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'A Desfolhada' chegou a Simone em segredo e ela cantou-a entre insultos e GNR a cavalo

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

Até entrar no palco do Teatro São Luiz, Simone continuou “apavorada”: não sabia os versos todos, não conseguira decorar a cantiga. “Era um lençol, de facto”, acode Nuno Nazareth Fernandes. Mas a Desfolhada ganhou e abalou o País do respeitinho. Com consequências inimagináveis, sobretudo para quem a cantou.

Foi numa badalada boîte de Lisboa que Simone de Oliveira leu, pela primeira vez, o poema de José Carlos Ary dos Santos, depois transformado na canção vencedora do Festival da Canção de 1969, fará este domingo, 24 de fevereiro, meio século. “A Galeria 48 era uma casa maravilhosa, onde muitas vezes se apresentaram o Thilo Krassman, o Carlos do Carmo, a Maysa e eu própria. Uma noite apareceu lá o José Mensurado [jornalista e apresentador da RTP], com um papel de embrulho. Dentro estava a Desfolhada. A letra saíra à sorrelfa da televisão, uma coisa que não podia acontecer, e ninguém percebeu como é que ele conseguiu trazer aquilo cá para fora”, recorda a cantora. Ao espanto seguiu-se outro. “«Quem faz um filho fá-lo por gosto?!». Ficámos de boca aberta, numa mesa, a ler o poema. «De quem é isto?», perguntei. «É daquele poeta comunista que escreve para a Amália», respondeu o Mensurado, quase sussurrando. E ficou-se por ali”.

Simone de Oliveira foi a terceira ou quarta escolha para o festival, apesar de, anos antes, ter ganho com Sol de Inverno. Mas aquela era outra letra e outro tempo. Salazar, desmemoriado e acamado, caminhava para o fim e muitos, ingénuos, ainda acreditavam que a ditadura teria direito à sua primavera, com Marcelo Caetano. “Um dia, chego a casa do Zé Carlos e digo: «Vamos ganhar o festival este ano. Está aqui a música. Só tens de fazer um poema e sermos inteligentes para receber votos de todas as capitais de distrito”, recorda o compositor Nuno Nazareth Fernandes. “A letra era forte, uma pedrada no charco, mas a intenção era só a de ganhar o festival, nada mais. E ainda tivemos de mexer numa passagem”, recorda. Onde se escrevia “Oh minha terra / minha aventura/ casca de nós / desamparada” mudou-se para casca de…noz. “Casca de nós era o País, nós enquanto povo, desamparados”, explica o autor da música. Depois, veio a parte mais turbulenta: escolher a cantora.

Na versão de Nuno Nazareth Fernandes, chegou a pensar-se em Amália, mas, nessa altura, o seu estatuto já era outro, bem acima dos certames festivaleiros. Elisa Lisboa também foi descartada, Madalena Iglésias descartou-se. Até que um dia, José Carlos Ary dos Santos e a sua trupe entraram com estrondo, ele esbaforido, no restaurante Candelabro, propriedade de Simone. O poeta, no seu estilo trovejante, atirou:

- “Onde é que está aquela mulher grande com aquele vozeirão horrível?”.

- “Estou aqui”, respondeu ela, meio intimidada.

- “És capaz de cantar isto?”, continuou ele, desafiante, de poema na mão.

- “Sou”.

- “E não tens vergonha, nem nada?”

- “Eu não. Tenho filhos e fi-los por gosto”.

No País cinzento de então, produtor de aparências, famílias certinhas e casamentos abençoados, A Desfolhada, cantada por aquela mãe solteira, era uma espécie de “seara em movimento”, abalando convenções de um regime que mais parecia a tal “cisterna escura onde se alpendra a desventura”. Simone não disse, mas tremeu. “O poema era complicado”, reconhece. “Não só pela passagem mais polémica, mas pela forma, nada parecida com o que eu, até ali, havia cantado. Mas o Zé Carlos, com o seu talento e sensibilidade, terá imaginado que alguém seria capaz de tirar o excesso de raiva que eu muitas vezes tinha a cantar. E essa pessoa foi o compositor da Amália, o Alain Oulman, com quem ensaiei umas três ou quatro vezes em casa dela”.

Até entrar no palco do Teatro São Luiz, Simone continuou “apavorada”: não sabia os versos todos, não conseguira decorar a cantiga. “Era um lençol, de facto”, acode Nuno Nazareth Fernandes. Mas a Desfolhada ganhou e abalou o País do respeitinho. Com consequências inimagináveis, sobretudo para quem a cantou. “Nunca na vida me passou pela cabeça que as pessoas me insultassem nos restaurantes, me dissessem coisas horríveis, me chamassem puta. Estive para ser presa, fui incomodada na rua, sobretudo por homens. Durou uma temporada larga. Foram tempos difíceis, com implicações para os meus filhos, pois eram miúdos”, recorda Simone, no sofá de sua casa, onde recupera de uma cirurgia. “Nessa altura, fui dar um concerto a um campo de futebol, acompanhada pelo conjunto de Jorge Machado. Quando começo a cantar a Desfolhada, levanta-se um senhor na primeira fila, indignado: «Minha senhora, como se atreve a dizer uma coisa dessas?! É tamanha degradação, parece impossível!». Disse o que lhe apeteceu, falou, falou. Os músicos pararam, olharam para a minha cara e sabiam muito bem que ia dizer qualquer coisa. E disse: «Olhe, é assim: eu digo que quem faz um filho fá-lo por gosto, mas não fui eu que escrevi este poema, foi o Zé Carlos Ary dos Santos. Assumo-o com paixão e digo-lhe uma coisa: se o senhor não faz um filho por gosto é porque não pode, não sabe ou já se esqueceu!”, respondeu-lhe. “Acabou com GNR a cavalo! Eu fiz coisas do arco da velha!”, recorda, entre sorrisos.

Pouco tempo depois, a cantora perdeu “aquela” voz. O pio, como ela gosta de dizer. “No fundo, foi a melhor coisa que me aconteceu, caso contrário ia ser toda a vida a menina dos festivais. Às vezes, passam coisas minhas, antigas, na RTP Memória, e peço logo para desligar o programa por causa daquela rapariga esganiçada!”.

A mulher de então fez, há poucos dias, 81 anos. A voz é outra, mas, desafiando-a, ainda aguenta as curvas das melodias. E do tempo. A Desfolhada, essa, permanece. E até novas gerações a cantam. Mas nem tudo mudou. “Quando fizemos Simone, o Musical, a senhora que fez um dos meus vestidos dizia-me com ar um bocadinho comprometido: «Ainda hoje quando ouço aquilo do quem faz um filho fá-lo por gosto, olho para baixo». E a verdade é que não foi capaz de dizer isto a olhar para mim”.

Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.