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1992: a entrevista esquecida do “capitão” Jair Bolsonaro

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

Em 1992, Bolsonaro chegara até onde era possível, “democraticamente”. Um quarto de século volvido, que democracia será possível, com ele?

“Cheguei até onde se pode chegar democraticamente”. Há, nesta frase de Jair Bolsonaro, todo um programa. Não só pelo que afirma, mas também por aquilo que esconde, insinua ou deixa adivinhar. Qualquer leitor mais distraído garantiria que a declaração do atual presidente do Brasil poderia ter sido proferida ontem. Mas, na verdade, tem quase 26 anos.

Bolsonaro foi entrevistado a 9 de maio de 1992 para o semanário Expresso pela sua correspondente no Rio de Janeiro, Iza de Salles Freaza. Nessa rara conversa com um jornal português, percebe-se o óbvio: a democracia já era um obstáculo para o então capitão na reserva. O mais recente chefe de Estado brasileiro estava então longe de saber que a democracia – ou a degradação dela e das suas instituições - ainda haveria de lhe revelar um universo de possibilidades, do qual só sabemos, por agora, o começo.

Nesses anos que se seguiram ao final da ditadura militar (1985), ele ficara famoso por liderar a contestação dos quartéis, dentro dos quais crescia a indignação e a revolta por causa das perdas salariais em tempo de infantil democracia. Com discursos inflamados, Bolsonaro, eleito deputado federal, mobilizara a chamada Marcha pela Dignidade da Família Militar, deixando pistas para o que podia acontecer: “A paciência dos militares está a atingir os seus limites. E quando chega a um determinado ponto eles não costumam fazer manifestações. Com a barriga vazia ninguém raciocina bem. A fome é a pior conselheira”.

No congresso, temia-se um golpe à peruana ou à venezuelana, atirando o país para tempos ainda frescos na memória coletiva do Brasil. “Um militar não faz greve, faz levantamento”, avisara José Genoino, ex-guerrilheiro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que, curiosamente, seria condenado por corrupção no âmbito dos escândalos que minaram o PT nos últimos anos. Esses receios, que contagiaram o presidente Collor de Melo, acabariam por garantir um aumento de 80 por cento aos militares, em nome do sossego do país e da tranquilidade nas casernas. “Estamos só no começo”, advertira Bolsonaro ao Expresso, deixando então cair: “Eu não conspiro, mas se houver uma revolta, toda a gente sabe onde estarei”, ameaçara, em nome do povo e contra o país de “oportunistas e corruptos”, porquanto “a voz do povo é voz de Deus”.

Em 1992, Bolsonaro chegara até onde era possível, “democraticamente”.

Um quarto de século volvido, que democracia será possível, com ele?

Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.