes rolantes.

Porta FB410. Um funcionário e uma funcionária arrumavam as suas coisas. Precipitei-me para eles, desejando que acontecesse um milagre. Não devia querer que Deus gastasse parte do seu tempo a socorrer-me em coisas de nada, eu estava – ou ainda estou, não sei – perdida num labirinto, mas ninguém morre por isso, haverá quem fique para sempre enredado nos seus labirintos, talvez eu nunca me liberte do meu, mas há certamente sofrimentos maiores. Mesmo assim desejei um milagre, desejei que o avião não tivesse partido e que um dos funcionários se dispusesse a ajudar-me. E o milagre aconteceu. Perante a contrariedade da colega que insistia em que não havia nada a fazer, o funcionário, um homem gentil, não me abandonou. Não sei o que disse nem com quem falou nos vários telefonemas que fez em alemão, mas percebi que não foi fácil. No final, com um sorriso encantador, autorizou-me a seguir viagem, a porta de embarque abrir-se-ia novamente e o autocarro para me levar ao avião estaria à minha espera.

Viagem? Afinal, que viagem quero eu? Fosse do cansaço ou de já ter vivido o bastante para reconhecer a excecionalidade daquele homem, quis parar, desistir de tudo e apaixonar-me por ele. De repente, soaria bem alto, em todos os altifalantes do aeroporto, Fly me to the moon, let me play among the stars, e os aviões, lá fora, celebrariam o nosso encontro em acrobacias aéreas que iríamos vendo através da parede de vidro, de alto a baixo, à medida que nos afastaríamos, a sapatear, por um luminoso corredor afora.

Mas não parei. O funcionário passou-me o bilhete para a mão, Boa viagem, disse. Creio ter reconhecido um tom desafiador na sua voz. Ainda assim não parei. A vida é demasiado acelerada para paixões. E ainda mais o é para amores. Segui viagem e não cheguei atrasada a Sófia.

(Crónica publicada na VISÃO 1374 de 4 de julho)