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Estagiários, carne picada e mentalidade gourmet

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

Do retrato do Diário de Lisboa sobre o País de 1978 ao drama atual do cozinheiro José Avillez confessado ao Observador, perdeu-se em catastrofismo gastronómico e delírio anti consumista, mas, a julgar pelas palavras do conceituado chef, enfrentamos ameaças maiores : entre elas, a impossibilidade de recrutar estagiários nas escolas de hotelaria para “ajudar num evento” sem poder obrigá-los a trabalhar mais de oito horas por dia

Portugal, 1978. Lisboa é pecado capital, de “poucos desejos” e “muitas frustrações”. Na cidade “insuportável”, onde se tornou “penoso” andar a pé nas ruas e “mais caro e mais imbecil guiar um carro”, um número cada vez maior de empregados “não tem tempo para ir almoçar a casa”. Estão, pois, criadas condições para instalar no País o hábito de levar “sanduíches” para o emprego. E também, já agora, de nos habituarmos a comer qualquer coisa em pé, mal e depressa, no balcão da esquina.

As tascas estão em vias de extinção. E o “prego” será um produto de exceção. Rima, mas é prosa. Desencantada. O território nacional é invadido pela “carne que não se preza”, “mistura” sobre a qual “ninguém perguntará de que bicho, ou parte de bicho”, é feita: sim, esse mesmo, o hambúrguer, vício imperialista. A isso juntam-se o “consumo cego”, shoppings “de plástico” e “filhos de meia-dúzia de gatos pingados” das classes médias, “racistas e segregadoras” que “ainda têm um instante para se sentirem em casa nos centros comerciais, antes de eles serem invadidos pelos cabo-verdianos, pelos chulos do Parque Mayer e pelos liceais”.

A Lisboa “europeia” é simulacro de “paraíso do consumo” disfarce da sua “forma urbana de deserto”, cujo futuro anuncia “penúria” e “exaustão generalizada”, embora as grandes editoras invistam em “luxuosos volumes sobre a culinária portuguesa” num mercado que será, “pelo menos, o mesmo do das grandes coleções de arte ou da história das armas”.

Sob a forma de vacina capitalista para anestesiar comensais de antanho, tudo isto impede, mesmo sonhando com o espírito de Aljubarrota, que seja possível suster galhardamente “o avanço do hambúrguer”. Panados, pastéis de carne, empadas e almofadas de vitela de produção nacional, operária e tasqueira, vão à luta, mas perdem tamanho, peso e influência diante do avanço industrial. E, já agora, “quem acredita no futuro dos pastéis de bacalhau?”

Deste retrato do Diário de Lisboa sobre o País de 1978 ao drama atual do cozinheiro José Avillez confessado ao Observador (29 de dezembro de 2018), perdeu-se em catastrofismo gastronómico e delírio anti consumista, mas, a julgar pelas palavras do conceituado chef, enfrentamos ameaças maiores: entre elas, a impossibilidade de recrutar estagiários nas escolas de hotelaria para “ajudar num evento” sem poder obrigá-los a trabalhar mais de oito horas por dia. Para Avillez, é essa a “mentalidade assustadora” que “vai destruir o nosso País”. A receita de sucesso, pelos vistos, é fazer das nossas vidas carne picada. Mas agora em versão gourmet, claro.

Arquivo Morto” é uma crónica semanal com recurso a fotografias, documentos e recortes de Imprensa que preservam a memória de acontecimentos, protagonistas e factos esquecidos, fazendo a ponte para a atualidade.

Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.