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Z, o pedómetro e eu

Sem partilhar casa, familiares, amigos e natais, fracassos e conquistas, devaneios e prazeres, cada um manteve, daninha, a sua solidão. Fomos quase um casal moderno

Ilustração: Susa Monteiro

Nos primeiros tempos, o Z e eu gostávamos de caminhar sem destino pela cidade, algumas vezes de mão dada, falávamos muito, atabalhoávamos as nossas vidas na ânsia de as contarmos e aproximávamos o futuro em promessas, desceríamos o Big Sur num descapotável, teríamos a casa no campo onde pudéssemos ficar do tamanho da paz. Vivíamos o presente porque o futuro estava perto, caminhávamos durante horas pela cidade, algumas vezes abraçados, duas peças fragilmente encaixadas de um puzzle irresolúvel.

Tenho no computador uma pasta de fotografias tiradas pelo Z nessas caminhadas. Numa delas, estou sentada nos degraus do Cais das Colunas por baixo de uma Lua cheia, noutra deitada num dos passadiços do Parque das Nações com os pés descalços, noutra a posar com um sorriso desajeitado numa rua íngreme que não sei onde fica. As fotografias arrastam canções, Oh, it's such a perfect day, I’m glad I spent it with you, todos os amores têm banda sonora, Take my hand, take my whole life too, For I can’t help falling in love with you.

Foi o Z que me falou dos pedómetros, aplicações para telemóvel que contam os passos, indicam a distância percorrida, as calorias queimadas, a quantidade de água que se deve beber e outras informações de natureza semelhante. Minutos depois de ter sabido da sua existência, já tinha descarregado um pedómetro da loja virtual. Para o pôr em funcionamento, era preciso criar um perfil e o Z escolheu o nome que eu teria na aplicação: Fidi, por causa do soldado Fidípides, que, no ano 490 a.C., correndo, em dias, centenas de quilómetros para pedir ajuda a Esparta e para avisar Atenas, fez com que nem esta cidade nem Maratona fossem conquistadas pelos persas. Forneci os dados que me foram pedidos para completar o perfil, mulher, 50 anos, 1 metro e 59 centímetros, 53 quilos, não se conhecem complicações cardíacas. Escolhi a língua em que o pedómetro e eu nos relacionaríamos, português, e defini o meu objetivo, 4 mil passos diários. Recebi a notificação de que havia sido cadastrada com sucesso, e a mensagem, Partiu. Apercebi-me de que o pedómetro falava o português do Brasil e interpretei esta mensagem como sendo Boa sorte. Boa sorte, pois. Parti. Partimos

Passou, então, o pedómetro a notificar-me sempre que eu atingia o meu objetivo e a enviar-me mensagens de encorajamento quando ficava aquém, Tenha total orgulho no que você acabou de alcançar, mas seja mais ambicioso. Nos relatórios diários e semanais que me enviava, os passos que eu dava com o Z misturavam-se com os que eu dava sozinha, uns eram indistinguíveis dos outros. Não havia nisso nenhum defeito do pedómetro, nenhum amante caminha sozinho, o Z andava sempre comigo. Estivesse eu a arrumar a casa, às compras no supermercado, a viajar para outros cantos do mundo, sentada à secretária, existissem milhares de quilómetros entre nós, nunca deixava de ter o Z ao meu lado. Nem nunca perdia de vista o futuro onde todos os meus passos e os do Z seriam dados com o acerto que só a felicidade partilhada permite. Anda, Fidi, anda.

De nada sei mais poderoso do que a doce prisão do amor que ao nos atar a outro, outro nos faz, escrevi num conto que dediquei ao Z, alguns anos depois de estarmos juntos. O conto era sobre o amor, mas as palavras servem mal os propósitos de quem as usa. Se assim não fosse, o Z e eu não nos teríamos desatado. Em boa verdade, nunca foram cegos os nós que nos prenderam. Ver demais, viver demais, prejudica as coisas do amor, e o Z e eu encontrámo-nos já tarde, na vida, cada um com muito mundo visto, cada um com muito tempo vivido, cada um demasiado encaixado no lugar que, mesmo não sendo o seu, o mundo e o tempo se haviam encarregado de moldar à sua volta como uma armadura ou sepultura. Sem partilhar casa, familiares, amigos e natais, fracassos e conquistas, devaneios e prazeres, cada um manteve, daninha, a sua solidão. Fomos quase um casal moderno.
Segundo outra aplicação que converte quilómetros em passos, eu estava a vinte e nove milhões e trezentos e trinta mil passos do Z aquando da nossa última discussão. De telemóvel na mão, câmara do WhatsApp ligada, foi indubitavelmente uma discussão moderna. O Z estava em sua casa, enrolado em mantas, e eu num quarto inespecífico de um hotel inespecífico sem dormir há mais de 30 horas. O cansaço e o Atlântico atravessados entre nós tornaram a nossa desconversa mais irreal do que me surgia, então, o calor mexicano de novembro. De qualquer maneira, a discussão não teve importância, raramente o fim do amor acontece quando intempestivamente os amantes o declaram terminado. Corre, Fidi, corre.

Não consegui sair do quarto, nesse dia. Socorri-me dos ansiolíticos que levo sempre nas viagens para usar em caso de turbulência forte, durante o voo ou em situações de emergência. Aquela era uma situação de emergência. Lembro-me de mim encostada a uma das paredes do duche, deixando a água quente correr pelo corpo. Depois, devo ter dormido e chorado. Não terá sido esta a ordem por que as coisas aconteceram, mas acordei com os olhos tão inchados que acreditei que sim. Tinha várias mensagens no telemóvel, entre elas uma do pedómetro, Você flopou o seu objetivo. Mais uma vez era verdade, eu tinha falhado o meu objetivo. Desativei as notificações para a Fidi. E deixei-me estar. Durante muito tempo. Dias. Semanas.

Nenikikamen!, foi o que Fidípedes disse, exausto, ao chegar a Atenas, prevenindo os seus concidadãos para o ataque iminente dos persas que haviam sido derrotados em Maratona. Vencemos!, disse, morrendo de seguida.
No primeiro dia de primavera, recebi uma mensagem do pedómetro. Avisava-me de que eu suspendera o registo das caminhadas há quatro meses e desafiava-me a retomá-las. Percorri o histórico do perfil e vi, naqueles relatórios, a prova de que eu não inventara a história de amor com o Z. Mas aquela já não podia ser eu. Eliminei o perfil. Um simples toque e o pedómetro apagou tudo em segundos, indo dos registos mais recentes aos mais antigos, como dizem que acontece quando se morre. Morre, Fidi, morre.

Criei novo perfil, Dulce, mulher, 54 anos, 1 metro e 59 centímetros, 52 quilos, não se conhecem complicações cardíacas. Escolhi a língua, português, e defini o meu objetivo, 4 mil passos diários. Parti.

Beleza, você superou o seu objetivo. O pedómetro contabiliza agora os passos que me afastam do Z com o mesmo entusiasmo com que contabilizava aqueles que nos aproximavam. Um dia também seremos todos assim, sem alma, só alegria primaveril e plástica.

(Crónica publicada na VISÃO 1362 de 11 de abri)

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