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A última entrevista com Ruben e o pato corado da Tia Matilde

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

José Carlos Carvalho

Nessa tarde arrastada, deliciosamente arrastada como partilhas de alpendre, escutei histórias clandestinas, sensíveis, delicadas, mas também episódios de troca-tintas, de vira-casacas e retratos de figuras charmosas com voz de linho e pés de barro

A conversa ficara aprazada para depois da Festa do Avante do ano passado, graças aos bons ofícios da mulher, Madalena. Mas o rescaldo do evento organizado pelo PCP, as sessões de hemodiálise dele e os nossos quotidianos profissionais e geográficos adversos, não facilitaram a marcação do encontro a propósito do meu projeto.

Fomos falando, trocando mensagens, sugerindo dias, semanas.

Eu lera os livros dele, as entrevistas, resmas de narrativas a cruzarem gentes, versos, prosas, músicas, saberes e diferenças onde sempre se enroscam aqueles que amam a liberdade, sem olhar a carimbos, sebentas ou catálogos.

Sabíamos ambos que os temas em cima da mesa (o fado, a Amália, o Alain, tanto, tanto fado) pediam uma daquelas conversas de ignorar os ponteiros do relógio.

E a 16 de novembro de 2018, finalmente, aconteceu.

O almoço foi na Tia Matilde, na Rua da Beneficência, onde Ruben de Carvalho se sentia em casa há décadas. Cheguei primeiro, mas esperei pouco tempo por ele. E apesar de mais um martírio hospitalar dessa manhã, que o atrasara, vinha com o ar pachorrento de quem se prepara para esticar a rede a umas quantas histórias e preguiçar através delas. Um desses episódios tinha ocorrido ali mesmo, qual encontro inesperado, entre Eusébio e Maria Eugénia Cunhal, irmã do histórico secretário-geral do PCP. “Fui buscar o carro para irmos embora e esperei pelas senhoras que me acompanhavam. Esperei, esperei, e como estranhei tanta demora, voltei a entrar. Qual não foi o meu espanto quando dei com o Eusébio, a Maria Eugénia e a minha mulher em animada conversa a propósito do Álvaro [Cunhal], que o Eusébio, de resto, respeitava muito. Tinha sido atraído pelas semelhanças físicas da irmã e por ali ficara, na galhofa”.

Sorridente, Ruben de Carvalho sugeriu, para início de conversa, o pato corado com arroz e eu fui atrás. Sem arrependimentos, com repetição. “Delicioso!”, comentámos, uma e outra vez, resgatando sempre o fio à meada, embalados pelo Esteva tinto. Durante três, quatro horas eu ouvi, e gravei, as mais belas histórias do fado operário, das suas personagens, os percursos das mulheres e homens que deram poesia, voz e sentido a esse canto portuário, tão melancólico quanto ardente, verso e reverso da nossa identidade. Vieram à mesa as vicissitudes, atropelos, que o fado enfrentou em ditadura e no pós-25 de Abril, as avenidas largas, líricas, que Alain Oulman e os poetas abriram para a voz de Amália, que há tanto tempo as esperava para que o fado tivesse o seu sobressalto histórico. Nessa tarde arrastada, deliciosamente arrastada como partilhas de alpendre, escutei histórias clandestinas, sensíveis, delicadas, mas também episódios de troca-tintas, de vira-casacas e retratos de figuras charmosas com voz de linho e pés de barro. Desvendámos, por fim, os percursos, talento e generosidade de seres humanos íntegros, esses mesmos que dizem tudo a tempo, mesmo quando lhes bichanaram que aquele não era o tempo de as dizer.

O Ruben não era apenas a história em movimento. Trazia gente aos recantos de um acontecimento, pormenores à esquina da História, explicando os equilíbrios precários mesmo quando falava das músicas, das almas que viviam por dentro de um poema ou de uma canção, escritos a vaidade, génio ou revolução. Admirava Ercília Costa, Amália, Marceneiro e o seu camarada José Manuel Osório, fadista como os outros, marginal de certa maneira, o amigo que sabia de tudo isto – e de Amália - muito mais do que ele. Palavras dele.

Falámos das músicas e daquilo que molda os povos que nascem junto aos portos, do fado que ele, Ruben, resgatou para os territórios da esquerda, para os palcos do Avante, quando a esquerda ainda era dura de ouvido para o fado, embarcando no boato, na inveja ou no sectarismo.

Atravessámos um País, dois regimes, costumes, tradições e sobressaltos, sempre com o fado e Amália ao pé da boca, a pretexto de tudo, ao sabor de outros afluentes, políticos, sociais, culturais, e eu a transbordar de espanto a cada momento.

Foram três, quatro horas de conversa.

Nunca, em momento algum, Ruben pediu para desligar o gravador, mesmo quando eu me assarapantava ou encolhia com o desassombro, a franqueza ou a sensibilidade do relato ou da revelação. Na hora da doença, da saúde já precária, talvez ele quisesse que ficasse tudo dito, de uma vez, para sempre, sem subterfúgios nem comodidades, para eu usar sem estorvo quando fosse chegado o momento de pôr em letra redonda a narrativa desconhecida de uma época e a aproximação humana a essa mulher sem fronteiras que nos deixou habitar a sua voz. Eternamente.

Obrigado, pois, Ruben de Carvalho.

Ainda hei de despedir-me de ti a escrever-te, nas páginas que virão, mais cedo do que tarde, usando essas memórias pachorrentas, sábias e humoradas, escutadas nessa longa tarde da Tia Matilde. Com pato corado com arroz e tarte de sorvete de limão.

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Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.