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O sabor da felicidade

Escolhi o bolo da capa da revista TeleCulinária, três rodelas de massa de amêndoa, recheio a doce de ovos e cobertura a creme de manteiga com torneados de saco de pasteleiro, flores de açúcar de várias cores e uma folha de hóstia a dizer Parabéns, seria lá eu capaz de celebrar o aniversário da minha mãe com um bolo banal

Ilustração: Susa Monteiro

A minha mãe faz hoje oitenta anos. Quando fala do seu nascimento refere que a Segunda Guerra Mundial começou nesse ano e eu sinto-me tentada a reconhecer nessa coincidência um sinal dos muitos tumultos por que a sua vida passou, mas a minha mãe, bastante mais capaz do que eu para tratar sofrimentos, não se detém em comparações despropositadas. O importante é seguir em frente, garante, desembaraçada do passado. E eu sempre tão enrodilhada nele.

Por infelizes desacertos entre compromissos, em vez de ir ter com a minha mãe, vou num avião a caminho da Colômbia. Lá em baixo, vertiginoso, o Atlântico desterra-me. Quatro horas de voo passadas, faltam seis para chegar à cidade das pitaias. Foi em Bogotá que saboreei pela primeira vez pitaias. Nunca tinha dado conta delas, já lhes teria ouvido o nome, já vira, por certo, aqueles corpos estranhos numa banca de fruta, mas só nos encontrámos verdadeiramente há três anos. Como se só então estivéssemos, elas e eu, no sítio certo. Pitaias. Aconteceram-me tantas coisas em Bogotá, conheci pessoas extraordinárias, descobri belezas improváveis, dancei na Calendaria como se fosse outra vez jovem, fiz amigos de que a distância me desencontra, mas, de entre tantos momentos registados, aquele que a minha memória invariavelmente escolhe quando a cidade é convocada é o da manhã, numa enorme e quase vazia sala de pequeno-almoço de um hotel, em que eu trouxe da cesta da fruta para a minha mesa o que me pareceu uma requintada escultura. O prazer que tive ao saborear a doce polpa branca tingida de sementinhas fez-me indescritivelmente feliz. Talvez essa sensação tão pacífica e plena tenha condensado as muitas felicidades dispersas que a cidade me ofereceu, conseguindo imitar também, do outro lado do mundo, essa outra de a minha mãe a comer os figos do quintal e a oferecer-mos cuidadosamente protegidos nas folhas da figueira.

Ao longo destes quase cinquenta e cinco anos em que existo na vida da minha mãe, já passámos alguns dos seus aniversários separadas. A primeira vez que isso quase aconteceu foi em 1978, o John Travolta dançava o Stayin’Alive e eu sabia de cor as canções da telenovela O Casarão, “Só louco, quis o bem que eu quis...”. A minha irmã estava a estudar em Coimbra e os meus pais deslocavam-se várias vezes a Trás-os-Montes para tratar dos pedaços de terra que os meus avós maternos nos haviam deixado e que iam ajudando a remediar-nos, pelo que, apesar dos meus treze anos, eu ficava sozinha em casa ao vago cuidado das vizinhas. Na maior parte dos dias, acordava a horas para ir à escola e não me deixava ficar na rua depois de anoitecer, como combinado com os meus pais, não comia muitas guloseimas nem me deixava adormecer à frente da mira técnica da televisão. Noutros, fazia isso tudo e corria perigos absurdos como escolher regressar do liceu pelo paredão, um caminho que era nessa altura mais frequentado por traficantes e pervertidos do que por pescadores e românticos entristecidos pelo mal de amor, ou como andar na parte da frente do comboio da linha de Cascais em apostas tresloucadas com outros inadaptados como eu.

Daquela vez, se tudo corresse bem, os meus pais regressariam a casa no dia do trigésimo nono aniversário da minha mãe. Eu era uma adolescente dada a planos mirabolantes como o de tirar um curso de dactilografia para ser escritora ou o de frequentar o clube dos amigos dos óvnis para me encontrar com criaturas verdes de cabeça triangular. Fazer um bolo de aniversário para a minha mãe pareceu-me tarefa não muito ambiciosa, apesar de até então nunca ter feito nenhum. Escolhi o bolo da capa da revista TeleCulinária, três rodelas de massa de amêndoa, recheio a doce de ovos e cobertura a creme de manteiga com torneados de saco de pasteleiro, flores de açúcar de várias cores e uma folha de hóstia a dizer Parabéns, seria lá eu capaz de celebrar o aniversário da minha mãe com um bolo banal. A compra da revista foi o primeiro rombo no meu modesto orçamento. Copiei depois para a folha de um caderno todos os ingredientes de que necessitava. Constatando que o dinheiro não chegava para tudo, fui fazendo substituições que só uma grande pasteleira se permitiria. Tal como diz a minha mãe, a ignorância é atrevida. Assim, não podendo faltar o naperon de papel nem as velas, o recheio foi substituído por uma compota barata de morango e prescindi da essência de baunilha, de meia dúzia ovos e das amêndoas. Estive horas na minúscula kitchenette do exíguo T1 do J. Pimenta, sujei a louça toda para criar a massa mais peganhenta que alguma vez vi. Por tudo isto ou por ter aberto tantas vezes a porta do forno para ver se o bolo já estava cozido, a massa manteve-se encruada e nem um centímetro cresceu até começar a queimar nas bordas. Apesar disso, eu estava convencida de que o bolo ficaria igualzinho ao da revista, ainda que não soubesse o que era saco de pasteleiro e que o creme de manteiga tivesse levado um bom copo de vinho tinto para compensar o pequeno cálice de Porto de que a receita falava. Recheei o desastre com a compota e enfeitei-o com o creme que conseguira argamassar a custo. Na ausência das flores de açúcar, deitei mão a duas miniaturas de pássaros em vidro que uma amiga da minha irmã trouxera do Brasil, colocando-as ao lado das velas. Escrevi Parabéns num retângulo de papel, deixei o bolo sozinho no centro da mesa com a toalha de festa posta e sentei-me a vigiá-lo, esperando ansiosamente pelos meus pais e por que o meu olhar compusesse o que, inábeis, as minhas mãos não haviam sabido criar. Estive horas naquilo, até ouvir chegar o velho camião Hino. Era já noite. Esperei que o elevador fosse chamado, apaguei as luzes, acendi as velas e, quando senti a chave na porta, comecei a cantar os parabéns como se fosse uma enorme festa surpresa.
A minha mãe deve-me ter abraçado durante muito tempo, só me lembro vagamente de nós os três, a minha mãe, o meu pai e eu, à volta da mesa, na penumbra da sala, mas nunca me esqueço do doce salgado que me ficou na boca.

A felicidade sabe às lágrimas comovidas da minha mãe.

Parabéns, mãe.

(Crónica publicada na VISÃO 1366 de 9 de maio de 2019)

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