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Da I República ao Governo PS: Cem anos a geringonçar por aí

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Miguel Carvalho

José Carlos Carvalho

Se esta legislatura tornou PS, PCP e BE mais amigos ao ponto de já prescindirem de cerimónia entre eles é coisa que qualquer dos dirigentes desmentiria, pelo menos para consumo exterior. Mas a palavra “geringonça” tem muito mais que se lhe diga.

Inter amicos non est jeringonça. Dizem os entendidos que esta expressão extraída do latim macarrónico pode ser traduzida pela frase “entre amigos não há cerimónias”.

Desconheço se António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins estavam familiarizados com a dita quando, em 2015, rubricaram o acordo mínimo das esquerdas – sem fotografia de conjunto - que vai permitindo ao PS governar com maioria no Parlamento. Se esta legislatura tornou PS, PCP e BE mais amigos ao ponto de já prescindirem de cerimónia entre eles é coisa que qualquer dos dirigentes desmentiria, pelo menos para consumo exterior. Mas a palavra “geringonça”, adotada pelo léxico político desde que o cronista Vasco Pulido Valente a ela se referiu, no Público, para definir a improbabilidade histórica governativa que vai sobrevoando os destinos do País, tem muito mais que se lhe diga. E mais anos do que parece. Na verdade, temos de recuar quase um século, à I República, para registar o momento em que, pela primeira vez, terá sido usado o termo “geringonça” em contexto parlamentar, isto se descontarmos o período da monarquia constitucional, onde o latim veio, por uma vez, à baila.

Assim, na sessão de 12 de dezembro de 1919, António Granjo, eleito do Partido Republicano Evolucionista e maçon, teorizou sobre a carestia de vida, os esquemas dos açambarcadores e aquilo a que ele chamava “bolchevismo branco”. Segundo argumentava, era preciso emendar e corrigir estes vícios, caso o novo regime não quisesse ter à perna o “bolchevismo vermelho”. Manifestando discordância com as medidas ministeriais para resolver tais problemas, o deputado rejeitava as medidas da “geringonça política e judicial” em curso.

António Granjo seria assassinado em 1921, com requintes de malvadez, na chamada “noite sangrenta”, quando a República se transformara, ela própria, numa “geringonça” à deriva.

Antes disso, contudo, já o socialista Ladislau Batalha tinha posto o dedo na ferida.

Falando na sessão parlamentar de 15 de abril de 1920, o deputado fez o diagnóstico da situação desastrada a que o regime tinha chegado. “Temos tido, desde 5 de Outubro de 1910, até hoje, trinta e sete ministros das Finanças. Feitas as contas, vem a ser 5/10 de ministro cada mês! Três ministros e meio por ano! Façam favor de me dizer se dentro duma sociedade que se propõe remodelar e organizar pode haver sequência administrativa e financeira com 3/10 de ministro por mês”, interpelava, entre risos nas bancadas. Para ele, “a triste desgraça” da “geringonça política da nossa terra” era o facto de cada ministro chegar ao poder e desmanchar a obra do anterior “para fazer de novo…”. Familiar?

Foi preciso atravessar o fim da I República, a ditadura salazarista e a Revolução de Abril para que, de novo, se voltasse a ouvir falar em” geringonça” no parlamento nacional. E de novo seria um socialista, de obediência maçónica, a fazê-lo. Mais de 60 anos depois.

Em 1980, por duas ocasiões e em pleno consulado da Aliança Democrática (AD), o histórico do PS, Almeida Santos, atirou-se à “geringonça diplomática” que, “distante no tempo, no espaço, e por vezes no afeto de tudo quanto é democracia e Abril”, não estava, na sua douta sapiência, “preparada para garantir um recenseamento [eleitoral] fidedigno”, afirmou a 10 de maio daquele ano. Quatro dias depois, voltaria à carga, tal a “gravidade” do tema: “Já sabemos que o emigrante liga tanto à obrigatoriedade como nada, mas na oficiosidade é que está o risco, porque, em primeiro lugar,sabemos que a nossa 'geringonça' diplomática não está preparada, nem de corpo, nem de espírito, nem de experiência, para poder, daqui até ao fim de Junho (…) fazer um recenseamento digno desse nome”. Por curiosidade, foi um Governo suportado na atual “geringonça” parlamentar a garantir que, nas últimas “europeias”, mais de 1,4 milhões de emigrantes pudessem votar, graças a um recenseamento automático.

De Almeida Santos até à queda do breve Governo de Passos Coelho apenas em dois momentos, de acordo com os diários parlamentares, se voltou a ouvir a palavra “geringonça” na Assembleia. A 14 de março de 1985, a socialista Conceição Quintas citou D. Henrique Manuel de Vilhena, Conde de Seia, a propósito dos que, noutros tempos, se contentavam com a “geringonça, não sei de que leis pagãs”, através da qual pretendiam governar cristãos (algo que Assunção Cristas poderia perfeitamente subscrever, com a devida atualização, claro).

Três anos volvidos, em 1988, Carlos Lélis (PSD), regressava às origens latinas da palavra para denunciar quem, entre os deputados, que se entretinha a aproveitar “qualquer expressão de divisionismo” ao invés de trabalhar para o consenso. Socorreu-se então da gíria aprendida nos tempos de Coimbra e proclamou: inter amicos non est geringonça.

Daí para cá tem sido o que sabemos. Sem cerimónia.

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Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.