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Era uma vez o vigário do BPN e o futuro com “outra leveza”

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

Na verdade, tal e qual prometia o BPN, não há como “encarar o futuro com outra leveza” e ter banqueiros destes a criar riqueza “para o bem da sociedade”. É certamente um peso que nos sai de cima. Só não sabemos quando, claro

O anúncio que inspira esta crónica andou pelos jornais em dezembro de 1997 e prometia, naqueles radiosos primeiros anos de guterrismo, um amanhã sem preocupações. Por essa altura, o pujante e dinâmico Banco Português de Negócios (BPN) desafiava-nos a subscrever as aplicações financeiras do grupo para que pudéssemos encarar os tempos vindouros “com outra leveza” graças à segurança do investimento e ao retorno em benefícios fiscais. Ou melhor dito, citando a respetiva publicidade: “Tire um peso do seu futuro. E já agora dos seus impostos”.

Em 2002, já com um governo PSD no poder, o então administrador Oliveira e Costa, ufano, não disfarçava o orgulho na pedalada do banco numa entrevista ao Expresso: “No BPN, o crescimento deve -se ao forte alargamento da rede de balcões, à política de recrutamento e à forma como os colaboradores são tratados. No BPN, estimula-se a criatividade e o sentido de dever. O crescimento do BPN é vivo e bem harmonioso, como revelam os seus indicadores”. Como se estas palavras não fossem já de si luminosas, o ex-governante de Cavaco Silva assegurava: “Estamos aptos a suportar os efeitos das políticas de austeridade de que o país precisa sem deixarmos de continuar a crescer a bom ritmo (…) O BPN está ótimo e recomenda-se”, garantia, terminando com uma comovente nota pessoal: “O meu sonho renova-se no dia-a-dia no desejo de fazer bem a minha obrigação de criador de riqueza para o bem da sociedade”.

Quase 17 anos depois da entrevista, a história do BPN adivinha-se, ainda hoje, interminável. Condenado a 14 anos de prisão, o banqueiro Oliveira e Costa é agora um dos sete arguidos obrigados pela Justiça a indemnizar o Estado, o BIC e a Parvalorem em 98 milhões de euros. Mas segundo Vítor Caldeira, presidente do Tribunal de Contas, as “ajudas” dos contribuintes à banca, ascenderam, numa década, a 16,7 mil milhões de euros. Tradução: mais ou menos o que o Estado orçamentou para pagamento de pensões no ano passado. O problema, porém, é que a fatura “ainda não está fechada”, avisou ainda aquele responsável ao Jornal de Negócios.

Na verdade, tal e qual prometia o BPN, não há como “encarar o futuro com outra leveza” e ter banqueiros destes a criar riqueza “para o bem da sociedade”. É certamente um peso que nos sai de cima. Só não sabemos quando, claro.

Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.