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Quando Duarte Lima não era rico... E quase nos fazia acreditar nisso 

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

Acossado, Lima dizia-se vítima de uma “cabala política”, expressão típica do idioma da vitimização que a classe pratica, desde tempos que se desvanecem, em exercícios rotineiros de inimputabilidade. Às suspeitas sobre a alegada fortuna, o antigo deputado contrapunha pudor. “O que é ser rico?”, perguntava, quase filosoficamente

Nos últimos anos habituámo-nos a levar a mão ao bolso, de prevenção, quando lemos ou ouvimos o nome de Duarte Lima. Convenhamos: o ex-dirigente do PSD tornou-se, por assim dizer, uma personalidade “tóxica” para os contribuintes portugueses, embora não chegue aos botões de punho de Ricardo Salgado, esse sim, “Dono Disto Tudo” e ilhas adjacentes.

Segundo notícias recentes, este intelectual de pergaminhos, tarimbado na política, deve mais de 20 milhões de euros ao morto-vivo BPN e quase 11 milhões ao Novo Banco (antigo BES, lembram-se?). Nem a tentativa de vender o seu património imobiliário, mobiliário e artístico em leilão – incluindo os T6 e T4 de com cerca de 500 metros quadrados, os quadros e até o órgão, de que é tocador exímio – se revela música para os nossos ouvidos. Há dias, ainda não tinham aparecido propostas, mas podem ser apresentadas até dia 3, caso o leitor esteja entre aqueles que não sentiu cócegas nas finanças com a crise bancária nem dado pelo contributo, e respetivos juros, dos pequenos e graúdos Limas desta vida.

Hoje, mesmo com ressalvas e recursos, a ascensão e queda de Duarte Lima deixou de ser teoria da conspiração para se tornar numa narrativa judicialmente exposta. Há quase 22 anos, estavam em curso as primeiras investigações aos sinais de riqueza alegadamente obtidos à custa da política. A reação do transmontano foi de elevado recorte literário: “É um verdadeiro processo de Kafka, passado em igual ambiente doentio de destruição progressiva de personalidade, onde o absurdo ganha estatuto de normalidade e onde apenas faltou, até agora, o desfecho final em que os algozes defenestram a vítima pela lâmina aguçada do punhal, apenas com o testemunho silencioso e complacente da Lua”.

Trocado por miúdos, o antigo líder parlamentar do esplendor cavaquista proclamava inocência e desapego: “Não sou um homem rico”, garantira ao Expresso, em 1997, numa entrevista publicada a 25 de Abril, ou não fosse data, ela própria, garantia de liberdade de expressão. Acossado, Lima dizia-se vítima de uma “cabala política”, expressão típica do idioma da vitimização que a classe pratica, desde tempos que se desvanecem, em exercícios rotineiros de inimputabilidade. Às suspeitas sobre a alegada fortuna, o antigo deputado contrapunha pudor. “O que é ser rico?”, perguntava, quase filosoficamente. “Não me considero uma pessoa rica para o que são os padrões de aferição do que é uma pessoa rica em Portugal. Considero-me um homem com uma situação desafogada, que resulta de toda a minha vida”.

A vida dele, assegurava, tinha sido esta: “Comecei a trabalhar muito cedo. Por ter imensas oportunidades e bastante sorte, no momento da expansão bolsista em Portugal, fiz mais-valias de muito significado (…) Se, por acaso, tivesse posto o dinheiro lá fora ou o tivesse gasto de forma perdulária, ninguém daria por isso”.

Por acaso, até demos. Tarde e a más horas, claro, como é timbre deste País que ganha campeonatos da Europa no prolongamento. Quando ganha. O véu até fora levantado no jornal oficial do partido, logo em 1988, quando Duarte Lima chegou à direção do PSD, conforme assinalaram Filipe Santos Costa e Liliana Valente no livro O Independente – A Máquina de Triturar Políticos: “Recentemente comprou em Lisboa um apartamento de luxo de dezenas de milhares de contos, decorado por Graça Vierbo”, escrevia-se então sobre Lima, no Povo Livre. Mas quem lia o Povo Livre?

Seja como for, há 22 anos, Domingos Duarte Lima prometeu-nos um livro polémico e revelador sobre tudo isto e muito mais. E assegurava: “Um dia regressarei”. Por mim, pode ser como tocador de órgão.

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Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.