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Quando Joe Berardo, “português do ouro” queria os “brancos” a ensinar os “negros”

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

Tal como acontecera com Ricardo “Dono Disto Tudo” Salgado, antigo “patrão” do BES, as figuras da política, da finança e da cultura que antes lisonjeavam o comendador, fogem a sete pés de Berardo, aproveitando agora para glosar, à luz do dia, a sua “chico-espertice”

José Carlos Carvalho

“Os negros terão de ser ensinados pelos brancos antes de terem o direito de partilhar o poder”. Corria novembro de 1986 e Joe Berardo, então com 42 anos, tinha um raciocínio muito claro sobre a forma como a África do Sul devia evoluir para uma situação social mais equilibrada. “Português do ouro”, alcunha conquistada graças à fama e proveito retirados de andanças, nunca totalmente esclarecidas, na atividade mineira, Berardo falava com a autoridade de quem crescera e fizera fortuna no país à sombra do "apartheid", onde chegara ainda criança.

Nessa época conturbada, de tumultos, prisões e homicídios denunciados em toda a parte, o empresário viajara até à Madeira natal para participar na receção oficial ao presidente sul-africano, Pieter Botha, no arquipélago, uma cortesia, entre outras do mesmo calibre, de Alberto João Jardim.

Para a generalidade dos observadores de então, Joe Berardo era o típico emigrante português de sucesso. Embalado, ele não se coibia de exibir ideias próprias, mesmo ressalvando que o seu ofício era outro: “Apesar de não nos metermos na política”, alegava, em defesa da casta endinheirada da comunidade emigrada na África do Sul, “discordamos completamente do 'apartheid' e, dentro das nossas possibilidades, trabalhamos para que as partes envolvidas na questão se entendam. Mas é verdade que os homens de negócios sul-africanos em geral estão a ser bloqueados nas suas iniciativas além-fronteiras pela manutenção do regime”.

Joe Berardo nunca fora dado a solavancos políticos nem pugnava por mudanças que abalassem o status quo. Defendia uma solução pacífica a dez anos para aquele país, então vergastado nas instâncias internacionais por manter um Estado segregacionista e violento. Precavido, ele temia, sobretudo, “o perigo comunista que vem do ANC [Congresso Nacional Africano]”, partido de Nelson Mandela que, à época destas declarações, ainda estava preso e assim se manteria até 1990, ano da libertação.

Para o empresário, a liberalização do regime até estava em curso, mas era preciso esperar mais algum tempo para ver a mudança. “A comunidade internacional está, incompreensivelmente, virada contra a África do Sul”, dizia ele, em 1986, indignado com os reflexos das críticas na estratégia expansionista dos empresários radicados no território.

Hoje, Joe Berardo é notícia por outras razões.

Comendador e considerado, até há pouco tempo, um dos homens mais ricos do País e colecionador de arte tantas vezes adulado pelas elites políticas e culturais portuguesas, o empresário deve, aos 75 anos, mais de mil milhões de euros a três bancos (CGD, BCP e Novo Banco). Estas entidades foram-lhe financiando as suas atividades, negócios e guerras de poder sem reservas, sem pestanejar e sem acautelar garantias, com exceção das obras de Miró, Basquiat, Picabia e outros artistas que especialistas na matéria consideram não executáveis para este efeito.

Tal como acontecera com Ricardo “Dono Disto Tudo” Salgado, antigo “patrão” do BES, as figuras da política, da finança e da cultura que antes lisonjeavam o comendador, fogem a sete pés de Berardo, aproveitando agora para glosar, à luz do dia, a sua “chico-espertice”. Do património do homem que, segundo os jornais, tratava ministras por “babe” e banqueiros por “tu”, sobrará, em seu nome, uma garagem, no Funchal. Como está bom de ver, Berardo ainda tem muito para ensinar a quem lhe afagou o ego durante décadas. Não será bem a mesma noção de poder, habilidade e sobrevivência que o levou um dia a sugerir que os brancos ensinassem os negros, mas anda lá perto. Ou não fosse este milionário caído em desgraça o mesmo que, entretanto, se recusa a demolir o WC de luxo de sua casa, com vista para o Palácio das…Necessidades.

Apanhem-no, pois, se puderem.

Mas se pensam que isto vai lá puxando o autoclismo, talvez se enganem.

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Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.