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A Grândola saiu à rua antes de Abril entre censores e “pides à paisana”

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

A Grândola, editada em 1971, cantou-se então pela primeira vez, em público, ombro a ombro. Por incrível que pareça, não era uma canção conhecida, passara até quase inofensiva no reportório de Zeca Afonso, mas saiu dessa noite, cantada uma e outra vez em uníssono, escolhida para ser uma das senhas da revolução, dali a poucas semanas

D.R.

Antes de iniciar o espetáculo daquela noite de 29 de março de 1974, o cantor e compositor Nuno Gomes dos Santos estivera aos beijos e abraços com antigos colegas de faculdade. Integrante da banda Intróito, Nuno cheirara os numerosos “pides à paisana” e os censores atrelados, enviados especiais ao I Encontro da Canção Portuguesa no Coliseu dos Recreios, organizado pela Casa de Imprensa. As preocupações dos homens fortes do regime, que dias antes sobrevivera a uma tentativa de golpe a partir das Caldas da Rainha, eram bem visíveis no aparato. Mais de sete mil pessoas foram intimidadas e vigiadas pela presença de polícia montada no exterior, munida de gás lacrimogénio, bastões, cães esfaimados, bombas de água e de tinta azul. Até ao tocar da sineta, ninguém deu o espetáculo por garantido.

Prevenindo-se, o regime então liderado por Marcelo Caetano autorizara uma versão higiénica do evento, estando os seus agentes no terreno instruídos para impedir que se cantassem letras e se dissessem poemas previamente censurados. Pela primeira vez, Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso, Manuel Freire, Fernando Tordo, Fausto, José Jorge Letria, Carlos Paredes, Carlos Alberto Moniz, Maria do Amparo, Rui Mingas e José Carlos Ary dos Santos, entre mutos outros, partilhavam o palco e só essa circunstância transformara o momento numa bomba-relógio. “Até o Patxi Andion [cantautor espanhol] esteve na assistência”, recorda Nuno Gomes dos Santos, então também felicíssimo por rever velhos amigos estudantes. “Até que percebi que um dos gajos com quem tinha estado aos abraços antes do início do espetáculo, o Felipe, era um dos enviados pela ditadura para reportar o que via e evitar que a coisa escorregasse. 'Meus senhores, estamos cá, vamos ouvir tudo o que vocês estão a dizer e só cantam aquilo que estão autorizados a cantar, ok?'. Fiquei pasmado e a malta ficou toda a olhar para mim, a pensar: 'Então tu ainda há um bocadinho estavas ali aos beijos e abraços com este gajo?!'”, recorda, com um sorriso, o músico que, após o 25 de Abril de 1974, correu Portugal de ponta a ponta a cantar a revolução.

A noite - tensa, ansiosa e libertadora – foi o que se sabe. A título excecional, e desde que limitassem a sua atuação à vertente artística, Adriano Correia de Oliveira e Zeca Afonso, então nomes proibidos, foram autorizados a participar. Entre as canções censuradas nessa noite estavam Venham Mais Cinco, Cantar da Emigração, Menina dos Olhos Tristes, A Morte Saiu à Rua, Balada do Pescador, Companheiro e Tango dos Pequenos Burgueses. A última quadra de Dulcineia, de José Gomes Ferreira, também seria vetada, inspirando a ironia de Manuel Freire que, a dada altura, “com ar de piada”, segundo os relatórios da Direção Geral de Espetáculos, justificou o esquecimento de algumas letras pelo facto de morar longe e de as ter perdido pelo caminho.

Fernando Tordo e Ary dos Santos viveram minutos delicados, vítimas circunstanciais da sua participação nos festivais da canção “da burguesia”, como então se dizia. O poeta que viria a ser de Abril foi vaiado, mas a sua voz rouca impôs-se com o Soneto Presente e os versos de SARL, “a pança do patrão não lhe cabe na pele”, tendo saído quase em ombros. Tordo, esse, nem à segunda tentativa conseguiu cantar a Tourada, “mas”, atalha Nuno Gomes dos Santos, “se a censura não tinha conseguido entender a canção também não podíamos esperar que a maioria dos que estavam no Coliseu entendessem”.

Ali, desafiou-se tudo: o “marcelismo”, a PIDE/DGS, as mordaças várias. A incerteza quanto à realização do espetáculo manteve-se até ao abrir das cortinas. Caetano de Carvalho, subsecretário de Estado da Informação e Turismo, ainda andou por ali a tentar que se cancelasse o espetáculo, dado o elevado número de cantigas e poemas proibidos, mas houve quem o alertasse para o barril de pólvora que enfrentaria caso isso acontecesse.

No final, a Grândola, editada em 1971, cantou-se então pela primeira vez, em público, ombro a ombro. Por incrível que pareça, não era uma canção conhecida, passara até quase inofensiva no reportório de Zeca Afonso, mas saiu dessa noite, cantada uma e outra vez em uníssono, escolhida para ser uma das senhas da revolução, dali a poucas semanas. O espetáculo – cuja documentação está hoje à distância de um clique no site da Torre do Tombo deu 123 contos de lucro, pouco mais de 600 euros hoje. Mas a lotaria, na verdade, saiu-nos a todos.

Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.